Eu não lhe disse?

O deserto
A mulher avisou o moço, Ela não é fácil de conviver, Tem gênio difícil de lidar e entender, Você se meterá numa enrascada nesse casamento, Ouça o meu aviso, Fuja enquanto não casou, Procure outra melhor que esta, disse ao moço a mulher que bem conhecia a moça com a qual, não obstante o aviso, se casou o moço que lamenta não ter atentado para o aviso da mulher antes futura depois atual e agora falecida sogra que perto de morrer perguntou ao genro, Eu não lhe disse?

Antes

antes
A pintura, obra de um pintor cubista expressionista impressionista e renascentista, era um deleite para os olhos abertos, mas não para os olhos fechados porque olhos fechados nada veem para fora, só para dentro.

O pintor era fã de Richard Strauss, Richard Wagner, Johann Sebastian Bach e Ludwig van Beethoven, mesmo vivendo antes do nascimento desses compositores que não conhecia.

O pintor era fã de futebol, antes da invenção do futebol. Era torcedor do Sport Club Corinthians Paulista e da Sociedade Esportiva Palmeiras, cujas escalações completas recitava, antes da fundação do SCCP e da SEP. Tinha camisas e bandeiras dos dois times, antes da invenção de camisas e bandeiras de times de futebol.

Comprou ingressos para todos os jogos de Corinthians e Palmeiras no campeonato, antes da invenção de ingressos e campeonatos.

No tempo do pintor, tinha jogos onde os jogadores disputavam aquilo que não sabiam se era redondo ou quadrado porque era invisível se não fora inventado. Sendo aquilo invisível, o jogo era não jogo e os jogadores entravam em campo e ficavam parados a olhar uns para os outros e os espectadores a olhar para todos os jogadores e ganhava o não jogo aquele que risse primeiro.

Alguns minutos antes de morrer, o pintor perguntou à pessoa que o acompanhava se sabia se o jogo da noite seria transmitido pela tv que não fora inventada e pediu o jornal que também não fora inventado para ver a programação das transmissões dos jogos.

Séculos depois da morte do pintor, o museu que expunha suas obras incendiou-se porque um rojão disparado por um torcedor de futebol que comemorava a vitória do seu time no jogo final do campeonato, entrou por um vão do telhado, ateando fogo a uma pilha de jornais velhos guardados no sótão.

Os carros do corpo de bombeiros demoraram para atravessar a enorme quantidade de torcedores que ocupavam a praça e o incêndio queimou o museu e todos os quadros do pintor.

As pessoas que com olhos abertos deleitaram-se com a pintura, agora só a podiam ver com os olhos fechados em suas memórias.

Loucos

loucos
Então, fica assim.

Ele é louco por ela e conta para ela que é louco por ela.

Ela é louca por ele e conta para ele que é louca por ele.

De vez em quando, ele repete para ela que é louco por ela e ela repete para ele que é louca por ele.

Ele fala somente para ela que é louco por ela. Fala, segurando as mãos dela e olhando-a nos olhos. Ou no ouvido dela, quando se abraçam.

Ela fala somente para ele que é louca por ele. Fala, segurando as mãos dele e olhando-o nos olhos. Ou no ouvido dele, quando se abraçam.

Encruzilhadas

encruzilhadas
Fazia tempo que andava pela estrada de terra larga e deserta. Quase um dia inteiro de caminhada e não vira uma pessoa, um veículo e um animal. Durante algum tempo, andara de cabeça e olhos virados para o solo e não vira sequer formigas. Nas áreas de planície, o vento provocava a poeira em redemoinhos que não duravam muito porque só tinha poeira para brincar.

Então, chegou à encruzilhada com caminhos em frente, à direita e à esquerda semelhantes mas não iguais se são três. As instruções que não recebera não indicavam qual caminho seguir. Anoitecia e logo não conseguiria enxergar nada na escuridão da noite sem luar.

Montou a barraca no meio da encruzilhada, juntou gravetos para a fogueira, esquentou a lata de comida que comeu, escutando no rádio portátil o concerto de Bach transmitido em ondas curtas por uma das rádios da BBC inglesa.

No fim do concerto, enterrou a lata vazia de comida, lavou a colher com um pouco de água do cantil, bebeu o resto da água, amanhã teria de encher o cantil com água do riacho cujo ruído parecia ouvir, desligou o rádio portátil que guardou embrulhado em panos na mochila. Recolheu-se à barraca e dormiu.

Acordou antes de nascer o dia. Acendeu a fogueira apagada durante e noite, esquentou a lata de café, molhou no café o pão duro que tirou da mochila, bebeu o resto do café, apagou a fogueira, enterrou os restos da fogueira e a lata de café junto com a lata de comida da noite anterior, desmontou a barraca e olhou para a esquerda, para a direita e para a frente na encruzilhada.

Com o binóculo viu que mais à frente o caminho da esquerda era entortado para a direita e o caminho da direita era, por sua vez, entortado para a esquerda. Não seguiu o caminho da esquerda nem o da direita. Agiu como se não tivesse encruzilhada e seguiu em frente na mesma direção de onde viera.

Mais à frente no tempo e na distância, sempre tem mais à frente no tempo ou na distância, atingiu outra encruzilhada em posição contrária da anterior. Nesta chegavam três caminhos, um da esquerda, um da direita e outro de trás, este último de onde viera.

Ela pensou que o caminho que chegava da esquerda era o que saía para a esquerda e curvava para a direita na encruzilhada anterior. O que chegava da direita saía para a direita e curvava para a esquerda.

Com o binóculo viu que a estrada terminava mais à frente, exatamente embaixo de uma placa onde leu: FIM.

A máquina telefone

a máquina telefone
– O que é aquilo?
– Aquilo o quê?
– Aquele aparelho com botões.
– Ora, vejam só, a máquina telefone!
– Um telefone! Tem a ponta de um fio ligado nele.
– Todo fio tem duas pontas.
– Sim, a outra ponta está numa tomada na parede.
– Será que funciona?
– O fio?
– Não, o telefone.
– Vejamos. Funciona. Pelo menos, faz um barulhinho.

– Ligue para o Papa.
– Por que para o Papa?
– Ele disse que atende a todos os fiéis. Você é fiel?
– Sei que não sou infiel. Não ser infiel, faz de mim fiel?
– Melhor perguntar para o Papa.
– Ligações interurbanas custam mais caro.
– O Papa atende num número 0800.
– Assim, sim.

– O Papa não estava. Foi ao dentista.
– Não faz mal. Descobrimos que a máquina telefone funciona.
– Sim, e podemos abandonar os sinais de fumaça.
– Tem razão. Não aguentava mais a fumaceira dentro de casa.

Para Mário de Andrade, autor do magnífico Macunaíma.

Concertos matinais

música clássica
Quando era solteiro e morava no Bom Retiro, nas manhãs de domingo usava roupas de passeio para ir ao Theatro Municipal de São Paulo assistir aos concertos de música clássica. A entrada era franca, bastava ir, entrar e assistir ao concerto.

Não tento me lembrar de detalhes como o teatro, as orquestras, as músicas e as pessoas. Se tentasse, não conseguiria porque as lembranças sumiram ou esconderam-se para brincar de ser irrecuperáveis.

O espetáculo que a memória recupera sons e imagens é o da apresentação do Jacques Loussier Trio, entrada franca, numa noite de semana de 1970. Músicas de Bach que o Trio começava tocando em andamento clássico para trocar, sem aviso para surpresa e encantamento, ao andamento jazzístico. Uma maravilha!

Nunca fui a outro teatro de ópera ou de concertos.

Não fui ao Berliner Philarmoniker, ao Mariinsky Theatre, ao Metropolitan Opera, ao Palais Garnier, ao Royal Albert Hall, à Sydney Opera House, ao Teatro alla Scala, ao Teatro Amazonas, ao The State Academic Bolshoi Theatre of Russia e ao Wiener Staatsoper.

Não fui e jamais irei.

Liberdade

liberdade
– Boa tarde, senhora. Seja bem vinda. Entre, por favor. Aproxime-se do fogo da lareira. Está frio, lá fora. Sente-se nesta poltrona, é a mais confortável. A quem tenho a honra de saudar e receber em minha casa?
– Percebo que não me reconhece. Nunca me viu? Nunca esteve na corte?
– Temo não reconhecê-la, senhora. Desculpe-me por olhá-la com admiração. Rendo minhas homenagens à sua beleza. Sabe, raramente viajo, trabalho aqui na maior parte do tempo, sou escritor. Nunca fui à corte e jamais participei dos bailes no castelo da Rainha.
– Agradeço o elogio à minha beleza. O senhor é um homem bonito e tem sorriso agradável de olhar. Sou a Rainha.

– Sinto-me honrado com a presença da minha Rainha e do nosso lindo país. Meu sorriso é um tributo à senhora. Como tem passado, Vossa Majestade?
– Estou bem, obrigada. E ao senhor, senhor conde, como lhe tem sido os dias?
– Em paz, senhora. Em paz com meus raciocínios, pensamentos e escritos. Mas a que devo a insigne visita de Sua Majestade?
– Vim comunicar-lhe a libertação.

– Libertação, senhora? Se não estou preso!
– Está preso a um casamento.
– Sou casado, tem razão Vossa Majestade. Mas temo não considerar como uma prisão esse casamento.
– A libertação não é para si e sim para sua mulher.
– Deveras? Jamais ouvi dela tal desejo. De verdade, poucos desejos dela ouvi.
– Ela temia magoá-lo, ao lhe dizer.
– Não me magoaria. Já o esperava. O comportamento dela não deixava espaços à dúvida.
– Pois ela me procurou com o pedido de livrá-la do senhor e do casamento. Pediu-me que o informasse como se o senhor fosse libertar-se, quando ela é que deseja a liberdade.

– O que propõe, Vossa Majestade?
– Aceite sua falsa liberdade e conceda a verdadeira liberdade a sua mulher.
– Ouço e obedeço, senhora. De fato, a libertação é para ambos, para mim e para minha ex-mulher, assim a chamarei, por enquanto. Depois, não a chamarei de mais nada.
– Assim seja. A partir de agora, é um homem solteiro, senhor conde. Sua ex-mulher tambem é solteira para casar-se com o Duque, seu melhor amigo.
– Espero não ser convidado a comparecer às bodas de minha ex-mulher com o Duque. Prefiro manter intacta minha dignidade.
– Asseguro-lhe que não será convidado. Apenas, mude-se porque o Duque quer morar com sua ex-mulher, mulher dele após o casamento, nesta casa que ao senhor pertencia, até hoje.

– Não me importo de me mudar. Tenho pouco a carregar. Sou de poucas posses materiais. Livros, ferramentas, alguns guardados, lembranças de outros tempos, poucas roupas.
– Venha comigo. Seu lugar no castelo está preparado à sua espera. Li os seus livros, quero vê-lo trabalhar, conviver com sua inteligência e generosidade. Alem de casa e comida, ofereço-lhe um salário mensal para que escreva minhas memórias. Se aceitar minhas ofertas, é claro.
– Aceito, agradecido e encantado. Daqui a alguns minutos, terei juntado minhas coisinhas e poderemos partir.

– Estou pronto.
– Só leva isso desta casa imensa?
– Sim, é suficiente, embora pouco.

– Ótimo. Abrace-me, meu amigo.
– Abraço-a e beijo-a nas faces, minha amiga.

Desalento

desalento
Tu te enganaste. Em algum momento da tua vida, te enganaste de pessoa com a qual passaria a vida.

Não te enganei de propósito. Não posso ser culpado por parecer outra pessoa aos teus lindos queridos e amados olhos.

Essa é a realidade. Eu te amei como consegui, com afeição dedicação angústia e tristeza por causa do teu distanciamento. Em algum momento que não detectei, tu percebeste o engano e decidiu consertá-lo.

Não soube o que esperavas de mim. Tu nunca o disseste. Também jamais disseste que me amava, talvez por não ter amado. Nunca disseste que me desejava, talvez por não ter desejado.

Todos esses anos ao teu lado, não me senti amado e desejado.

No teu raciocínio peculiar, eu devia descobrir por meus próprios meios o que te faria feliz e te faria me amar. Então, tentei te amar te adorar e te desejar. Em vão porque te afastavas de mim mais e mais. Minhas tentativas desorganizadas desarvoradas e angustiadas foram inúteis.

Te afastaste tanto que perdi o direito de te amar, de te chamar meu amor, de tocar em ti e te desejar.

Não te peço que voltes, não tenho esse direito e tu não tens para onde voltar porque nunca estiveste de fato comigo.

Reencontro

reencontro
Quando se encontraram pessoalmente, sabiam que não seria para sempre.

Tinham se reencontrado, por acaso, por um desses meios estranhos de contato impessoal dos tempos modernos. Coisas como Facebook, Twitter, e-mail, telefone celular, WhatsApp, Messenger.

O tempo do namoro ficara no passado, escondido por vidas inteiras com casamentos, filhos, netos, responsabilidade, tristeza e solidão.

Trocaram mensagens e só se viram nas letras escritas e lidas. Decidiram encontrar-se, não sabiam bem para quê. Saudade, amor, afeição e angústia.

Quando se perceberam completamente sós, abraçaram-se e nenhum dos dois viu as lágrimas nos olhos do outro.

Dilema

curuc
Amargura antipatia cólera desagrado desamor desprezo irritação mágoa ódio raiva e rancor.

São sentimentos fáceis com uma característica comum.

Juntos ou separados, são incapazes de contribuir para qualquer construção.

Ninguem, até hoje, construiu com eles um palito sequer.

São sentimentos não construtores, frequentemente destruidores.