Oito e nove horas da manhã

Uma linda paisagem
Oito horas da manhã no horário normal, nove horas no horário de verão que começou em 16 de outubro na Primavera. Embora o calendário aponte 6 de janeiro e o relógio nove horas do horário de verão, é o calor intenso que esclarece estar o Verão abaixo do Equador.

A Av. Gen. Olímpio da Silveira, no centro da cidade de São Paulo, empurra automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas por baixo do Minhocão como o povo chama o que para a Prefeitura é a/o Via Elevado Pres. João Goulart, uma ponte de concreto comprida que convive com a avenida de baixo.

Viaja gente nos automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas, vai gente a pé nas calçadas, alguns sairam da Estação Mal. Deodoro do Metrô e não estão na Av. Gen. Olímpio da Silveira porque a estação fica na praça de mesmo nome dela, a estação. Dos domínios do Marechal aos do General e até aos do Brigadeiro porque para os lados da Barra Funda tem a Rua Brigadeiro Galvão.

Como não tem os nomes das avenidas praças bulevares ruas elevados passeios e vias escritos nas calçadas, não sabemos se sob a proteção do Marechal ou do General, um casal dormia na calçada em frente a uma loja.

Dormiam atravessados na calçada larga com os pés protegidos da chuva pelo Presidente e a cabeça pelo Marechal ou General. O resto dos corpos protegia um cobertor velho que não sabia se fora novo porque cobertores não têm memória. Aos cobertores interessa proteger no presente e não adianta perguntar-lhes se algum dia foram novos.

O Minhocão faz sombra e age como uma chapa esquentada pelo sol de verão que transmite com a sombra o calor e a poeira poluição sujeira barulho e ruído. De novo: calor poeira poluição sujeira barulho ruído e calor. Só os teimosos ou os iluminados dormem naquelas condições.

Os originários do reino de Samaria, os samaritanos, olham para essas pessoas. Não vim de Samaria porque sou bauruense/garcense, mas olhei para o casal ao passar. Foi um daqueles olhares para a direita esquerda acima abaixo à frente e não atrás porque não se olha para trás ao andar para não arriscar trombar com um poste ou uma banca de jornais.

Quando passava pelo casal e os olhei para a direita, ele acordou, espreguiçou-se e virou-se para ela tambem desperta. Não se mexeram, não se tocaram, sorriram. Ambos sorriram, ela para ele ele para ela.

Sorriram enquanto eu passava e os fotografava com a câmera analógica sem filme da memória. Não mostro a fotografia porque ainda não sei digitalizar as imagens da memória.

Livros

Floresta com montanhas ao fundo
A solidão entrou na sala e anunciou-se:
– Aqui estou. Chamou-me e vim.

Ela apontou para uma cadeira com forma de confortável:
– Acomode-se. Vamos ler em voz alta, que tal? Eu começo e, se me cansar, você continua.

Trouxe da estante para a mesa As Intermitências da Morte, de José Saramago, Dresden, de Frederick Taylor, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e O Senhor das Moscas, de William Golding.

Abriu As Intermitências da Morte e começou a ler.

A solidão apoiou-se no encosto da cadeira e fechou os olhos. Parecia dormir, mas não.
De vez em quando, abria os olhos e sorria para a leitora

Fantasmas

fantasmas
Um escritor escrevia e publicava seus livros sob um pseudônimo, foi premiado num concurso literário, ficou em situação complicada porque não queria se desvendar ao receber o prêmio, enviou em seu lugar o fantasma de um agente secreto que não tinha como ser desvendado porque, se não se desvendara como vivo, menos ainda o faria como fantasma.

Perdedor

perdedor
Era uma vez um perdedor um mal sucedido um zero à esquerda um pobre-diabo e um joão ninguem que poderia estar aflito agoniado amofinado angustiado apoquentado atormentado atrapalhado aturdido desencaminhado desnorteado desolado desorientado injuriado perdido perturbado sem Norte Sul Leste Oeste e transtornado que não desistia porque se considerava um lutador que ganhava algumas batalhas perdia outras não ganhava e não perdia todas, mas tinha saldo positivo de vitórias com as quais aprendia tanto quanto com as derrotas.

A menina, a mãe da menina e a chuva

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16h45. Terminou o dia na creche.

Fez muito calor no domingo e hoje. A chuva que cai às 16h45 é até agradável para quem vai pela rua sem guarda-chuva.

A menina, uns 3 anos de idade, e a mãe voltam da creche, a mãe com a mochila da menina nas costas e a pequenina pela mão.

Não carregam guarda-chuva e a chuva não parece incomodá-las. Pelo menos, não a menina:

– Ainda bem que a mãe não trouxe guarda-chuva, assim posso brincar na chuva.

Assim é, se lhe parece

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Finalmente, as conclusões do raciocínio. Raciocínio tardio, vários anos a se debater com aquele tipo de problema, angústia, desalento, perplexidade nada resolveram. Teve de raciocinar para concluir. Em seguida, as conclusões, na voz da pessoa.

“Esse é o ponto. Desprezo, ódio, agressões, insultos, serão respondidos com a exclusão da pessoa da minha vida. Assim, livro-me de gente que me atrapalha, quem não me merece deve desaparecer da minha vida. Tenho de extirpar – palavra dura demais, melhor seria dizer apenas afastar – isso, tenho de afastar da minha vida. Ainda não está bom. Vejamos, tenho de me afastar das pessoas que me fazem mal. Ficou bom. Me afastar das pessoas que me fazem mal. Não importa se pretendiam um efeito e causaram outro. Não são pessoas incapazes de perceber o efeito de suas ações. Percebem e não se importam? Tanto faz. A mim importam o efeito, as consequências, os resultados. Se a pessoa causadora do efeito não o avaliou, é dela a falha de avaliação. Se uma pessoa tem falha de avaliação e suas ações me prejudicam, é desta pessoa que devo me afastar. Não tem de ser diferente. São pessoas que me prejudicaram, agem voluntariamente. Não tive a intenção de ofender. Ofendeu. Por que não ficou em silêncio? O silêncio teria sido bom, o silêncio teria feito bem a ambos. Quase completa esta descrição. Falta apenas salientar que minhas ações consequentes do raciocínio não devem ter raiva, ressentimento, ódio, mágoa ou tristeza. Minha reação não é emocional, não é momentânea, não é explosiva. As ações decorrentes do raciocínio são suaves, calmas, sem pressa, raiva e ressentimento.”

Così è (se vi pare) (“Assim é, se lhe parece” em português) é o título de uma peça de teatro do escritor italiano Luigi Pirandello, escrita em 1917.

O desprezo e a responsabilidade

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Ela o desprezava e rejeitava. Não escondia nem disfarçava, até se vangloriava para amigos e conhecidos.

De vez em quando, tinha breves recaídas e trazia-lhe doces das festas que frequentava. Ele achava engraçado, quase ria do comportamento estranho dela, sabia que a mudança era temporária e absurda.

Em muitos anos de casamento, ele não entendia e se ressentia. Dedicara a vida a ela e nada conseguira. Onde estaria o erro?

Ele estava preso a ela, tinha sua vida presa à dela. Não era livre para pequenas atitudes como cancelar o contrato da tv e do telefone fixo. Não tinha controle sobre a própria vida por causa da outra vida grudada à sua, da qual não captava calor.

Um dia, pensou que as atitudes dela em relação a ele, ao casamento, à vida juntos, eram direito dela, que ela agia como tal porque tinha direito. Não diziam respeito a ele mas apenas a ela mesma.

Não era correto ele não entender, se ressentir ou reclamar porque violava o direito inalienável dela.

Entretanto, ele tambem pensou que, ao exercer ela um direito que ele não tinha direito de contrariar, tambem desaparecia a responsabilidade dele com ela.

Ele podia deixar de amá-la, podia deixar de sentir-se responsável pela felicidade dela, deixar de ser responsável pelo bem estar dela.

Podia silenciosamente desaparecer porque, ao não perceber nem sentir falta, ela ainda continuaria a exercer o próprio direito.

Sentiu-se aliviado. Podia retomar sua vida, viver com as outras responsabilidades sem esta que tanto pesava. Começar de novo.

Ah, sem ilusões! Alívio e fracasso. Desistir depois de tanto esforço, tanto empenho em fazer o relacionamento dar certo, tanto amor e afeto desperdiçados.

Nenhum motivo para comemorações!

A solução do problema e o problema

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Se o enunciado do problema é conhecido e identificado, não é melhor concentrar-se nas soluções?

De que adianta reexaminar o problema, se o que interessa de fato é solucioná-lo?

Alguem que perdeu o emprego tem de reempregar-se e não rememorar o problema.

  • O texto do currículo é bem escrito, objetivo, conciso, lê-lo é entusiasmante?
  • A carta de apresentação é bem escrita, atrai a atenção do leitor?
  • Avisou aos amigos e conhecidos que está em busca de outro emprego?
  • Cadastrou-se em sites de empregos como a Catho, o Vagas, o Apinfo e o Trampos?
  • Quais são as faixas salariais praticadas para a sua função?
  • Que tal matricular-se em cursos online gratuitos para melhorar sua empregabilidade?

Uma pessoa tem rinite alérgica e as crises começam inesperadamente.

  • Que tal carregar a cartela dos comprimidos anti-alérgicos na carteira?
  • Se não tem os comprimidos à mão, tem uma farmácia perto para comprar o remédio?

Os cachorros do sítio fogem para o sítio vizinho e incomodam as pessoas que não gostam dos animais.

  • Prender os cachorros não é boa ideia porque eles tambem ajudam a proteger o espaço.
  • Aumentar a altura da cerca não é solução porque cachorros como crianças pequenas têm todo o tempo do mundo para inventar maneiras de burlar as proteções.
  • Talvez inclinar a ponta da cerca para dentro da área do sítio dificulte a escalada.
  • Que tal treinar os animais para não mais saltarem a cerca?

Os riscos de não pensar antes

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Em geral, as atitudes e palavras mais arriscadas envolvem relacionamentos com outras pessoas.

É muito fácil prejudicar os relacionamentos com as ações e as palavras, mais fácil ainda com as não pensadas antes de executadas.

As atitudes e palavras intempestivas têm dois riscos: provocar arrependimento tardio ou danos irreparáveis.

Pensar antes é mais fácil falar do que executar mas é uma habilidade que pode ser aprendida através de algum método.

Método que começa com a análise posterior das atitudes e ações.

De preferência, diariamente e sem distrações, escrever a lista dos acontecimentos do dia na ordem dos eventos.

Ao lado de cada item da lista, escrever o que foi certo, o que foi errado, o que era inevitável e o que era evitável.

Ora, tenha santa paciência!

A paciência é como um rio numa planície?
Ter paciência, ser paciente, é natural para muitas pessoas, mas não para todas. Parece mesmo que a impaciência é mais frequente que a paciência.

As pessoas naturalmente pacientes podem ser rotuladas de conformadas ou fracas para reagir o que, às vezes, é verdadeiro porque alguns que parecem pacientes são mesmo alienados e medrosos.

Entretanto, tem pessoas com comportamento paciente não apáticas e indiferentes que reagem depois de raciocinar. Por outro lado, se escolhem não reagir e deixar a vida seguir o curso normal, é porque valorizam algumas coisas mais que as outras.

Será que aprenderam, de alguma forma e em algum momento, a relativizar a importância dos fatos e eventos da vida?

É possível aprender a ser paciente? O que é a paciência? Um conhecimento obtido de leituras e estudos ou uma habilidade treinada?

Neste texto, escolhemos a habilidade, supondo que a paciência é uma habilidade a ser aprendida, treinada e aperfeiçoada.

Tambem supomos que o aprendiz interessa-se por aprender a tornar-se hábil em controlar algumas de suas reações e exercê-las com paciência, baseado em raciocínios mais do que no instinto imediato.

De nada serve pretender ensinar um aprendiz que não quer aprender.


Antes de começar, talvez seja prudente manter em segredo o seu interesse pelo método e o treinamento.

Evitará de ouvir os ditados espirituosos (“Pau que nasce torto, …”), as frases destruidoras de intenções (“Mais uma tentativa? Veremos se conseguirá, desta vez.”, “Você já não tentou mudar outras vezes?” etc), as expectativas e suspiros de ansiedade.


Primeira tarefa: é necessário concentrar-se no aprendizado, pensar e raciocinar mas, não pode deixar todo o trabalho para o cérebro e os pensamentos. Tem de escrever as ideias e conclusões para organizá-las, reescrevê-las, reorganizá-las e relê-las até decorá-las.

É melhor escrever no computador com ajuda um programa de texto. Um arquivo txt produzido no Bloco de Notas ou no Notepad++. Não escreva num programa de edição de textos como o Word para não gastar tempo com a formatação. O objetivo é obter um texto completo e útil, não necessariamente bonito.


Segunda tarefa: definir as pessoas importantes na sua vida para as quais você quer aprender a ser paciente.

Você quer preservar seu casamento, não só agora mas para sempre? Quer criar filhos saudáveis que sejam sempre seus amigos? Quer preservar o emprego que garante dinheiro para o seu sustento e da família? Quer aceitar as diferenças de comportamento entre as pessoas sem condenar os que não se comportam como você?

A lista não é igual para todos. Escreva a sua, escreva os nomes das pessoas, complete a lista com as razões pelas quais quer ser paciente com cada pessoa. Escreva, leia, reescreva, organize, releia. Decore a lista.


Terceira tarefa: o que ativa sua impaciência? Quais as situações, os problemas, os lugares, as pessoas, as horas do dia? Quando, com quem, em quais momentos do dia, em quais circunstâncias, você é impaciente? Ah, você é impaciente com tudo e com todos? Mesmo assim, não é um caso perdido. 🙂

Ei, esta lista será grande, não é mesmo? Então, não a escreva de uma única vez. Leve alguns dias para listar todas as suas pendências com a paciência.

Ponha no bolso uma caneta e uma folha de papel dobrada para anotar os itens à medida que acontecerem. Aumentará a abrangência da lista e aproveitará o benefício de ver as situações não como inserido nelas mas como se as olhasse de fora, como um observador externo isento.


Você está em treinamento. Tem de acreditar que mudar será bom e útil, que evitar o desnecessário e prejudicial fenômeno da impaciência será bom para si e para os seus.

Não basta acreditar e sentar no canto à espera das mudanças. Tem de agir do modo correto. Nenhuma ação implica em nenhuma mudança.

O método aqui proposto é uma sugestão, não é necessariamente o melhor nem o único. É uma maneira de ensejar a mudança que depende muito mais do treinando do que do método de treinamento.

O que pode ter como certo é que, sem escrever, as ideias e raciocínios se perdem na profusão de pensamentos propostos pelo cérebro, muitos pensamentos sem nada a ver com o objetivo e que desviam a concentração.

Tem de escrever, ler, reler, reescrever, até decorar o que escreveu.


Quarta tarefa: ao lado de cada item da lista, escreva a razão pela qual ele provoca sua impaciência.

Seja preciso e minucioso. Descreva a razão com as palavras necessárias e suficientes. Examine-a com o distanciamento de um analista crítico e isento.

Não economize tempo e palavras porque, ao tempo em que analisa e escreve as razões, tambem aprende a relativizá-las.

Defina a relevância e a importância de cada item na sua vida e, muito importante, quanto sua vida pode ser prejudicada toda vez que sua impaciência se manifesta naquela situação.


Quinta tarefa: você tem a lista de pessoas tão importantes na sua vida que quer beneficiar com um comportamento mais paciente e a lista das situações e pessoas e coisas que provocam sua impaciência.

Esta tarefa consiste de pensar, raciocinar e decidir para cada item da segunda lista o que pode e deve fazer, como deve agir, quais cuidados tomar, quais serão suas atitudes daqui por diante para que disparem sua paciência.

As ações têm de ser o que é possível fazer, o que você pode fazer, como é capaz ou pretende agir.


Sexta tarefa: se gostou do método, aplicou-o com bons resultados, volte sempre ao seu arquivo. Atualize-o, inclua novos itens, descreva as soluções encontradas, escreva seu progresso.

Até não mais precisar de método algum para agir com paciência.