Concertos matinais

música clássica
Quando era solteiro e morava no Bom Retiro, nas manhãs de domingo usava roupas de passeio para ir ao Theatro Municipal de São Paulo assistir aos concertos de música clássica. A entrada era franca, bastava ir, entrar e assistir ao concerto.

Não tento me lembrar de detalhes como o teatro, as orquestras, as músicas e as pessoas. Se tentasse, não conseguiria porque as lembranças sumiram ou esconderam-se para brincar de ser irrecuperáveis.

O espetáculo que a memória recupera sons e imagens é o da apresentação do Jacques Loussier Trio, entrada franca, numa noite de semana de 1970. Músicas de Bach que o Trio começava tocando em andamento clássico para trocar, sem aviso para surpresa e encantamento, ao andamento jazzístico. Uma maravilha!

Nunca fui a outro teatro de ópera ou de concertos.

Não fui ao Berliner Philarmoniker, ao Mariinsky Theatre, ao Metropolitan Opera, ao Palais Garnier, ao Royal Albert Hall, à Sydney Opera House, ao Teatro alla Scala, ao Teatro Amazonas, ao The State Academic Bolshoi Theatre of Russia e ao Wiener Staatsoper.

Não fui e jamais irei.

Liberdade

liberdade
– Boa tarde, senhora. Seja bem vinda. Entre, por favor. Aproxime-se do fogo da lareira. Está frio, lá fora. Sente-se nesta poltrona, é a mais confortável. A quem tenho a honra de saudar e receber em minha casa?
– Percebo que não me reconhece. Nunca me viu? Nunca esteve na corte?
– Temo não reconhecê-la, senhora. Desculpe-me por olhá-la com admiração. Rendo minhas homenagens à sua beleza. Sabe, raramente viajo, trabalho aqui na maior parte do tempo, sou escritor. Nunca fui à corte e jamais participei dos bailes no castelo da Rainha.
– Agradeço o elogio à minha beleza. O senhor é um homem bonito e tem sorriso agradável de olhar. Sou a Rainha.
– Sinto-me honrado com a presença da minha Rainha e do nosso lindo país. Meu sorriso é um tributo à senhora. Como tem passado, Vossa Majestade?
– Estou bem, obrigada. E ao senhor, senhor conde, como lhe tem sido os dias?
– Em paz, senhora. Em paz com meus raciocínios, pensamentos e escritos. Mas a que devo a insigne visita de Sua Majestade?
– Vim comunicar-lhe a libertação.
– Libertação, senhora? Se não estou preso!
– Está preso a um casamento.
– Sou casado, tem razão Vossa Majestade. Mas temo não considerar como uma prisão esse casamento.
– A libertação não é para si e sim para sua mulher.
– Deveras? Jamais ouvi dela tal desejo. De verdade, poucos desejos dela ouvi.
– Ela temia magoá-lo, ao lhe dizer.
– Não me magoaria. Já o esperava. O comportamento dela não deixava espaços à dúvida.
– Pois ela me procurou com o pedido de livrá-la do senhor e do casamento. Pediu-me que o informasse como se o senhor fosse libertar-se, quando ela é que deseja a liberdade.
– O que propõe, Vossa Majestade?
– Aceite sua falsa liberdade e conceda a verdadeira liberdade a sua mulher.
– Ouço e obedeço, senhora. De fato, a libertação é para ambos, para mim e para minha ex-mulher, assim a chamarei, por enquanto. Depois, não a chamarei de mais nada.
– Assim seja. A partir de agora, é um homem solteiro, senhor conde. Sua ex-mulher tambem é solteira para casar-se com o Duque, seu melhor amigo.
– Espero não ser convidado a comparecer às bodas de minha ex-mulher com o Duque. Prefiro manter intacta minha dignidade.
– Asseguro-lhe que não será convidado. Apenas, mude-se porque o Duque quer morar com sua ex-mulher, mulher dele após o casamento, nesta casa que ao senhor pertencia, até hoje.
– Não me importo de me mudar. Tenho pouco a carregar. Sou de poucas posses materiais. Livros, ferramentas, alguns guardados, lembranças de outros tempos, poucas roupas.
– Venha comigo. Seu lugar no castelo está preparado à sua espera. Li os seus livros, quero vê-lo trabalhar, conviver com sua inteligência e generosidade. Alem de casa e comida, ofereço-lhe um salário mensal para que escreva minhas memórias. Se aceitar minhas ofertas, é claro.
– Aceito, agradecido e encantado. Daqui a alguns minutos, terei juntado minhas coisinhas e poderemos partir.
– Ótimo. Abrace-me, meu amigo.
– Abraço-a e beijo-a nas faces, minha amiga.

Desalento

desalento
Tu te enganaste. Em algum momento da tua vida, te enganaste de pessoa com a qual passaria a vida.

Não te enganei de propósito. Não posso ser culpado por parecer outra pessoa aos teus lindos queridos e amados olhos.

Essa é a realidade. Eu te amei como consegui, com afeição dedicação angústia e tristeza por causa do teu distanciamento. Em algum momento que não detectei, tu percebeste o engano e decidiu consertá-lo.

Não soube o que esperavas de mim. Tu nunca o disseste. Também jamais disseste que me amava, talvez por não ter amado. Nunca disseste que me desejava, talvez por não ter desejado.

Todos esses anos ao teu lado, não me senti amado e desejado.

No teu raciocínio peculiar, eu devia descobrir por meus próprios meios o que te faria feliz e te faria me amar. Então, tentei te amar te adorar e te desejar. Em vão porque te afastavas de mim mais e mais. Minhas tentativas desorganizadas desarvoradas e angustiadas foram inúteis.

Te afastaste tanto que perdi o direito de te amar, de te chamar meu amor, de tocar em ti e te desejar.

Não te peço que voltes, não tenho esse direito e tu não tens para onde voltar porque nunca estiveste de fato comigo.

Reencontro

reencontro
Quando se encontraram pessoalmente, sabiam que não seria para sempre.

Tinham se reencontrado, por acaso, por um desses meios estranhos de contato impessoal dos tempos modernos. Coisas como Facebook, Twitter, e-mail, telefone celular, WhatsApp, Messenger.

O tempo do namoro ficara no passado, escondido por vidas inteiras com casamentos, filhos, netos, responsabilidade, tristeza e solidão.

Trocaram mensagens e só se viram nas letras escritas e lidas. Decidiram encontrar-se, não sabiam bem para quê. Saudade, amor, afeição e angústia.

Quando se perceberam completamente sós, abraçaram-se e nenhum dos dois viu as lágrimas nos olhos do outro.

Dilema

curuc
Amargura antipatia cólera desagrado desamor desprezo irritação mágoa ódio raiva e rancor.

São sentimentos fáceis com uma característica comum.

Juntos ou separados, são incapazes de contribuir para qualquer construção.

Ninguem, até hoje, construiu com eles um palito sequer.

São sentimentos não construtores, frequentemente destruidores.

Facebook

facebook
Recentemente, cancelei meu site TirasHQ e guardei no Google Drive as quase 1000 imagens digitalizadas de tiras de histórias em quadrinhos recortadas de jornais e revistas em mais de 40 anos.

No conjunto tem trabalhos de artistas em atividade como Laerte e Angeli e de outros que se foram como Henfil e Glauco, recortadas de jornais e revistas ainda nas bancas como Estadão e Folha de SP e de outros extintos como Pasquim e Jornal da Tarde.

Criei no Facebook a página BeneditoCarneiro1946 para publicar, uma por dia, as imagens dos cartuns.

Para homenagear os artistas e para apreciação dos amantes dessa forma de arte.

Ladrão, receptador e cidadão

Uma bonita paisagem
Entre o ladrão que rouba, o receptador que cria mercado para produtos roubados e o cidadão que compra produtos vendidos por preços tão abaixo dos de mercado que só podem ter sido roubados:

Quem é o mais bandido?

Quem é o mais covarde?

Quem causa mais dano?

Quem mais contribui para o aumento da criminalidade?

Quem mantem compensador o crime?

Quem é o mais hipócrita?

Entre os três, tem um com direito a se chamar de não bandido, não covarde, não danoso, não hipócrita?

O sucesso


Será que o sucesso pessoal, profissional e empresarial é sempre refém das práticas escusas, da desonestidade e da corrupção?

Será que investigações isentas e cuidadosas dos casos de sucesso extraordinário, inexplicado, estrondoso e rápido revelariam corrupção e práticas desonestas?

Será que é imprescindível ser desonesto para ser bem sucedido?

Será que é necessário incentivar e aceitar corrupção para ter sucesso?

Será que são falsas as histórias de sucesso das empresas começadas “na garagem”?

Será que, em vez de admirar os casos de sucesso, devemos duvidar da validade das conquistas?

Ultrassom

Uma linda paisagem
Eu vejo o mundo pelos olhos de minha mãe, ouço os sons pela barriga dela, sinto não sei como as emoções dela e as minhas porque sou um ser humano vivo.

Ainda não nasci e já tenho obrigações e ocupações, uma das quais é observar o entorno por meio de minha mamis. Gosto da palavra entorno. “Na noite passada, sonhei com o entorno”. “O governador do entorno decretou feriado”. Também gosto das gírias dos anos 70, mesmo sem saber o que diabos pode ser anos 70. Ah, sim, de vez em quando, se minha mãe não ouve, praguejo um tiquinho. Praguejar é divertido.

Este entorno parece ser aquilo que mamãe chama de consultório médico. As pessoas vestidas de branco devem ser os trabalhadores braçais do consultório. Tem um que fala em tom professoral como se de tudo entendesse, deve ser o pajé da tribo.

Começou um ruído inaudível para nós, mamis e eu. Sinto cócegas. O que será? Melhor ficar em silêncio e total quietude. Sabe aquela história: “Se me dá vontade de trabalhar, sento-me num cantinho e fico bem quietinho, até a vontade passar”? É o que farei com esse ruído. O pajé que se lasque! O que será que quer dizer “se lascar”?

Pronto. Terminou. O pajé terminou a pajelança. Preciso de um dicionário. Espere, o que é isso que sinto em minha mamãe? Ela está triste! Não quero que minha mamãe fique triste! Diabo de pajé! Se pudesse, chutava-lhe os fundilhos. Preciso mesmo de um dicionário.

Na próxima vez que viermos ao terreiro deste pajé, farei um esbórnio dos diabos! Pularei saltarei baterei palmas e gritarei para alegrar minha mamãe.

Agora, com licença que aí vem outra remessa de alimentos e insumos via cordão umbilical. Preciso estocar uma parte e distribuir o restante pelos órgãos em formação do meu corpinho. As remessas de mamãe são fantásticas!

Eita moça bonita e querida! Depois de nascer, sempre que eu gritar “mamãããããe”, ela virá depressa, sorrindo. Não, não, gente, fala sério! Sem brincadeiras! De verdade! De fato! Tem vida melhor?

Como é a situação?

Montanhas no deserto
– Como é a situação?
– Um tendéu, uma confusão generalizada incontrolável, um “sai da frente que atrás vem gente”, um “não empurrem aí atrás”, um “mais depressa aí na frente”, um “senta que o leão é manso”, um “não pise no meu pé”, um “sabia que beliscão também dói?”, um “socorro! o que faço agora?”, um “corre que o trem não espera”, um “isso não vai dar certo”, um “isso ainda vai provocar confusão”, um “eu bem que avisei”.
– Todo o tempo?
– Não. Em grande parte do tempo é “como foi que vim parar nesta situação?”.
– Não foi avisado?
– Não. Eu queria ter sido avisado por carta expressa registrada em três vias assinadas com firma reconhecida em cartório, telegrama telegrafado em telégrafo sem fio, sinais de fumaça, toques de tambor, mensageiro a cavalo, short message tcc (tambem conhecida como) mensagem curta, sinais com bandeiras, mensagens por satélite telefone ou cabo submarino, e-mail, whatsapp. Até pessoalmente.
– Por que não foge?
– Ela está impregnada na minha vida. Não sei onde eu acabo e ela começa, nem onde ela acaba e eu começo. Jamais me livrarei dela. É parte, não é apêndice.
– Então, não tem saída?
– A saída é correr sempre e jamais parar.
– Tem pra onde correr?
– Nem sempre. Se não tem, corro sem sair do lugar. Sempre é uma corrida.
– Resultará?
– Duvido. Conhece o ditado “Se ficar, o bicho come. Se correr, o bicho pega.”?
– Sim.
– Então…