Eu te pouparei

Uma bonita paisagem
Pode pouco medir o que tenho para te oferecer, todavia muito possa representar na tua vida.

Eu te pouparei e te protegerei. Eu te pouparei das asperezas e dores de viver comigo. Eu protegerei os teus pés das pedras das avenidas praças e ruas, estradas rodovias e vias, lagos montanhas morros rios e vales.

Eu te amarei e não mereço mérito por te amar. Eu te amarei porque tu és amável para mim. Se não te conhecesse e jamais tivesse te olhado, ainda assim te amaria e apenas teria de te encontrar para contar meu amor.

Eu te mostrarei meus melhores anjos. Esconderei de ti meus demônios.

Eu te mostrarei meus melhores sorrisos de alegria. Esconderei de ti minhas carrancas e meus olhares de ódio e rancor.

Eu te pouparei das minhas mágoas, dos meus rancores e dos meus ressentimentos. Eu te mostrarei meus melhores e mais ternos sentimentos.

Eu te pouparei da minha ira, da minha raiva e do meu ódio. Eu te mostrarei e te darei meu amor, meu carinho e minha bondade.

Então, se algum dia eu morrer ou perder o papel onde anotei o teu endereço ou esquecer o caminho de volta para ti, tu terás razões e desejos de sentir minha falta por bons motivos. Tu te lembrarás de mim por causa do tanto de bem que fez minha vida na tua vida. Mesmo que jamais tenhamos nos encontrado. O mundo é tão grande.

Então tá.

Uma linda paisagem
– E aí?
– Falaí.

– Beleza?
– Belê.

– Nos conformes?
– Só.

– Se piorar…
– Aí que fica bom.

– Tudo nos trinques?
– Tudo guériguéri.

– Vai um mé?
– Tô na cerva.

– Falô.
– Falei.

– Então tá.
– Issoaí.

Decisões em nome da honra

não
Surpreendeu a mulher com o amante. Em sua própria casa. Em sua própria cama. Na cama que mandara construir para dormir ao lado dela. Maldita ingrata. Maldita mulher infiel. Ah, sua vingança seria terrível.

Em frente da vitrine de revólveres cromados niquelados e pintados de preto fosco da loja de armas onde chegara sem saber direito aonde ia depois de sair da casa onde deixara os adúlteros. Que palavra, adúlteros. Uma palavra com som trágico, adúlteros.

Planejava e revisava os planos. Compraria um revólver infalível dos que não erram os tiros, voltaria à casa e mandaria chamar para conversar o amante da mulher se tivesse ido embora. Mandaria que se sentassem no sofá grande da sala de visitas e ficaria em pé a uma distância compatível com os tiros perfeitos.

Sem que tivessem tempo de reagir, atiraria na mulher um tiro indefensável e mortal e atiraria no amante outro tiro mortal, arrumaria os cadáveres no sofá, se sentaria na poltrona em frente a eles e atiraria na própria cabeça. Um plano infalível.

Podia ler as manchetes nos jornais nas edições do dia seguinte. Os amigos impressionados leriam e abanariam as cabeças em aprovação da sua força e coragem de resolver com três tiros certeiros a ofensa da mulher e do amante da mulher ao marido desonrado porém homem honrado.

Comprou um revólver pesado enorme e caro, não fossem pensar que economizara nessa situação dramática. Comprou apenas três balas para o revólver, não precisaria de mais de três balas. O vendedor municiou a arma porque ele não saberia como fazê-lo, sequer sabia o que significava municiar antes da explicação do vendedor. Não quiz embrulho para presente. Não tinha cabimento chegar em casa com um embrulho de presente e desfazê-lo na frente da mulher seria contar o seu plano secreto. Colocou o revólver no bolso do casaco onde enfiou a mão para sentir a coronha com o dedo no gatilho. Tinha de estar preparado.

Felizmente o ônibus urbano não demorou a passar, de modo que chegou em casa o mais rápido que conseguiu. Entrou resoluto com passos firmes e olhar feroz. Se tivesse tempo tiraria uma foto do próprio rosto, uma selfie, com o olhar feroz. Os amigos ficariam impressionados.

A casa estava vazia, ninguém em nenhum dos cômodos. Aquele maldita ingrata ainda teve o desplante de sair para passear num dia trágico como este. Ela não perde por esperar. Frases feitas perfeitas para o evento.

Tomava água porque sentia sede quando viu o envelope com o seu nome preso por um dos imãs da geladeira. Dentro do envelope tinha um bilhete escrito com a letra dela que ele reconheceria onde a visse escrita. Dizia que partira com o amante, que não a procurasse porque o amante o mataria, que podia ficar com a casa com tudo dentro porque ela nada queria daquela casa e dele, que decidira deixá-lo logo depois de conhecer o amante anos antes etc.

Não terminou de ler a carta porque olhou para ver a hora no relógio de parede da cozinha. Desmuniciou a arma, não vá este negócio disparar acidentalmente, colocou-a com as balas em uma pequena sacola plástica que pôs no bolso do casaco.

Se me apressar ainda encontrarei aberta a loja de armas para cancelar a compra deste revólver e recuperar o dinheiro que não deveria ter gastado. Bem dizia minha ingrata e adúltera mulher que eu me meto em confusões por causa de decisões impensadas. Seja como for, pelo menos estou livre dela e eu não fui o causador da confusão.

Eu

Uma linda paisagem
– Eu gosto de banana.
– Eu gosto de melancia.

– Fui ao cinema.
– Ouvi uma música linda ontem.

– Engordei nas festas de fim de ano.
– Vou começar uma dieta para engordar.

– Dormi mal nesta noite.
– Eu sonho muito todas as noites.

– Gostei do capítulo de ontem da novela.
– Vi um filme lindo ontem.

– Vou votar no candidato X.
– Odeio eleições.

– Sinto uma dor estranha na barriga.
– Tenho consulta marcada com o dentista.

– Comprei um carro Fiat Palio Fire.
– Pretendo usar o metrô para ir ao trabalho.

– Estou lendo um livro interessante.
– Comprei uma caneta tinteiro Lamy.

– Preciso mandar cortar meu cabelo.
– Hoje, me rebelei e não raspei a barba.

– Entrei num grupo de WhatsApp interessante.
– Tenho mais de 500 contatos no Facebook.

– Meu filho tem outra namorada.
– Minha filha marcou a data do casamento.

– Gosto de lasagna.
– Gosto de alface.

– Sou fã do Frank Sinatra.
– Eu gosto de samba.

– Vou mandar pintar a sala de casa.
– Meu chuveiro não esquenta como devia.

– Vi um gatinho lindo.
– Meu periquito estava tristinho nesta manhã.

– O circo é bonita forma de arte popular.
– Hoje tem transmissão de futebol na tv.

Sim e Não

sim e não
– Considera-me um incapaz?
– Nããão.

– Irresponsável?
– Nãão.

– Inútil?
– Não.

– Generoso?
– Siiim.

– Bondoso?
– Siim.

– Amoroso?
– Sim.

– Chato?
– Siim.

– Insistente?
– Siiim.

– Inconveniente?
– SIIIIM.

– Quer saber como eu te considero?
– NÃÃÃÃO!

Eu não lhe disse?

O deserto
A mulher avisou o moço, Ela não é fácil de conviver, Tem gênio difícil de lidar e entender, Você se meterá numa enrascada nesse casamento, Ouça o meu aviso, Fuja enquanto não casou, Procure outra melhor que esta, disse ao moço a mulher que bem conhecia a moça com a qual, não obstante o aviso, se casou o moço que lamenta não ter atentado para o aviso da mulher antes futura depois atual e agora falecida sogra que perto de morrer perguntou ao genro, Eu não lhe disse?

Antes

antes
A pintura, obra de um pintor cubista expressionista impressionista e renascentista, era um deleite para os olhos abertos, mas não para os olhos fechados porque olhos fechados nada veem para fora, só para dentro.

O pintor era fã de Richard Strauss, Richard Wagner, Johann Sebastian Bach e Ludwig van Beethoven, mesmo vivendo antes do nascimento desses compositores que não conhecia.

O pintor era fã de futebol, antes da invenção do futebol. Era torcedor do Sport Club Corinthians Paulista e da Sociedade Esportiva Palmeiras, cujas escalações completas recitava, antes da fundação do SCCP e da SEP. Tinha camisas e bandeiras dos dois times, antes da invenção de camisas e bandeiras de times de futebol.

Comprou ingressos para todos os jogos de Corinthians e Palmeiras no campeonato, antes da invenção de ingressos e campeonatos.

No tempo do pintor, tinha jogos onde os jogadores disputavam aquilo que não sabiam se era redondo ou quadrado porque era invisível se não fora inventado. Sendo aquilo invisível, o jogo era não jogo e os jogadores entravam em campo e ficavam parados a olhar uns para os outros e os espectadores a olhar para todos os jogadores e ganhava o não jogo aquele que risse primeiro.

Alguns minutos antes de morrer, o pintor perguntou à pessoa que o acompanhava se sabia se o jogo da noite seria transmitido pela tv que não fora inventada e pediu o jornal que também não fora inventado para ver a programação das transmissões dos jogos.

Séculos depois da morte do pintor, o museu que expunha suas obras incendiou-se porque um rojão disparado por um torcedor de futebol que comemorava a vitória do seu time no jogo final do campeonato, entrou por um vão do telhado, ateando fogo a uma pilha de jornais velhos guardados no sótão.

Os carros do corpo de bombeiros demoraram para atravessar a enorme quantidade de torcedores que ocupavam a praça e o incêndio queimou o museu e todos os quadros do pintor.

As pessoas que com olhos abertos deleitaram-se com a pintura, agora só a podiam ver com os olhos fechados em suas memórias.

Loucos

loucos
Então, fica assim.

Ele é louco por ela e conta para ela que é louco por ela.

Ela é louca por ele e conta para ele que é louca por ele.

De vez em quando, ele repete para ela que é louco por ela e ela repete para ele que é louca por ele.

Ele fala somente para ela que é louco por ela. Fala, segurando as mãos dela e olhando-a nos olhos. Ou no ouvido dela, quando se abraçam.

Ela fala somente para ele que é louca por ele. Fala, segurando as mãos dele e olhando-o nos olhos. Ou no ouvido dele, quando se abraçam.

Encruzilhadas

encruzilhadas
Fazia tempo que andava pela estrada de terra larga e deserta. Quase um dia inteiro de caminhada e não vira uma pessoa, um veículo e um animal. Durante algum tempo, andara de cabeça e olhos virados para o solo e não vira sequer formigas. Nas áreas de planície, o vento provocava a poeira em redemoinhos que não duravam muito porque só tinha poeira para brincar.

Então, chegou à encruzilhada com caminhos em frente, à direita e à esquerda semelhantes mas não iguais se são três. As instruções que não recebera não indicavam qual caminho seguir. Anoitecia e logo não conseguiria enxergar nada na escuridão da noite sem luar.

Montou a barraca no meio da encruzilhada, juntou gravetos para a fogueira, esquentou a lata de comida que comeu, escutando no rádio portátil o concerto de Bach transmitido em ondas curtas por uma das rádios da BBC inglesa.

No fim do concerto, enterrou a lata vazia de comida, lavou a colher com um pouco de água do cantil, bebeu o resto da água, amanhã teria de encher o cantil com água do riacho cujo ruído parecia ouvir, desligou o rádio portátil que guardou embrulhado em panos na mochila. Recolheu-se à barraca e dormiu.

Acordou antes de nascer o dia. Acendeu a fogueira apagada durante e noite, esquentou a lata de café, molhou no café o pão duro que tirou da mochila, bebeu o resto do café, apagou a fogueira, enterrou os restos da fogueira e a lata de café junto com a lata de comida da noite anterior, desmontou a barraca e olhou para a esquerda, para a direita e para a frente na encruzilhada.

Com o binóculo viu que mais à frente o caminho da esquerda era entortado para a direita e o caminho da direita era, por sua vez, entortado para a esquerda. Não seguiu o caminho da esquerda nem o da direita. Agiu como se não tivesse encruzilhada e seguiu em frente na mesma direção de onde viera.

Mais à frente no tempo e na distância, sempre tem mais à frente no tempo ou na distância, atingiu outra encruzilhada em posição contrária da anterior. Nesta chegavam três caminhos, um da esquerda, um da direita e outro de trás, este último de onde viera.

Ela pensou que o caminho que chegava da esquerda era o que saía para a esquerda e curvava para a direita na encruzilhada anterior. O que chegava da direita saía para a direita e curvava para a esquerda.

Com o binóculo viu que a estrada terminava mais à frente, exatamente embaixo de uma placa onde leu: FIM.

A máquina telefone

a máquina telefone
– O que é aquilo?
– Aquilo o quê?
– Aquele aparelho com botões.
– Ora, vejam só, a máquina telefone!
– Um telefone! Tem a ponta de um fio ligado nele.
– Todo fio tem duas pontas.
– Sim, a outra ponta está numa tomada na parede.
– Será que funciona?
– O fio?
– Não, o telefone.
– Vejamos. Funciona. Pelo menos, faz um barulhinho.

– Ligue para o Papa.
– Por que para o Papa?
– Ele disse que atende a todos os fiéis. Você é fiel?
– Sei que não sou infiel. Não ser infiel, faz de mim fiel?
– Melhor perguntar para o Papa.
– Ligações interurbanas custam mais caro.
– O Papa atende num número 0800.
– Assim, sim.

– O Papa não estava. Foi ao dentista.
– Não faz mal. Descobrimos que a máquina telefone funciona.
– Sim, e podemos abandonar os sinais de fumaça.
– Tem razão. Não aguentava mais a fumaceira dentro de casa.

Para Mário de Andrade, autor do magnífico Macunaíma.