Ladrão, receptador e cidadão

Uma bonita paisagem
Entre o ladrão que rouba, o receptador que cria mercado para produtos roubados e o cidadão que compra produtos vendidos por preços tão abaixo dos de mercado que só podem ter sido roubados:

Quem é o mais bandido?

Quem é o mais covarde?

Quem causa mais dano?

Quem mais contribui para o aumento da criminalidade?

Quem mantem compensador o crime?

Quem é o mais hipócrita?

Entre os três, tem um com direito a se chamar de não bandido, não covarde, não danoso, não hipócrita?

O sucesso


Será que o sucesso pessoal, profissional e empresarial é sempre refém das práticas escusas, da desonestidade e da corrupção?

Será que investigações isentas e cuidadosas dos casos de sucesso extraordinário, inexplicado, estrondoso e rápido revelariam corrupção e práticas desonestas?

Será que é imprescindível ser desonesto para ser bem sucedido?

Será que é necessário incentivar e aceitar corrupção para ter sucesso?

Será que são falsas as histórias de sucesso das empresas começadas “na garagem”?

Será que, em vez de admirar os casos de sucesso, devemos duvidar da validade das conquistas?

Ultrassom

Uma linda paisagem
Eu vejo o mundo pelos olhos de minha mãe, ouço os sons pela barriga dela, sinto não sei como as emoções dela e as minhas porque sou um ser humano vivo.

Ainda não nasci e já tenho obrigações e ocupações, uma das quais é observar o entorno por meio de minha mamis. Gosto da palavra entorno. “Na noite passada, sonhei com o entorno”. “O governador do entorno decretou feriado”. Também gosto das gírias dos anos 70, mesmo sem saber o que diabos pode ser anos 70. Ah, sim, de vez em quando, se minha mãe não ouve, praguejo um tiquinho. Praguejar é divertido.

Este entorno parece ser aquilo que mamãe chama de consultório médico. As pessoas vestidas de branco devem ser os trabalhadores braçais do consultório. Tem um que fala em tom professoral como se de tudo entendesse, deve ser o pajé da tribo.

Começou um ruído inaudível para nós, mamis e eu. Sinto cócegas. O que será? Melhor ficar em silêncio e total quietude. Sabe aquela história: “Se me dá vontade de trabalhar, sento-me num cantinho e fico bem quietinho, até a vontade passar”? É o que farei com esse ruído. O pajé que se lasque! O que será que quer dizer “se lascar”?

Pronto. Terminou. O pajé terminou a pajelança. Preciso de um dicionário. Espere, o que é isso que sinto em minha mamãe? Ela está triste! Não quero que minha mamãe fique triste! Diabo de pajé! Se pudesse, chutava-lhe os fundilhos. Preciso mesmo de um dicionário.

Na próxima vez que viermos ao terreiro deste pajé, farei um esbórnio dos diabos! Pularei saltarei baterei palmas e gritarei para alegrar minha mamãe.

Agora, com licença que aí vem outra remessa de alimentos e insumos via cordão umbilical. Preciso estocar uma parte e distribuir o restante pelos órgãos em formação do meu corpinho. As remessas de mamãe são fantásticas!

Eita moça bonita e querida! Depois de nascer, sempre que eu gritar “mamãããããe”, ela virá depressa, sorrindo. Não, não, gente, fala sério! Sem brincadeiras! De verdade! De fato! Tem vida melhor?

Como é a situação?

Montanhas no deserto
– Como é a situação?
– Um tendéu, uma confusão generalizada incontrolável, um “sai da frente que atrás vem gente”, um “não empurrem aí atrás”, um “mais depressa aí na frente”, um “senta que o leão é manso”, um “não pise no meu pé”, um “sabia que beliscão também dói?”, um “socorro! o que faço agora?”, um “corre que o trem não espera”, um “isso não vai dar certo”, um “isso ainda vai provocar confusão”, um “eu bem que avisei”.
– Todo o tempo?
– Não. Em grande parte do tempo é “como foi que vim parar nesta situação?”.
– Não foi avisado?
– Não. Eu queria ter sido avisado por carta expressa registrada em três vias assinadas com firma reconhecida em cartório, telegrama telegrafado em telégrafo sem fio, sinais de fumaça, toques de tambor, mensageiro a cavalo, short message tcc (tambem conhecida como) mensagem curta, sinais com bandeiras, mensagens por satélite telefone ou cabo submarino, e-mail, whatsapp. Até pessoalmente.
– Por que não foge?
– Ela está impregnada na minha vida. Não sei onde eu acabo e ela começa, nem onde ela acaba e eu começo. Jamais me livrarei dela. É parte, não é apêndice.
– Então, não tem saída?
– A saída é correr sempre e jamais parar.
– Tem pra onde correr?
– Nem sempre. Se não tem, corro sem sair do lugar. Sempre é uma corrida.
– Resultará?
– Duvido. Conhece o ditado “Se ficar, o bicho come. Se correr, o bicho pega.”?
– Sim.
– Então…

A concentração e a distração

concentração e distração
Tem vantagens e desvantagens em concentrar-se na atividades executadas. Concentração resulta em atividades executadas corretamente, excesso de concentração pode acarretar distração.

O estudante desta história estava tão concentrado nos pensamentos que não ouviu a tradução do texto pela professora de Inglês. Depois, ela pediu a cada um dos alunos para ler e traduzir um trecho do texto em voz alta para a turma ouvir.

O estudante ainda concentrado/distraído foi avisado pelo colega da carteira de trás que chegara sua vez. A professora indicou a parte do texto que ele deveria ler e traduzir.

A leitura foi fácil, ele pronunciava bem as palavras do idioma, mas na tradução encontrou uma palavra desconhecida, desconhecida para ele, Chapel. Alguma coisa com Royal Chapel. O mesmo colega da carteira de trás soprou a tradução, Chapelaria Real.

Quando o estudante não mais concentrado/distraído traduziu Royal Chapel por Chapelaria Real, em voz alta para toda a turma e a professora de Inglês ouvirem, todos gargalharam, inclusive a professora.

Royal Chapel era a Capela Real que não abrigava a Chapelaria Real.

Oito e nove horas da manhã

Uma linda paisagem
Oito horas da manhã no horário normal, nove horas no horário de verão que começou em 16 de outubro na Primavera. Embora o calendário aponte 6 de janeiro e o relógio nove horas do horário de verão, é o calor intenso que esclarece estar o Verão abaixo do Equador.

A Av. Gen. Olímpio da Silveira, no centro da cidade de São Paulo, empurra automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas por baixo do Minhocão como o povo chama o que para a Prefeitura é a/o Via Elevado Pres. João Goulart, uma ponte de concreto comprida que convive com a avenida de baixo.

Viaja gente nos automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas, vai gente a pé nas calçadas, alguns sairam da Estação Mal. Deodoro do Metrô e não estão na Av. Gen. Olímpio da Silveira porque a estação fica na praça de mesmo nome dela, a estação. Dos domínios do Marechal aos do General e até aos do Brigadeiro porque para os lados da Barra Funda tem a Rua Brigadeiro Galvão.

Como não tem os nomes das avenidas praças bulevares ruas elevados passeios e vias escritos nas calçadas, não sabemos se sob a proteção do Marechal ou do General, um casal dormia na calçada em frente a uma loja.

Dormiam atravessados na calçada larga com os pés protegidos da chuva pelo Presidente e a cabeça pelo Marechal ou General. O resto dos corpos protegia um cobertor velho que não sabia se fora novo porque cobertores não têm memória. Aos cobertores interessa proteger no presente e não adianta perguntar-lhes se algum dia foram novos.

O Minhocão faz sombra e age como uma chapa esquentada pelo sol de verão que transmite com a sombra o calor e a poeira poluição sujeira barulho e ruído. De novo: calor poeira poluição sujeira barulho ruído e calor. Só os teimosos ou os iluminados dormem naquelas condições.

Os originários do reino de Samaria, os samaritanos, olham para essas pessoas. Não vim de Samaria porque sou bauruense/garcense, mas olhei para o casal ao passar. Foi um daqueles olhares para a direita esquerda acima abaixo à frente e não atrás porque não se olha para trás ao andar para não arriscar trombar com um poste ou uma banca de jornais.

Quando passava pelo casal e os olhei para a direita, ele acordou, espreguiçou-se e virou-se para ela tambem desperta. Não se mexeram, não se tocaram, sorriram. Ambos sorriram, ela para ele ele para ela.

Sorriram enquanto eu passava e os fotografava com a câmera analógica sem filme da memória. Não mostro a fotografia porque ainda não sei digitalizar as imagens da memória.

Livros

Floresta com montanhas ao fundo
A solidão entrou na sala e anunciou-se:
– Aqui estou. Chamou-me e vim.

Ela apontou para uma cadeira com forma de confortável:
– Acomode-se. Vamos ler em voz alta, que tal? Eu começo e, se me cansar, você continua.

Trouxe da estante para a mesa As Intermitências da Morte, de José Saramago, Dresden, de Frederick Taylor, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e O Senhor das Moscas, de William Golding.

Abriu As Intermitências da Morte e começou a ler.

A solidão apoiou-se no encosto da cadeira e fechou os olhos. Parecia dormir, mas não.
De vez em quando, abria os olhos e sorria para a leitora

Fantasmas

fantasmas
Um escritor escrevia e publicava seus livros sob um pseudônimo, foi premiado num concurso literário, ficou em situação complicada porque não queria se desvendar ao receber o prêmio, enviou em seu lugar o fantasma de um agente secreto que não tinha como ser desvendado porque, se não se desvendara como vivo, menos ainda o faria como fantasma.

Perdedor

perdedor
Era uma vez um perdedor um mal sucedido um zero à esquerda um pobre-diabo e um joão ninguem que poderia estar aflito agoniado amofinado angustiado apoquentado atormentado atrapalhado aturdido desencaminhado desnorteado desolado desorientado injuriado perdido perturbado sem Norte Sul Leste Oeste e transtornado que não desistia porque se considerava um lutador que ganhava algumas batalhas perdia outras não ganhava e não perdia todas, mas tinha saldo positivo de vitórias com as quais aprendia tanto quanto com as derrotas.