C’est si bon

Uma bonita paisagem
Em tradução livre da Wikipedia:

“Foi enquanto olhava a vitrine de lingerie feminina de uma loja nas arcadas da avenida Jean Médecin em Nice em julho de 1947 que as primeiras nove notas da melodia apareceram na cabeça do compositor Henri Betti.

Ele escreveu as notas em um pedaço de papel de música para lembrá-las e tocá-las no piano. Em casa, compôs a melodia em menos de 10 minutos.

Então, marcou uma reunião em Paris com o letrista André Hornez para definir o título da canção. O letrista disse que o título deveria ter três sílabas cantadas nas três primeiras notas da música.

No dia seguinte, André Hornez mostrou a Henri Betti uma lista com dez títulos de três sílabas. O último título da lista era C’est si bon. Foi o escolhido pelo compositor da melodia.”

C’est si bon foi gravada por cantores de vários países, entre os quais Yves Montand em 11 de maio de 1948.

Agora, cá entre nós, tem como ouvir esta gravação no YouTube e não dançar pela sala da casa? Se não tiver ninguém com quem dançar junto, a vassoura vermelha serve.

A menina, o baile, o apagão e o beijo

Atravessou o salão em passos firmes, tão firmes quanto consegue. Aproxima-se dela que sabe e sente que será convidada para dançar. Faz pouco tempo que um ao outro de longe se encantaram e se olharam, intrigados com a emoção. Como não a viu assim antes? Ela está diferente, linda! Ela também o notou. Olhou-o curiosa e interessada. Primeiro como menina e depois como mulher.

Poucos casais dançam. Enquanto ele atravessa o salão quase vazio, ela o olha com doçura. Ele desvia dos casais no meio da pista e a olha encantado, ela é adorável de tão linda.

São tão jovens, não entendem o que sentem! Tremem um pouco ao se enlaçar para dançar. Dançam do jeito antigo, abraçados tão juntos quanto podem. Não falam e quase não respiram. Ele sente as costas dela debaixo do vestido, a mão direita dela na sua. Afastam-se para conversar e logo voltam a se abraçar mais forte.

Como será o gosto dos seus lábios? Se a beijasse no meio do salão de bailes com tanta gente em volta, causaria uma confusão. Neste tempo nesta época e nesta cidade, nem os casais casados se beijam em público.

Que bom seria se as luzes se apagassem. Não precisa ser apagão demais demorado. Um minuto é pouco. O beijo teria de durar menos de um minuto para dar tempo de voltar ao normal. Como se fosse possível voltar ao normal depois de beijá-la. Cinco minutos. É um bom apagão. Tempo para mais de um beijo, abraços apertados e olhar um para o outro com encanto. Depois as luzes podem se acender.

Agora

Uma bonita paisagem
Eu escrevo contos. Quase todos com histórias resultantes da minha imaginação. Quase todos e não todos. Algumas histórias dos contos aconteceram ali na vida real. Não exatamente como as transcrevo, é claro. Como escritor, não resisto a pretender melhorar a realidade.

Assim é que é importante e útil observar e atentar, também perguntar e ouvir, entre outras atenções. Assim é que lamento as oportunidades perdidas.

Conheci um casal com o qual convivi. Faz muitos anos. Eles se davam bem demais, ele a idolatrava, ela tinha a doçura e a firmeza para cuidar dele e da família. Conversavam bastante, quando ele voltava das viagens a trabalho. Se ele bebia um pouco – o que acontecia raramente – declarava em público seu amor por ela que sorria maravilhada e divertida.

Observei-os com atenção mediana, enquanto convivemos. Esqueci de perguntar e ouvir. Sabe, estava demais ocupado com minha própria vida. É tão passageira e tão pequena a vida.

Eu poderia ter aproveitado o tempo de convivência com eles para perguntar como se conheceram, como foi o primeiro olhar, como se apaixonaram, o que conversavam no tempo de namoro, o que sentiram quando se casaram, quais músicas ouviam quando jovens, de qual música ambos mais gostavam.

Tantas perguntas não fiz.

Agora não tem mais tempo. Ele morreu em 1972 e ela em 2015.

Secreto


Um escritor que escrevia e publicava seus livros sob um pseudônimo, foi premiado num concurso literário e ficou em situação confusa porque não queria se revelar na cerimônia de entrega do prêmio e enviou em seu lugar o fantasma de um agente secreto impossível de ser desvendado porque se não se mostrara enquanto vivo, menos ainda o faria enquanto fantasma.

Dias da semana

Tem quem reclame da segunda-feira. Dizem-no o primeiro dia de trabalho da semana o primeiro de aulas e o reinício. Outros consideram o dia da semana após o domingo.

Para mim não tem dia melhor que o dia da semana após o domingo. Segunda-feira é terceiro dia da semana que sucede o sábado e o domingo.

Tenho minhas razões. É no sábado e no domingo que eu me encontro com ela. Só no sábado e domingo de cada semana.

Se você acha pouco, saiba que estamos em 1961, ambos temos 15 anos de idade. Neste ano, nesta idade, nesta cidade, só namoramos nos sábados e domingos.

Ontem, domingo, eu a encontrei pela segunda vez nesta semana iniciada no sábado. Como ela estava linda! Linda como uma fada perfumada. O cheiro do perfume dela ficou na minha mão porque ficamos de mãos dadas todo o tempo. Eu sempre a acho linda porque a amo.

Ora, você tem 15 anos em 1961! Como poderia ser diferente? Aposto que amou as outras namoradas. Continue a história.

Como dizia, hoje é segunda-feira e só tenho boas e queridas lembranças do sábado e do domingo. Terça quarta quinta sexta e sábado outra vez. No sábado, eu a encontrarei. Encontrarei a doce e linda namorada.

Tem coisa melhor que ter 15 anos em 1961, amar e ser amado?

Ela também me ama, certo?

Não acerto uma

– Você está diferente.
– Cortei o cabelo. Se você tivesse gostado, diria que fiquei mais bonita.

– Que fez no seu cabelo?
– Cortei. Não gostou? Se você tivesse gostado, diria que fiquei mais bonita.

– Não seria melhor pendurar no varal coberto a roupa lavada? O vento e o cheiro de poeira indicam chuva.
– Não vai chover.

– Está chovendo.
– Por que deixou a roupa lavada no varal descoberto, se notou a chuva?

– Vamos dormir juntos?
– Não. Você ronca.

– Dormimos juntos?
– Pra amanhã você dizer que eu ronco?

– Por que você fez isso?
– Porque sim.
– Porque sim não é resposta.
– Pode não ser para você, mas é para mim.
– Você tem uma razão para ter feito o que fez?
– Porque eu quis.
– Por qual razão quis?
– Porque sim.
– Ainda não entendi.
– Você não é o sabichão que sabe tudo? Procure nas suas ações e encontrará a razão de eu ter feito o que fiz.

– Que fazer para o dono desse carro desligar ou abaixar o volume do rádio?
– Chame a Polícia Militar.
– Você acredita que a polícia vem, se a chamam?

– Ouvi que os motoristas de Uber não ganham muito dinheiro.
– Tenho uma amiga que trabalha com o Uber e está satisfeita com os seus ganhos.

– Antes de desligar o notebook é boa prática sair do Facebook e fechar o browser.
– Não fechei? Tem certeza? Nunca esqueço de fechar.

– Como você emagreceu!
– Emagreci nada! Engordei, estou um balão!

– Você engordou um pouquinho.
– Engordei nada! Emagreci. Não dá para notar por causa da roupa.

– Precisa de ajuda?
– Pode deixar que eu me viro sem sua ajuda.

– Como é bonita a sua roupa!
– Bonita nada! É velha. Nem gosto muito dela.

– Quer fazer ginástica comigo?
– Trabalhando nesta casa faço ginástica suficiente!

– Quer dançar comigo?
– Está muito calor!

– Quer dançar comigo?
– Está muito frio! Prefiro ficar embaixo do cobertor, vendo o programa de culinária na TV.

– Está calor hoje.
– Sabe que estou até sentindo um friozinho?

– Está frio hoje.
– Você é muito friorento!

– Que tem nesta sopa?
– Por que? Não gostou?

– Está gostosa esta sopa.
– Não vai perguntar o que tem nela?

– Você demorou para voltar.
– Que nada! Fui e voltei num pulinho.

– Você voltou depressa!
– Que nada! Demorei demais.

– Bem que você poderia cozinhar polenta sem salsicha.
– Eu gosto de salsicha.

– Quer que eu limpe os cabelinhos do milho?
– Eu gosto dos cabelinhos do milho na comida.

– Veja só que interessante: este lado é maior que o outro.
– Mostrei isso a você ontem e você não deu atenção.

– Por que comprou ricota em vez de queijo?
– Prefiro ricota.
– Ricota não tem gosto nenhum.
– Prefiro o gosto nenhum da ricota em lugar do gosto do queijo.

– Vou pendurar no varal o casaco molhado de chuva que usava.
– No varal tem penduradas roupas lavadas, nada de misturá-las com roupa usada.

– Pode enviar por correio a sacola dobrada dentro de um envelope.
– Correio custa uma fortuna.

Manhã na cidade

Oito horas da manhã no horário normal. Nove horas no horário de verão no Hemisfério Sul desde 16 de outubro na Primavera. Embora o calendário aponte 6 de janeiro e o relógio nove horas do horário de verão, é o calor intenso que esclarece estar o Verão abaixo do Equador.

A Av. Gen. Olímpio da Silveira, no centro da cidade de São Paulo, capital do Estado de São Paulo, no Brasil, empurra automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas por baixo do Minhocão como o povo chama o que para a Prefeitura é a/o Via Elevado Pres. João Goulart, uma ponte de concreto comprida que convive com a avenida de baixo. É curioso esse nome. Se é Via, o certo não seria chamá-la de Via Elevada?

Viaja gente nos automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas. Anda gente nas calçadas, alguns saíram da Estação Mal. Deodoro do Metrô e não estão na Av. Gen. Olímpio da Silveira porque a estação está na praça Mal. Deodoro. Mal é abreviatura de Marechal e Gen é de General, importantes postos militares. Marechal mais importante do que General. Os passantes vão dos domínios do Marechal aos do General e, se quiserem, podem ir aos do Brigadeiro porque para os lados da Barra Funda tem a Rua Brigadeiro Galvão. Brigadeiro é outro posto militar, este dos aviões.

Como não tem os nomes das avenidas praças bulevares ruas elevados passeios e vias escritos nas calçadas, não sabemos se sob a proteção do Marechal ou do General, um casal dormia na calçada em frente a uma loja. Dormiam atravessados na calçada larga com os pés protegidos da chuva pelo Presidente e a cabeça pelo Marechal ou General. O resto dos corpos protegia um cobertor velho que não sabia se fora novo porque cobertores não têm memória. Aos cobertores interessa proteger no presente e não adianta perguntar-lhes se algum dia foram novos.

O Minhocão faz sombra ao mesmo tempo que funciona como uma chapa quente do sol de verão. A chapa envia para baixo da sombra o barulho calor poeira poluição ruído e sujeira. Depois, mais barulho calor poeira poluição ruído e sujeira. Tem de ser teimoso ou iluminado para dormir em tais situações.

Olhei para o casal ao passar. Foi um daqueles olhares para a direita esquerda acima abaixo à frente e não atrás porque não se olha para trás ao andar. Para não arriscar trombar com um poste ou uma banca de jornais. Tem muitos postes na calçada. Não apenas os de energia elétrica. Poucas bancas de jornais e revistas.

Ao passar pelo casal olhei para a direita. O homem acordou espreguiçou-se e virou-se para a mulher despertada antes. Não se mexeram e não se tocaram. Sorriram. Sorriram um para o outro. Ela para ele ele para ela. Sorriram enquanto eu passava e os fotografava. Foto com a câmera analógica sem filme da memória. Não mostro a fotografia porque não sei digitalizar as imagens da memória.

Ultrassom

Eu vejo o mundo pelos olhos de minha mãe, ouço os sons pela barriga dela, sinto não sei como as emoções dela e as minhas porque sou um ser humano vivo.

Ainda não nasci e já tenho obrigações e ocupações, uma das quais é observar o entorno por meio de minha mamis. Gosto da palavra entorno. “Na noite passada, sonhei com o entorno”. “O governador do entorno decretou feriado”. Também gosto das gírias dos anos 70, mesmo sem saber o que diabos pode ser anos 70. Ah, sim, de vez em quando, se minha mãe não ouve, praguejo um tiquinho. Praguejar é divertido.

Este entorno parece ser aquilo que mamãe chama de consultório médico. As pessoas vestidas de branco devem ser os trabalhadores braçais do consultório. Tem um que fala em tom professoral como se de tudo entendesse, deve ser o pajé da tribo.

Começou um ruído inaudível para nós, mamis e eu. Sinto cócegas. O que será? Melhor ficar em silêncio e total quietude. Sabe aquela história: “Se me dá vontade de trabalhar, sento-me num cantinho e fico bem quietinho, até a vontade passar”? É o que farei com esse ruído. O pajé que se lasque! O que será que quer dizer “se lascar”?

Pronto. Terminou. O pajé terminou a pajelança. Preciso de um dicionário. Espere, o que é isso que sinto em minha mamãe? Ela está triste! Não quero que minha mamãe fique triste! Diabo de pajé! Se pudesse, chutava-lhe os fundilhos. Preciso mesmo de um dicionário.

Na próxima vez que viermos ao terreiro deste pajé, farei um esbórnio dos diabos! Pularei saltarei baterei palmas e gritarei para alegrar minha mamãe.

Agora, com licença que aí vem outra remessa de alimentos e insumos via cordão umbilical. Preciso estocar uma parte e distribuir o restante pelos órgãos em formação do meu corpinho. As remessas de mamãe são fantásticas!

Eita moça bonita e querida! Depois de nascer, sempre que eu gritar “mamãããããe”, ela virá depressa, sorrindo. Não, não, gente, fala sério! Sem brincadeiras! De verdade! De fato! Tem vida melhor?

A decisão

Andava fazia tempo pela estrada de terra larga e deserta. Quase um dia inteiro de marcha e não vira uma pessoa, um veículo e um animal. Durante algum tempo, andou de cabeça e olhos virados para o solo e não viu sequer formigas. Nas áreas de planície, o vento provocava a poeira em redemoinhos pouco duradouros porque só tinha poeira para brincar.

Então, chegou à encruzilhada com caminhos em frente, à direita e à esquerda semelhantes mas não iguais se são três. As instruções não recebidas não indicariam o caminho de seguir. Anoitecia e logo não conseguiria ver nada na escuridão da noite sem luar.

Montou a barraca no meio da encruzilhada, juntou gravetos para a fogueira, esquentou a lata de comida que comeu e escutou no rádio portátil o concerto de Bach irradiado em ondas curtas por uma das rádios da BBC inglesa. No fim do concerto, enterrou a lata vazia de comida, lavou a colher com um pouco de água do cantil, bebeu o resto da água, amanhã teria de encher o cantil com água do riacho cujo ruído parecia ouvir, desligou o rádio portátil que guardou embrulhado em panos na mochila.

Recolheu-se à barraca e dormiu.

Acordou antes de nascer o dia. Acendeu a fogueira apagada durante e noite, esquentou a lata de café, molhou no café o pão duro que tirou da mochila, bebeu o resto do café, apagou a fogueira, enterrou os restos da fogueira e a lata de café junto com a lata de comida da noite de ontem, desmontou a barraca e olhou para a esquerda para a direita e para a frente na encruzilhada.

Com o binóculo viu mais à frente o caminho da esquerda entortado para a direita e por sua vez o caminho da direita entortado para a esquerda. Não seguiu o caminho da esquerda nem o da direita.

Agiu como se não tivesse encruzilhada e seguiu em frente na mesma direção de onde viera.

Mais à frente no tempo e na distância, sempre tem mais à frente no tempo ou na distância, atingiu outra encruzilhada em posição contrária da anterior. Nesta chegavam três caminhos, um da esquerda, um da direita e outro de trás, este último de onde viera.

Ela pensou que o caminho chegado da esquerda era o saído para a esquerda e curvado para a direita na encruzilhada anterior. O chegado da direita era o saído para a direita e curvado para a esquerda.

Com o binóculo viu que a estrada terminava mais à frente, mesmo embaixo de uma placa onde leu: FIM.

Visita

– Boa tarde, senhora. Seja bem vinda. Entre, por favor. Aproxime-se do fogo da lareira. Está frio lá fora. Sente-se nesta poltrona, é a mais confortável. Aceita chá? Está quente e agradável ao sabor. A quem tenho a honra de saudar e receber em minha casa?
– Percebo-o não me reconhecer. Nunca me viu? Nunca esteve na corte?

– Temo não reconhecê-la, senhora. Desculpe-me por olhá-la com admiração. Rendo minhas homenagens à sua beleza. Sabe, é raro eu viajar se trabalho na maior parte do tempo. Sou escritor. Nunca fui à corte e jamais participei dos bailes no castelo da Rainha.
– Agradeço o elogio à minha beleza. O senhor é um homem bonito e tem sorriso agradável de olhar. Sou a Rainha.

– Sinto-me honrado com a presença da minha Rainha. Meu sorriso é um tributo à senhora e à sua beleza. Como tem passado, Vossa Majestade?
– Estou bem, obrigada. E ao senhor, senhor conde, como lhe tem sido os dias?

– Em paz, senhora. Em paz com meus raciocínios pensares e escritos. Mas a que devo a importante visita de Sua Majestade?
– Venho lhe comunicar sua libertação.

– Libertação, senhora? Se não estou preso!
– Está preso a uma união.

– Sou casado, tem razão Vossa Majestade. Mas temo não considerar como uma prisão esse casamento.
– A libertação não é para si e sim para sua mulher.

– Deveras? Jamais ouvi dela tal desejo. Por correto afirmo ter ouvido poucos desejos dela.
– Ela temia magoá-lo ao lhe dizer.

– Não me magoaria. Já o esperava. Os modos de ser e agir dela não permitia dúvida. É curioso, o temor dela tem aparência de ironia.
– Pois ela me procurou com o pedido de livrá-la do senhor e do compromisso. Pediu-me que o informasse como se o senhor fosse libertar-se, quando ela é que deseja a liberdade.

– Que propõe, Vossa Majestade?
– Aceite sua falsa liberdade e conceda a real liberdade à sua mulher.

– Ouço e obedeço, senhora. De fato, a libertação é para ambos, para mim e para minha ex-mulher, assim a chamarei por enquanto. Depois não a chamarei de mais nada.
– Assim seja. A partir de agora, é um homem solteiro, senhor conde. Sua ex-mulher também é solteira para casar-se com o Duque, seu melhor amigo.

– Espero não ser convidado a comparecer às bodas de minha ex-mulher com o Duque. Prefiro manter intacta minha dignidade.
– Cuidarei que não seja convidado. Apenas, mude-se porque o Duque quer morar com sua ex-mulher, mulher dele após se casarem, nesta casa que ao senhor pertencia até nascer o dia de hoje quando comecei minha viagem.

– Não me importo de me mudar. Não me apego a lugares e tenho pouco a carregar. Sou de poucas posses materiais. Livros, ferramentas, alguns guardados, lembranças de outros tempos e poucas roupas.
– Venha comigo. Tem à sua espera no meu castelo um lugar pronto e preparado para recebê-lo. Li os seus livros, quero vê-lo trabalhar e conviver com sua inteligência e generosidade. Além de moradia ofereço-lhe um salário mensal para que escreva minhas memórias. Se aceitar minhas ofertas, é claro.

– Aceito, agradecido e encantado. Daqui a alguns minutos, terei juntado minhas coisinhas e poderemos partir.
– Ótimo. Abrace-me, meu amigo. Oh, nós nos daremos bem. Gosta do meu vestido?

– É lindo o seu vestido assim como é linda Vossa Majestade.