13 anos

capa de livro de contos de Benedito CarneiroIsso de ser uma menina com 13 anos de idade é trabalhoso! Ainda não tive a primeira menstruação e minha mãe está tão ansiosa quanto eu, até um pouquinho mais. No outro dia, comprou-me um sutiã, meu primeiro sutiã. Meus pais irmãos tios tias avós comemoraram. Mudaram o jeito de me tratar, mais como mocinha que garotinha. Afinal de contas, eu sou a joia preciosa da família. É o que dizem meus pais irmãos avós tios e tias.

Tem a escola. Ah, a escola, tantas meninas mais bonitas que eu. Minha irmã, estudante do colegial, diz que sou a mais linda da escola para me agradar. Bom, faço o que posso. Sou alegre, vivo numa família maravilhosa, sou amada e amo demais a todos eles. Precisa de um grande coração porque tem um monte de gente para amar. Caberia mais um? Os livros escolares não se ocupam dos corações das meninas de 13 anos. Terei de descobrir sozinha.

Tenho de achar um lugar no meu coração para ele. Eu o acho fantástico e lindo! Estudamos em turmas diferentes da mesma série da escola. Só nos vemos um pouquinho antes da primeira aula de cada dia e nos intervalos e na saída antes da volta para casa. Sempre tem alguém para cuidar de mim. Tenho benefícios por ser a joia preciosa da família.

Eu o descobri antes que ele me visse. Descobri que nós mulheres de 13 anos somos mais espertas que os meninos de 13 anos. Bastaram alguns olhares para ele me perceber. Se eu quisesse, ele não notaria que eu o olhava. Ah, não pense que foram olhares descarados, nada disso. Foram olhares furtivos disfarçados e escondidos. Sou esperta, não sou? É claro que eu queria que ele também me olhasse. Senão, não teria insistido, quando ele se fez de difícil. Venci afinal. Foi fácil sorrir para ele. O danado vive rindo e sorrindo. Sorri, se vem alguém buscá-lo, sorri para os amigos e amigas.
Só uma vez o vi com semblante sério e pensativo. Foi no dia em que o fiz me perceber. De repente, me viu e parou o sorriso no meio. Ficou ali parado, parecia intrigado, olhando-me de longe, sem se importar com a algazarra dos colegas. Então, sorri para ele e seu sorriso voltou. Melhor assim. Prefiro vê-lo sorrir em vez de olhar-me sério e intrigado. Nos outros dias, outros sorrisos cada vez mais próximos. A vida é tão boa!

Agora, tenho de ir. O dia de aulas terminou e devem estar à minha espera. Aproveitei uma aula vaga para fingir estudar e escrevi no meu diário que tenho de esconder agora que estou apaixonada. Se alguma de minhas irmãs ou irmãos lê o que escrevi, conta aos outros e todos ficarão me olhando com o olhar de nossa menina está crescendo, está se tornando uma moça. Eu adoro esse olhar da minha família e fico um pouco envergonhada. Segunda-feira o verei. Não tem nenhuma festa no fim de semana anterior às provas de fim de ano. Numa festa poderíamos dançar e conversar. Nada de namorar.

Ainda tenho 13 anos de idade. Esse negócio de ser uma menina com 13 anos de idade é maravilhoso e um pouco confuso.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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