Amanheceu chovendo em São Gabriel da Cachoeira

capa de livro de contos de Benedito Carneiro

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O torcedor

Jogou e torceu e torceu e jogou para todos os times no campeonato de futebol. Também foi bandeirinha comentarista juiz narrador operador de câmera e técnico em todos os jogos. Gostou das vitórias e desgostou das derrotas. Recebeu a taça, ergueu-a e deu a volta olímpica, enquanto aplaudia e vaiava. Terminou o campeonato de futebol. Guardou apitos bolas camisas chuteiras cornetas, pequenas e grandes bandeiras, súmulas dos jogos e uniformes. Dormiu durante uma semana. Acordou em tempo de iniciar a preparação para o campeonato de basquetebol.

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Surfistas

Esta história aconteceu no início de noite de um dia de verão. Em uma praia à beira-mar onde o mar tem ondas altas que os surfistas gostam. Dois surfistas na areia ao lado das pranchas olhavam o pôr do sol.

– Olha lá! Olha lá!
– Olhar o quê? Onde?

– Lá. Naquele canto do céu!
– Que tem ali pra olhar? Um pequeno ponto de luz. Deve ser uma estrela ou um avião ou ilusão de ótica.

– Já viu uma estrela que aumenta de tamanho ou um avião que sobe e desce? É um óvni.
– Você não bebeu que eu sei. Não é óvni porque óvnis não existem.

– É um óvni! Quer saber? Vem na nossa direção.
– Sei, sei. É um óvni e vem na nossa direção e nós vamos esperá-lo, certo? Espero mesmo é que tenha uma cerveja gelada porque está um calor danado neste canto do mundo.

– Quero ver você pedir uma cerveja gelada para os homens verdinhos que sairão do óvni porque ele vem mesmo na nossa direção. Está cada vez mais próximo.

Era um disco voador. Redondo e com luzes coloridas como são os discos voadores na imaginação dos terrestres. Vinha na direção deles e a luz visível à distância era de um farol potente com mecanismo direcional apontado para os dois sedentos surfistas. A luz diminuiu de intensidade à medida que o disco se aproximava, chegou bem perto, parou e ficou flutuando a um metro de altura da areia da praia. Surfistas que desafiam as ondas do oceano não temem óvnis, discos voadores e homenzinhos verdes. Um deles queria mesmo perguntar da cerveja, o outro queria mesmo saber se o amigo teria coragem. Sem nenhum ruído, uma rampa projetou-se do disco e uma porta abriu-se, revelando um interior iluminado.

– Não disse? Lá vem os homenzinhos verdes!
– Se tiver cerveja nesse disco, os homenzinhos podem ser azuis cor de rosa ou verdes.

Um tripulante do disco apareceu na luz da porta e desceu a rampa. Os dois surfistas já em pé, mais curiosos que nunca. O extraterrestre viajante no disco aproximou-se e quase derrubou de surpresa os dois surfistas. Não era um homenzinho azul cor de rosa e verde. Era uma linda mulher cor de morena queimada de sol de praia vestida em biquíni pequeno impossível. Impossível caber aquela mulher naquele biquíni. Os dois surfistas abriram o melhor e mais largo sorriso que encontraram.

– Por favor, qual é o nome deste lindo planeta? – perguntou a linda morena.
– Terra, estamos na Terra – esta a resposta dos dois em uníssono, ao mesmo tempo.

– Terra? Ah, Gaia. Puxa, erramos o caminho por alguns milhões de anos-luz. Desculpem o incômodo.
– Ora, não tem de quê.

– Bem, já nos vamos. Prazer em conhecê-los.
– Permite perguntar? Tem cerveja na sua nave?

– Pois acredita que temos uma pequena geladeira portátil cheia de cerveja? Vou mandar trazê-la para vocês.

Outro alienígena desceu a rampa. Desta vez uma loira de fazer chover no deserto, carregando uma pequena caixa. Era a geladeira portátil cheia de cerveja.

As duas mais lindas alienígenas jamais vistas subiram a rampa. A porta do disco fechou-se, a rampa foi recolhida e o disco subiu. Foi quando os dois surfistas perceberam que o disco estava na frente de uma fila que parecia interminável de outros discos voadores semelhantes. Um a um todos vieram para perto dos surfistas e subiram em fila indiana. Passou o último disco e todos sumiram no céu cada vez mais brilhante na Lua Nova. Os surfistas abriram a pequena geladeira e cada um pegou uma cerveja que abriu e começou a tomar. Depois de algum tempo, reiniciaram o diálogo:

– Ninguém acreditará nesta história.
– É melhor não tentar contar a alguém.

– Boa essa cerveja! No escuro não dá para ver a marca.
– Diga, aquela loira não parecia a Pamela Anderson, a atriz do Baywatch?

Dentro do maior disco voador, o comandante gordíssimo de três cabeças, uma azul a outra cor de rosa e ainda uma verde, disse às duas alienígenas:

– Por favor, voltem logo às suas formas e cores naturais. Vocês estão horríveis!
– De qualquer maneira foi bom termos visto aquele estranho programa de TV chamado Baywatch. Que quer dizer reprise?

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A decisão

Era criança de pouca idade e decidiu e não contou a ninguém porque as pessoas mais velhas inclusive sua mãe não tomariam a sério uma decisão da menininha. Ela até tentou contar ao irmão mais velho que amava tanto e era seu grande amigo, mas ele estava distraído e não a ouviu. Por isso decidiu duas decisões, a principal e a secundária. A decisão secundária foi a ninguém contar a decisão principal a ser conhecida ao se concretizar.

Tornou-se adulta mulher famosa e importante. Perguntaram-lhe como e quando decidira ser como era, ela lembrou-se do dia das decisões, mas respondeu com evasivas a fim de manter a decisão secundária.

Na adolescência, o irmão lhe disse que ela parecia saber o que queria e parecia orientar sua vida numa direção desconhecida para ele e poderia ser como quisesse porque era inteligente estudiosa decidida e obstinada. Ah, se ele soubesse quanto obstinada era ela e como sabia a direção!

Na escola secundária e na universidade, ela se empenhava para conseguir as maiores notas e ao mesmo tempo estudava as matérias e assuntos da decisão principal. Não estranharam quando ela aprendeu a pilotar aviões pequenos e candidatou-se a um posto na força aérea para o qual foi aceita porque tinha saberes e habilidades desejados nos pilotos de aviões.

Foi no tempo quando as viagens para a estratosfera e para a Lua não mais desafiavam o engenho humano. A base lunar crescia em habitantes e objetos. A espécie humana preparava-se para viajar para mais longe em naves tripuladas. As não tripuladas fazia anos que emitiam sinais além das fronteiras do Sistema Solar.

Ela se sobressaiu na força aérea, foi promovida a piloto de testes, os pilotos destemidos que levam aos ares os aviões incompletos, talvez com falhas, descobrem quais são as falhas e as consequências das falhas no voo do avião. É uma profissão arriscada permitida aos melhores, mais corajosos e, como sempre, obstinados.

Seu desempenho e façanhas na aviação de testes atraiu o interesse da agência aeroespacial que procurava cientistas e pilotos talentosos. E ela mudou-se com armas e bagagens para o maior centro aeroespacial da Terra. Ali produziriam viagens para planetas mais distantes que a Lua se conseguissem.

O último estágio do foguete entrou em órbita de Marte e dele desprendeu-se o módulo tripulado. Suave e lento atravessou o espaço para pousar na superfície do planeta. Depois de avisar à nave em órbita o pouso perfeito, a astronauta única tripulante acionou a escada externa do módulo, abriu a escotilha e desceu os degraus para pisar em solo marciano.

Olhou em volta e para onde alcançava a vista, tirou de um dos bolsos um pedaço de papel e um lápis e riscou algumas linhas nos escritos do papel. A única pessoa da Terra a entender o gesto da astronauta foi o irmão mais velho da menininha que via no televisor a chegada a Marte de sua irmã agora famosa.

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Viagem de ida

Uma viagem demorada e inesperada. É uma estrada longa. Tem trechos em linha reta horizontal em declive e em aclive, curvas para a direita e para a esquerda.

No caminho onde pouco se move naquela hora, o carro alterava o silêncio da madrugada com o ruído do motor e dos pneus em atrito com o asfalto. Em frente para cima para baixo para a esquerda e para a direita. A escuridão era iluminada pelos faróis do seu automóvel e diminuída pelos de veículos com os quais cruzava ou ultrapassava na rodovia de duas pistas, uma para ir e outra para voltar. Ele ia pela pista de ir e voltaria pela de voltar.

De vez em quando, luzes de uma cidade ou posto de combustíveis com lanchonete e restaurante anexos. Nesses momentos, pensava em quem vivia na cidade ou trabalhava no posto de combustíveis, lanchonete e restaurante. Quais eram seus sonhos alegrias e tristezas, suas vozes e seus rostos, suas mulheres seus maridos e seus filhos. Tentava imaginá-los dormindo amando trabalhando estudando sorrindo e chorando.

Sentia-se inclinado a sentir compaixão por aquelas pessoas que sofriam, embora não o seu sofrer porque cada pessoa tem seu próprio pedaço de muitas ou poucas alegrias e muitas ou poucas tristezas.

Parou em um posto de combustíveis para reabastecer o tanque do carro e foi à lanchonete restaurante para comer um sanduíche e beber uma xícara de café. Comeu e bebeu devagar para olhar os vendedores e a moça do caixa. Pensou em como viveriam fora do trabalho. Para trabalhar de madrugada, tinham de dormir em parte do dia e perder o tanto de vida humana que circula durante o dia.

Amanhecia, quando ainda ao volante do carro entrou na cidade onde ela não mais vivia. No único hotel da pequena cidade, vestiu o terno preto depois de banhar-se e barbear-se, comeu o café da manhã e dirigiu até o cemitério.

Foi reconhecido e abraçado com ternura por alguns dos presentes. Sem desviar os olhos dele, uma amiga discursou em prantos sobre a falecida. Despediram-se da morta e a cerimônia do enterro terminou. Quando muitos já se dirigiam para seus carros, a amiga que discursara aproximou-se dele, abraçou-o com força e entregou-lhe um envelope lacrado a ele endereçado com a letra da moça morta.

Convidaram-no para ficar mais tempo, almoçar com os amigos, dormir na cidade e seguir viagem no dia seguinte. Ele recusou os convites, despediu-se, dirigiu até um ponto da rodovia onde os construtores deixaram grandes pedras para ornamentar a margem, da menor chegou à maior como fizera em viagens anteriores na mesma rodovia, sentou-se, tirou o envelope do bolso para ler a carta.

Ela escreveu que sentia tê-lo rejeitado e desprezado anos antes e sabia que ele se fora da cidade por sua causa. Contou que com a sua partida, sentiu sua falta, queria vê-lo e ele não estava nos lugares onde se encontraram tantas vezes, ela com as amigas e os amigos, ele com os amigos que sempre pareciam discutir assuntos sérios e complexos.

Contou que devagar percebeu que o amava, quis dizer-lhe e sentiu medo de atrapalhar a vida dele longe da cidade pequena. Sentia que causara mal e não mais tinha direito de mudar a história. Mesmo assim, teria de contar-lhe quando se encontrassem, mas ele não mais voltara. Quando a doença foi diagnosticada em estado avançado, escreveu a carta e a entregou à amiga.

As horas do dia passaram, a terra girou para mover a luz do sol, veículos passaram num sentido e no outro, alguns abanaram a mão, talvez o reconhecessem. Ele ainda sentado na pedra grande com a carta no bolso da camisa e os olhos molhados de lágrimas.

Um pouco antes de anoitecer ligou o motor do carro, entrou na rodovia no sentido de ir, dirigiu toda a noite até sua casa na outra cidade e nunca mais percorreu aquela rodovia no sentido da pequena cidade onde ela ficara para sempre.

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Migrações nº 2

Mais rápido aí na frente! Queremos chegar logo. Esses os de trás. Os da frente querem diferente. Nada de pressa aí atrás! Já devíamos estar acostumados com a migração de todos os anos, mas não tem jeito. Os da frente não têm pressa, os do fundo são apressados e no meio está uma confusão. No ano que vem, migrarei sozinho. Cansei dessas excursões em grupo.

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O sorveteiro

Um menino loirinho de cerca de 10 anos, ao lado do carrinho de sorvetes fala ao sorveteiro:
– Moço, me dá dois sorvetes?
O sorveteiro vende sorvetes para clientes que os pagam:
– Você tem dinheiro?

– Não.
– Como pretende pagar os dois sorvetes?

– Não posso pagar.
– Porque quer dois sorvetes, se você é um só?

– O outro é para meu irmão.

O sorveteiro olha em volta à procura de outro menino loirinho.
– Onde está seu irmão?
– Ali.

– Aquele é o seu irmão? Vocês são diferentes!
– Ele é o meu irmão.

– Ele é pretinho e você loirinho! Sua mãe é também mãe dele?
– Não. Ele tem uma mãe e eu outra.

– Então, por que o chama de seu irmão?
– Ele é meu irmão mesmo que nossas mães sejam diferentes. Ele é meu irmão e eu o chamo de irmão e o considero meu irmão.

– Está bem. Chame seu irmão para perto do carrinho. Tenho de saber quais sabores de sorvetes vocês querem.

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Antes

A pintura, obra de um pintor cubista expressionista impressionista da Renascença, era um deleite para os olhos abertos, mas não para os olhos fechados porque olhos fechados não veem para fora, só para dentro.

O pintor era fã de Richard Strauss, Richard Wagner, Johann Sebastian Bach e Ludwig van Beethoven, mesmo vivendo antes de nascerem esses compositores ainda não conhecidos justamente por sequer terem nascido.

O pintor era fã de futebol, antes da invenção do futebol. Era torcedor do Sport Club Corinthians Paulista e da Sociedade Esportiva Palmeiras, cujas escalações completas recitava, antes da fundação do SCCP e da SEP. Tinha camisas e bandeiras dos dois times, antes da invenção de camisas e bandeiras de times de futebol.

Comprou ingressos para todos os jogos de Corinthians e Palmeiras no campeonato, antes da invenção de ingressos e campeonatos.

No tempo do pintor, tinha jogos onde os jogadores disputavam aquilo que desconheciam se era redondo ou quadrado porque era invisível se não fora inventado. Sendo aquilo invisível, o jogo era não jogo e os jogadores entravam em campo e ficavam parados a olhar uns para os outros e os espectadores a olhar para todos os jogadores e ganhava o não jogo aquele primeiro a rir.

Alguns minutos antes de morrer, o pintor perguntou à pessoa ao lado se sabia se o jogo da noite seria mostrado no televisor ainda não inventada e pediu o jornal também não inventado para ver a programação das difusão dos jogos.

Séculos depois da morte do pintor, o museu onde expunham suas obras incendiou-se. Um rojão disparado por um torcedor de futebol ao comemorar a vitória do seu time no jogo final do campeonato entrou pelo vão do telhado e incendiou a pilha de jornais velhos guardados no sótão. Os carros do corpo de bombeiros demoraram para atravessar os torcedores ocupantes da praça. O incêndio queimou o museu e também os quadros do pintor.

As pessoas de olhos abertos deleitaram-se com a pintura, agora só a podiam ver com os olhos fechados em suas memórias.

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Subir e descer

Subi subi subi e subi, desci desci desci e desci. Tornei a subir e descer, subir e descer, subir e descer, subir e descer. Pensei pensei pensei pensei e conclui que este lugar é esquisito. Por isso é chamado de Cordilheira dos Andes?

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Anelise

Anelise é uma mulher moderna. Tem smartphone tablet leitor de ebooks e notebook. Tem acesso à internet e wi-fi. Tem conta de email Skype WhatsApp Facebook Twitter e Instagram. Tem e usa todos esses recursos todos os dias.

Todavia, acordou uma pessoa diferente na manhã de uma segunda-feira. Não era a mesma pessoa adormecida na noite de domingo.

Não ligou o notebook, deixou de lado os aparelhos modernos, desligou o modem de acesso à internet, foi à papelaria onde comprou um bloco de papel de carta decorado com desenhos de flores, envelopes, cola escolar lavável não tóxica à base de acetato de polivinila também conhecido como PVA, um vidro de tinta Parker Quink azul real lavável para canetas tinteiro e duas pilhas AA alcalinas Duracell.

De volta à casa, instalou as pilhas no rádio portátil Sony ICF-SW10 Stereo 12 Bands FM/MW/LW Receiver, ligou-o e sintonizou a BBC Radio 3 em ondas curtas. Fez café, encheu de tinta o reservatório da caneta tinteiro Lamy, sentou à mesa onde tinha apoiado as compras da papelaria e escreveu uma longa carta assinada como Ane. Endereçou um envelope que lacrou já com as folhas escritas dentro e levou-o para postar na agência dos correios.

Tudo isso aconteceu na segunda-feira pela manhã. Na terça-feira, ao voltar do trabalho à noite, tinha uma carta para ela na caixa do correio.

Sentou-se na poltrona, abriu o envelope, leu e releu a carta escrita e enviada para si mesma na segunda-feira. Ainda com a carta nas mãos, pensava no que escreveria na manhã de quarta-feira. Tinha tanto a contar a Elise, a sua nova correspondente. Segredos desejos fantasias alegrias e tristezas!

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Os fantasmas

Às 11h45 da noite em um castelo inglês do século X, dois fantasmas conversavam antes de iniciar o trabalho. Primeiro, fala o fantasma despojado:
– É bonita a sua mortalha nova. De qual tecido é feita?
Responde o fantasma vaidoso:
– É algodão egípcio 1500 fios macio e sedoso. Sinta só.

– Macio deveras. Custou caro?
– Nem tanto, estava em liquidação e compensa a despesa. Pode ser lavado na lavadora de roupas e mantem a qualidade depois de várias lavagens. Você devia experimentar e trocar a sua mortalha feita de sacos da farinha costurados.

– Por que lavar a mortalha?
– Você sabe, as paredes não são limpadas e atravessá-las deixa poeira na mortalha. Em outra noite, atravessei no meio de um daqueles retratos dos ancestrais pintado a óleo e um pouco da tinta grudou na mortalha.

– Você também está usando um chapéu vermelho. Que ideia é essa de fantasma com chapéu, vermelho ainda por cima? Não sentimos frio e dentro do castelo não chove.
– Decidi lançar e difundir minhas ideias de moda e tendências. Não seguirei a moda ditada por fantasmas costureiros de Paris.

– Fantasmas seguem moda e lançam moda? Existe moda para fantasmas?
– Se tem não sei, entretanto assombrar com o chapéu vermelho é divertido e provoca caras engraçadas nos assombrados.

– Quase meia noite! Vamos assumir nossos postos. Nesta noite estarei de plantão na ala norte.
– Eu estarei na ala sul. Bons sustos. Até amanhã cedo.

– Nos encontraremos na sala de jantar para o café da manhã.
– Depois do café da manhã, passearemos no veículo que inventei: uma bicicleta para dois fantasmas. Não tem freios guidão pedais quadro rodas e selins. É pintada de vermelho metálico brilhante.

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Sonhos

Sonhar é tão comum quanto dormir. Assim como todos os seres humanos e provável também os animais irracionais, talvez até os vegetais, ela e ele sonhavam quando dormiam. Sonhavam sonhos que pareciam reais, sonhos absurdos com lugares, pessoas e situações.

Ela tentava, com algum sucesso, lembrar-se dos sonhos das horas de sono. Ele, por outro lado, era curioso para saber dos mecanismos dos sonhos, tanto que tinha no Kindle o livro A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud ainda não lido. É preciso dizer que não se conheciam e viviam em cidades diferentes de países diferentes.

Em uma noite, ele sonhou com uma moça cujo rosto o sonho escondeu ou ainda não conhecia. Na mesma noite, com algumas horas de diferença do fuso horário, ela sonhou com um moço que o sonhou não mostrou o rosto que também não conhecia.

A nitidez dos sonhos cresceu, ficaram mais parecidos com realidade, os rostos apareciam. Até cada um ver no seu sonho o rosto daquela e daquele que desconhecia em um lugar incerto.

Sonhar com estranhos em lugares estranhos não é incomum. Ao contrário, deve ser comum a muitos sonhos que as pessoas não contam porque deles não se lembram ao acordar. Entretanto, a qualquer sonhador pareceria estranho sonhar um único sonho todas as noites, sempre com a mesma pessoa no mesmo lugar que enfim revelou ser um grande monumento.

Sonhos não são provocados e nada pode ser feito daquele que insiste em reaparecer todas as noites. Um pesadelo seria indesejado, mas os sonhos dela com ele e os dele com ela eram inócuos porque não mostravam a não ser os rostos com o monumento ao fundo.

Quando a imagem tornou-se nítida, ambos procuraram na internet fotos de monumentos. Começaram pelas cidades onde viviam, passaram para as outras cidades dos respectivos países. Trabalho demorado e nebuloso porque nenhum dos dois era bom desenhista, tinham de lembrar da imagem vista em um sonho e não tem como pesquisar uma imagem na internet apenas através de uma vaga descrição dela.

Curiosidade, persistência e trabalho levaram a encontrar o Albert Memorial em Kensington Gardens em Londres, Reino Unido, uma cidade que nenhum dos dois visitara, menos ainda o conjunto monumental comemorativo da morte do Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória que reinou de 1837 a 1901. Se nenhum dos dois vivia em Londres ou no Reino Unido, nem tinham dinheiro para viajar ao país distante para procurar uma pessoa talvez inexistente sem os sonhos, o mistério deveria ser resolvido nos sonhos.

Mais pesquisa na internet revelou próximo do Albert Memorial um restaurante com um quadro de avisos para recados entre as pessoas. Assim aconteceu que no sonho dele ela deixou no quadro de avisos um bilhete com seu nome e endereço. No sonho dela, ele fez igual. No sonho da noite seguinte, cada um leu o recado do outro.

Corresponderam-se por cartas postadas nos correios, trocaram fotos, histórias, endereços de email, número de telefone celular, mensagens de texto e vídeo por WhatsApp. Foram amigos namorados e amantes. Continuaram a viver cada um na sua cidade do seu país. Nunca se encontraram em pessoa.

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Paranoia

Estou sendo vigiada. Não venham me dizer que é invenção da minha imaginação. Não é paranoia, estou mesmo sendo espionada. A sensação esta maior depois de entrar neste lugar. Ah, descobri! É aquela mulher na parede brilhante. Que estranho! Imita os meus gestos, veste-se como eu e até parece comigo. Claro que eu sou mais bonita que ela!

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Os elefantes

Os elefantes estão alegres hoje. Na reunião da semana passada, alguns estavam tensos e preocupados com as últimas partidas do campeonato de futebol de hienas. Agora que o campeonato terminou e o campeão é conhecido, podem relaxar e divertir-se.

Ainda estou longe do local do encontro e já ouço as risadas. Sou capaz de apostar que contam piadas de zebras. Elefantes adoram contar piadas de zebras. Não acho muita graça em zebras. Se fossem piadas de leões…

Mesmo em reuniões sérias para discutir filosofia ou política, não demora e um deles diz:
– Seu argumento filosófico me lembra a história da zebra que foi tomar banho no rio e se lavou tanto com o sabonete de glicerina que saiu da água com listras brancas e cinzas em lugar das pretas de antes do banho.

Pois uma piada sem graça como essa faz todos os elefantes presentes à reunião rirem como doidos.

No entanto, elefantes não apreciam piadas de leões. Na reunião passada, contei uma piada de leão engraçadíssima e ninguém riu. Ficaram me olhando e balançando as trombas os rabos e as cabeças como se eu tivesse falado inconveniências.

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Diálogo com a mãe

Conversa entre mãe e filho ouvida pelo agente secreto espião. Primeiro, fala o filho:
– Mãe, posso usar a camiseta vermelha?
A mãe responde de pronto porque sabe as perguntas e as respostas:
– Põe a azul mais nova.

– E a amarela?
– A azul é mais nova e mais bonita que a amarela e a vermelha.

– E a verde?
– A azul é mais nova e mais bonita e mais elegante que a verde a amarela e a vermelha.

– Posso ir pelado?
– Pode ir pelado da cintura para baixo. Da cintura para cima vista a camiseta azul.

– De camiseta azul e de bunda de fora?
– A camiseta azul atrairá mais atenção que a sua bundinha!

– Mãe!

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A sessão de cinema

Quantos filmes nesta noite! Gosto deste cinema. O casal de namorados beijou-se algumas vezes. O gato saiu a passeio. A Lua escondeu-se atrás das nuvens. O vendedor de pipocas levou embora o carrinho. O guarda-noturno pôs-se a vigiar a noite. Passaram espectadores da última sessão de cinema. Fechei a janela para a praça porque está tarde, terminou o domingo e amanhã será segunda-feira.

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Dança e magia

– Convido-a para dançar comigo.
– Aceito com prazer. Pensei que jamais falaria comigo.

– Sua beleza e sucesso popular me assusta. Não sabia se podia competir com seus admiradores por sua atenção.
– Não só podia como venceria a todos. Minha atenção é toda sua desde sua chegada a esta cidade.

– Qual a razão do benefício da atenção da rainha?
– Não sou uma rainha.

– Para mim é a rainha de quem sou súdito encantado.
– Queria que me procurasse desde a primeira vez que nos vimos. Como rainha, que diz que sou, não queria ter a iniciativa que cabe aos súditos.

– As outras pessoas não se interessam por mim.
– Você parece sempre estar dentro de si sem ver o mundo em torno. Quando o percebe, o mundo, vê mais do possível com os olhos. Quero ver com os seus olhos.

– Que meus olhos veem neste segundo em que dançamos?
– Uma mulher rainha linda que quer beijá-lo.

– No meio do salão com tantos outros casais também dançando?
– Deixe-me agir.

– Que aconteceu? Antes, vi o salão, as pessoas, os dançarinos. Agora, vejo só você e eu. Você quero mesmo ver e eu sempre me veria. E os outros?
– Usei meu poder de bruxa e não de rainha.

– Estamos invisíveis? Posso beijá-la sem que ninguém mais nos veja?
– Sim. Pare de falar e me beije.

– Obedeci e senti o mais doce beijo. Quando acaba a magia?
– Quando eu desfizer a invisibilidade.

– É perigoso.
– Por quê?

– Porque se vejo a si, desejo-a mais que como rainha e bruxa com um beijo delicioso. Peço o seu perdão desse desejo.
– Também desejo a si. É bom. É um bom desejo.

– Sim, se nos desejamos é bom. Que faremos com nosso desejo?
– Dançou alguma vez com uma mulher nua desejada que também o desejasse?

– Não.
– Feche os olhos.

– Abra-os, agora. Veja, estou nua e você também.
– Você é inteira linda!

– Sou, não sou? Estou me vendo com os seus olhos. A magia tem limitantes.
– Quais são?

– Não podemos parar de dançar até a música parar.
– Como fazer, se a quero possuir?

– Possua-me, também quero ser possuída por você. Não pare de dançar.
– Dançamos lentos.

– Quanto mais devagar dançarmos, melhor me possui.
– Temos de nos preparar para o fim da música que se aproxima.

– Não é preciso. A magia se encarregará de nos recompor.
– Não queria parar jamais de dançar e possuir você ao mesmo tempo.

– Não pare. Chegaremos juntos ao orgasmo antes da música parar. Talvez ela não pare.

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Tudo ao contrário

  • Ame e declare ódio.
  • Case-se e não leve a noiva na lua de mel.
  • Não roube e seja condenado como ladrão.
  • Não seja bem vindo e entre.
  • Pague dois e leve um.
  • Pague o almoço e não ganhe sobremesa grátis.
  • Roube e não seja condenado.
  • Seja corrupto, delate os comparsas e não seja condenado como corrupto.
  • Seja corruptor, delate os comparsas e não seja condenado como corruptor.
  • Seja corruptor, mande publicar na imprensa um pedido de desculpas e não seja condenado como corruptor.
  • Tenha um automóvel e vá a pé.
  • Vote em um candidato e eleja outro.
  • Vista a roupa e saia nu de casa.

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Liliana

O homem gordo forte me segurou pelo braço. Queria saber de Liliana, eu tinha de conhecê-la, Todos conhecem Liliana, Por que você não a conheceria? Pensei que me agrediria, mas chamou o soldado, acusando-me de mentiroso por não querer revelar o esconderijo de Liliana, a Liliana procurada por toda a família.

O soldado perguntou menos por ocupar-se de Liliana e mais devido à insistência do homem não tão gordo e menos ainda forte insistindo que me levasse preso por mentir.

O padre passava e quis que eu lhe confessasse. Argumentei não sou cristão para me confessar a um padre e mesmo se o fosse ele nada poderia revelar da minha confissão em segredo do confessionário. Afastou-se perplexo de encontrar um não cristão e perceber que não ajudaria ouvir-me confessar o paradeiro de Liliana.

O delegado do distrito policial ameaçou gritou esmurrou a mesa machucou a mão ao socar o canto da mesa e mandou-me prender no xadrez à espera do promotor que não pode vir e passou a reclamação direto ao juiz. Este tentou ser persuasivo, mas eu aprendera a convencê-los da minha inocência desde a conversa com o homem gordo forte. Libertou-me, aborrecido do insucesso.

Anoitecia ao chegar à casa escondida sem luzes visíveis por causa das cortinas fechadas. Liliana levantou o rosto do livro e sorriu-me o sorriso luminoso que tanto amo:
– Demorou a chegar. Senti saudade.
– Demorei e cá estou. Também senti saudade.

– Perguntaram por mim?
– Não. Não sabem de nos conhecermos.

Agora, falo primeiro. Depois, Liliana.
– No caminho, pensei que teremos de nos ir daqui onde jamais seremos felizes.
– Tem razão. Irei para onde for, não posso deixá-los me encontrar.

– Vamos comer para não sentir fome no caminho. Depois, nos tornaremos invisíveis e partiremos.

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Os patos-carolinos

Tem de ser hoje, não amanhã nem depois de amanhã. Aqui dentro está apertado para tantos moradores. Vou até a porta olhar o ambiente. Como é alto! Espero que seja água aquilo lá embaixo. A água é o meu ambiente, onde vivo com minha mãe, minhas irmãs e irmãos. Lá vou eu! Por enquanto, tudo bem. Agora falta pouco. Cheguei! Que tombo, caí na água e sobrevivi. Aí vêm minhas irmãs e irmãos, e ali está minha mãe à nossa espera. O primeiro voo dos patos-carolinos não é nada fácil.

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Para sempre

Tentaram separá-los de várias maneiras inventadas. Ela foi proibida de sair desacompanhada, irmãos e irmãs nem sempre de boa vontade agem como guardiães da sua virtude. Os pais dele, preocupados com sua segurança, proibiram-no de se aproximar dela e de sua casa.

No cinema, ele sentava numa cadeira atrás da dela, os amigos e amigas ajudavam, ela punha o braço para trás para que ele segurasse sua mão que beijava enquanto olhavam a tela sem ver o filme. Eram adolescentes e pais zelosos sempre pensam que vencerão a obstinação de adolescentes apaixonados.

Em vão. Ao chegarem ambos à maioridade, o pai dela comprou testemunhos falsos de um roubo inexistente, pagou advogado padre soldado delegado e juiz para o condenarem à prisão.

Ela saía de casa todas as manhãs sem levar água e comida porque os amigos e amigas supriam suas necessidades. Sentava-se em frente à cadeia a esperar. Não falava com ninguém, olhava para a porta, aceitava sorrindo a comida e a bebida levada por amigos e amigas.

Quando o libertaram porque sentiram-se envergonhados com as acusações falsas de um crime inexistente, ele saiu pela porta e os dois abraçaram-se, enquanto amigos e amigas dela e dele os cercavam para protegê-los, enquanto olhavam para o chão também emocionados.

Os pais dela concordaram com a união porque pais também desistem mesmo que demorem a entender.

Ela e ele viveram muitos anos juntos, felizes, encantados um com o outro. Quem os conheceu dizia que não tinha outro casal conhecido que se amasse tanto. Quando ele morreu, ela não chorou, mas o seguiu pouco depois. Antes de ir, explicou que ele lhe pedira que ainda ficasse um tempo a distribuir entre filhos netos e amigos queridos os bens que restavam de sua vida de amor e boa vontade.

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Sinalização de segurança

– Que espera?
– O sinal.

– Dos céus?
– Não, espero abrir o sinal para pedestres. Quero atravessar a floresta em segurança.

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As formigas

Quantas idas e vindas nesta árvore! Desde o início da subida no solo cumprimentei algumas centenas de semelhantes de espécies diferentes. Dizem que numa árvore da Amazônia tem mais espécies de formigas que em toda a Inglaterra, o que quer que seja a tal Inglaterra. Não sei se a afirmação é falsa ou verdadeira. Nesta árvore parece ter mais que em toda a Europa, o que quer que seja a tal Europa. De qualquer maneira, continuarei a subir esta Sumaúma e cumprimentar as formigas que descem.

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Choro

Chorava forte, aos berros, não parava de chorar e berrar e chorar tudo ao mesmo tempo. Como conseguia? Não sabem do que sou capaz. Ela tentava acalmá-lo, mas quanto pode fazer a mãe de um bebê de seis meses de idade a estranhar o interior de um avião lotado de passageiros que viajará de São Paulo a Buenos Aires?

Tiene hambre, mi hijito? No avião para Buenos Aires, a mãe argentina leva o filhinho nascido no Brasil para conocer los abuelos. O bebê não tinha fome. Examinou a fralda, sequinha. Tem sede? Também não. Tentou embalá-lo suave, é mãe carinhosa. No way, mais choro e berros.

Um cínico sugere oferecer whisky ao bebê. Outro, menos cínico, café sem açúcar. A melhor ideia, porém, é da aeromoça que se aproxima da poltrona da mãe e do bebê e canta a música que tem na cabeça. Leve, de Chico Buarque.

O moço da poltrona do lado juntou-se à aeromoça, ele canta bem. O bebê parou de chorar para olhar a cantora e o cantor. Terminaram a música e emendaram outra sugerida pelo cantor. Outros passageiros se juntaram ao coro, melhor cantarem do que a barulheira do bebê agora interessado na cantoria. Esse povo faz mais barulho que eu com o meu choro!

Quando o coral encontrou Adoniran Barbosa e Trem das Onze, o bebê olhou para a mãe que entendeu e lhe deu o seio. Mamou, ficou um tempo em pé no colo para arrotar e não engasgar com o leite, e cansou da cantoria. Bem devagar, fechou os olhos e dormiu.

Acordou e o avião taxiava no aeroporto de Ezeiza em Buenos Aires. Cordial, sorriu para a mãe e para os passageiros despedindo-se ao passar por eles. A aeromoça foi a última a despedir-se da mãe e do bebê com um beijo que deixou no rosto dele uma marca vermelha de lábios com batom vermelho.

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Vocação

Era uma vez uma leoa que decidiu ser cantora lírica. Queria cantar árias de óperas. Acontece que a leoa e o leão foram ao Metropolitan Opera ver e ouvir a soprano russa Anna Netrebko na ópera La Traviata de Giuseppe Verdi. Estavam em viagem de segundas núpcias a New York.

O leão interessou-se pela linda soprano russa do ponto de vista do predador carnívoro. Olhou e lambeu os beiços para os braços roliços da diva e quase não ouviu a música. A leoa interpretou errado o interesse do leão. Pensou que ele se encantara com a voz de Anna. Por causa do erro de interpretação, a leoa agora procura um professor de canto lírico na savana. Sem deixar de ser também uma predadora carnívora.

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O leão nº 5

– Posso pular o muro?
– Sim.

– É perigoso?
– Não, se você for uma leoa.

– Por que?
– Porque do outro lado do muro tem um leão.

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Mais um copo

Do jeito em que estou, mais um copo não fará diferença. Bebi 20 copos cheios? Pudera, com a sede que eu tinha hoje de manhã! 20 ou mais copos de água fresquinha são a receita ideal para diminuir a sede.

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Uma voz no telefone

O telefone tocou e o homem atendeu. Manhã do domingo, 2017, 20 de abril. Na outra ponta da linha dos telefones fixos ligados por cabos, a voz feminina falou sem nada perguntar:

– És um ingrato, não me amas. Desprezas-me, deixas-me só sem a sua companhia, abandonas-me infeliz e insatisfeita. És malvado e cruel. Não me amas e jamais me amaste. Em tempos, julguei que me amavas e enganei-me, tu me enganaste, és um mentiroso enganador cruel. Queria demais não mais te amar e desejar, todavia minha vida é triste sem a tua presença e até sem o teu desprezo. Quero que voltes para mim diferente de como és, mudado, com amor e paixão para me dar.

O homem que atendera ao telefone nada dizia, intrigado e penalizado da dor da mulher que continuou:
– Alfredo, por que não respondes? Emudeceste? Por que me abandonaste?

O homem respondeu:
– Senhora, ligou para o número errado. Não me chamo Alfredo e cá ninguém se chama Alfredo.
– Tua voz me é mesmo desconhecida. Além do que falas de modo estranho, diferente de como o faria Alfredo.

– É porque não sou Alfredo. Seu modo de falar também me é estranho. De onde fala?
– Ora, da mesma cidade que tu. De Chicago, USA.

– Não estou em Chicago, e sim na cidade do Rio de Janeiro, Brasil.
– Muito estranho! Bem, mesmo que em cidades de países diferentes, estamos no mesmo dia 20 de abril de 1873. Não é?

– Temo desapontá-la mas aqui estamos em 2017.
– Céus! Deveras? Não espanta a ligação demorar tanto a completar-se!

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Sonhos

Igual à maior parte das pessoas, não lembrava dos sonhos ao acordar e não pensava no assunto. Sigmund Freud e outros poucos veem serventia em estudar os sonhos, os sonhadores nem tanto. Todavia, se o sonhador pode se lembrar dos sonhos sonhados, sua curiosidade cresce na razão direta da estranheza do sonho.

Sonhou escrever uma história de ficção bonita interessante e inédita. Ao acordar, lembrou do sonho, mas não da história. Deve ter sido minha imaginação. Pois não é que tinha no disco do notebook o arquivo com o texto da história escrita no sonho?

Podia sonhar que construía uma mesa para escrever porque gostava de produzir móveis de madeira. Mas encontrar na oficina uma mesa prontinha que não se lembrava de construir, era de deixar doido um sujeito de cérebro são. Sonhou com isto, aconteceu. Sonhou com aquilo, aconteceu. Acostumou-se a sonhar com eventos que aconteciam sem saber como enquanto dormia.

Então, numa noite, sonhou matar um homem.

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O fantasma nº 6

Era uma vez um fantasma de um agente secreto que usava mortalha de cor preta, óculos de sol com lentes de cor preta, chapéu de cor preta e a ninguém assustava porque continuava secreto, embora fantasma.

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Salvamento

– Não, não salte da ponte no rio! Puxa, salvei a sua vida, não é mesmo? A vida é tão boa! Por que leva essa boia nas mãos?
– Não salvou-me a vida e também não a da pessoa que se debatia na água para a qual eu pretendia atirar a boia. Não está mais visível a pessoa.

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No distrito policial

Na sala de interrogatórios do distrito policial, o agente de polícia interroga o acusado:
– Você foi acusado de roubo. O que roubou?
A situação não aparenta assustar o acusado de aparência tristonha:
– Fui acusado de roubo por aquela moça que ambos sabemos está na outra sala.

– Sim, ela o acusou, mas exato o que roubou da moça?
– Fui acusado por ela de roubar o amor dela.

– Roubou mesmo?
– Não roubei. Ela me deu seu amor e eu lhe dei o meu amor.

– Então, por que ela o acusou?
– Talvez ela se arrependesse de ter-me dado o seu amor porque também não mais quer o meu.

– Você, o que quer?
– Quero ficar preso.

– Por que?
– Se ela não mais me ama e não quer o meu amor, prefiro estar preso.

– Você sabe que, nestes tempos, ladrões são encarcerados em Marte de onde é difícil algum dia voltarem à Terra vivos?
– Sim, sei disso. Não faz mal. Sem o amor dela minha vida não tem importância.

– Chamam-me na outra sala. Voltarei logo que puder.

Entra o agente de polícia na sala onde está a moça com a qual fala:
– O moço acusado por você de roubo alega que ele não a roubou porque cada um de vocês deu o próprio amor ao outro.
Responde a moça:
– Ele não mente pois diz a verdade. Ele não é culpado de roubo porque eu lhe dei o meu amor.

– Sendo assim vou liberá-lo.
– Por favor, pode dizer-lhe que o esperarei na frente do distrito policia?

– Direi. Tenha uma boa noite, moça. Até logo. Quanta ventura a de vocês dois ao entregar um ao outro o próprio amor.

Volta o agente de polícia à sala onde está o moço inocente não mais acusado de roubo:
– Ela retirou a acusação por dizer que você diz a verdade sobre o acontecido. Você está livre porque não mais está acusado de roubo.
– Posso ir então?

– Sim. Ela pediu para lhe dizer que o esperará em frente ao distrito policial.
– Nesse caso, posso sair pela porta dos fundos? Não quero falar com ela. Não hoje pelo menos. Em outro dia, talvez.

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As 2002 Noites

Scheherazade, a espertinha que contou 1001 histórias ao rei Xariar da Pérsia para enganá-lo e conseguiu seu intento tornando-se a rainha dele, tinha uma irmã Duniazade casada com Xazamã, o irmão do rei. Tudo em família naqueles tempos.

Xazamã também queria viver suas 1001 noites a ouvir histórias e pediu a Duniazade para imitar a irmã Scheherazade. A mulher aceitou o desafio e começou a lenda das 2002 noites passadas como relatado a seguir.

Na primeira noite, Duniazade contou uma história com 1001 palavras, nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Xazamã encantou-se com a inteligência de sua mulher e esperou ansioso a noite e a história seguinte.

Na segunda noite, Duniazade contou a mesma e exata história com as mesmas palavras, as mesmas entonações de voz, as mesmas pausas, parecia repetição da primeira noite, todavia foi diferente porque Duniazade suprimiu a última palavra. Contou a história com 1000 palavras porque não falou a de número 1001.

Xazamã estranhou um pouco, Essa mulher deve ser maluca, casei com ela e não me contaram que era doida, mas dele ganhou a curiosidade de conhecer a história da terceira noite que foi igual à primeira e à segunda, com exceção do tamanho que passou a 999 palavras.

Noite após noite, a história passou a 998, 997, 996 palavras e assim por diante, até Duniazade ter apenas a primeira palavra da história para a noite seguinte. Que foi diferente de como planejado por ela.

À noite, reuniram-se na sala de contar e ouvir histórias do palácio, sim, o palácio tinha uma sala com sofás e poltronas confortáveis para contar e ouvir histórias, reuniram-se Xazamã, Duniazade e outros ouvintes que também queriam ver e ouvir a mulher maluca de Xazamã.

Este último foi o primeiro a falar, dizendo que ele contaria as histórias daquela noite e seguintes. Falou, então, duas palavras, a primeira e a segunda da mesma história que ninguém mais aguentava ouvir e tinham decorado.

Na noite seguinte, Xazamã contou três palavras da história a Duniazade, apenas ela na audiência que os outros tinham debandado para a sala do palácio que também tinha sofás e poltronas confortáveis para olhar o aparelho de tela plana de 52 polegadas com conexão a cabo de 512 canais.

Noite após noite, Xazamã repetiu ao contrário a rotina de Duniazade até terminar de contar a história de 1001 palavras. Terminou o relato e a noite ficara dia. Ele e Duniazade tomaram café da manhã na sala de jantar do palácio sem sala de café da manhã, segurou a mão da mulher e levou-a à porta da casa do pai dela para perguntar a pergunta:
– Diga-me, vizir, meu sogro, pai de Scheherazade e de Duniazade, esta sua filha que aqui tenho pela mão, é maluca como parece ou também é uma gozadora?

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Pernilongo

Um pernilongo decidiu voar na minha frente. Bati a palma de uma das mãos contra a palma da outra mão no caminho de voo dele. Resultou em um pernilongo esmagado. Ao lavar as mãos dos restos mortais do díptero, disse-lhe:
– Cometeste um erro fatal ao voar na minha presença. Saiba, falecido pernilongo, que em minha presença só voam aviões de carreira.

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O progresso

Cá está essa avenida larga com várias pistas para ir e voltar. Aqui existiu em tempos passados um conjunto de prédios de apartamentos demolido para ceder o lugar à avenida.

Os arquitetos projetistas acreditavam que as pessoas deviam ver-se umas às outras em vez de olhar a cidade. Assim, as salas de estar das casas de cada prédio foram projetadas para ficar de frente para as dos prédios vizinho.

Se alguns tinham cortinas para fechar não ver e não ser visto, não era assim nas janelas das salas de estar daquelas duas famílias de moradores pouco depois da inauguração do conjunto. As duas famílias se olhavam todos os dias. Assim que se mudaram, eram dois casais que tiveram filhos que cresceram e se mudaram até que só restaram os dois casais mais velhos. Desde os primeiros tempos, ela e ele cumprimentavam-se e sorriam, como antigos conhecidos.

Então, faleceu o marido dela; depois, a mulher dele. Quando se cumprimentavam, não mais sorriam. Ambos estavam só, apesar de filhos e netos que vinham e iam. Sem perceber, ela preocupou-se ao notar que ele se desfazia dos pertences da casa cada vez mais vazia. Numa noite, foi à janela para cumprimentá-lo, mas todas as luzes dele estavam apagadas.

Semanas depois, ele tocou a campainha da casa dela, entrou e falaram-se pela primeira vez. Ele explicou que no período em que estivera ausente, vendera o apartamento e comprara uma vila com várias casas em uma pequena cidade não muito distante. Convidou-a para morar e viver com ele. Ela poderia vender o apartamento, levar os móveis ou deixar tudo para um dos filhos.

Os filhos dele e os dela tinham as próprias casas onde morar, mas gostariam de ter a companhia dos avós para levar as crianças nos períodos de férias escolares. De modo que ele e ela foram viver e morar juntos em uma das casas da vila. As outras casas prepararam para receber os filhos e netos de ambos.

Quando derrubaram os prédios para construir a avenida larga com várias pistas para ir e voltar, ele e ela vieram ver as implosões. Da sacada do alojamento do hotel, com os filhos e netos, de mãos dadas e lágrimas nos olhos, viram os explosivos transformar em montes de entulho os dois prédios onde viveram tantos anos.

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Informação

– Olá.
– Olá.

– Como está o trabalho?
– Não trabalho.

– Aposentou-se?
– Também não.

– Então, o que faz?
– Nada. Morri.

– Como morreu, se te vejo?
– Sonha que me vê.

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A vida da cidade

Aos 12 anos de idade, fui empregado no Cartório de Registro Civil da cidade onde não nasci mas adotei como cidade natal porque meus pais para aqui se mudaram quando eu tinha 20 dias de idade. Meu pai conseguiu-me o emprego porque era conhecido e tinha amigos.

O Cartório registra os bebês recém-nascidos e emite as respectivas certidões de nascidos oficializando para a sociedade civil um bebê que ninguém sabe qual tipo de pessoa será no tempo futuro.

No Cartório registravam-se as uniões como quando comecei a datilografar as certidões, mulheres com homens, homens com mulheres. O sobrenome do homem era adicionado ao nome da mulher que passava a assinar um nome com o qual não fora registrada no tempo de bebê. Para a lei civil a mulher estava em segundo plano nas novas famílias, mas não acontecia assim com todos os casados porque em muitos a mulher era mais importante que o homem.

As tristeza vem ao Cartório com as pessoas que relatam as inevitáveis mortes dos seres humanos, entram com olhos tristes e a cabeça baixa, contam os dados em voz baixa e saem para a rua ensolarada, levando nas mãos um papel chamado Certidão de Óbito que conta ainda menos da vida e da morte que as certidões de casada e casado nascida e nascido.

No prédio do fórum da cidade, duas salas pequenas, algumas mesas e cadeiras, livros grandes para os registros certificados e toda a vida da cidade. Era assim.

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O fim do mundo

Subiu ao ponto mais alto da montanha, olhou, olhou e não viu. Repetiu em outra montanha mais alta e nada. As montanhas mais altas e os resultados se sucederam. Foi à Lua por ser o lugar mais alto acima da mais alta montanha. Entretanto nem na Lua conseguiu ver o que procurava. Voltou ao vale de onde saíra e escreveu no diário: O fim do mundo, se existe, esconde-se para não se deixar ver.

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O nadador

Em cidades pequenas, qualquer novidade é notícia comentada e divulgada boca a boca. Esta novidade foi comentada divulgada e festejada.

Construiriam duas piscinas na sede de um dos dois clubes da cidade. Uma menor para as crianças e outra maior para adultos. Ambas retangulares, 6 por 10 metros e 12,5 por 25 metros a maior. Opa, numa piscina curta de 25 metros podem ser disputadas competições de natação, como de fato aconteceria.

Os curiosos, entre os quais o menino, iam admirar a construção, a colocação das pastilhas no piso e dentro das piscinas. Na piscina maior, a construção das balizas de salto nas competições, o trampolim de três partes com a prancha na mais alta, as quatro escadas de saída de aço inoxidável, uma para cada canto do retângulo.

Enfim, terminou a construção, teve a festa de inauguração e elas foram em modo oficial apresentadas à sociedade dos associados do clube. Lindas piscinas de água clarinha. O menino jamais vira mais beleza que a água refletindo o sol enquanto se mexia com o mover-se dos banhistas.

Muito bem. Inaugurado o conjunto aquático, nome do conjunto de piscinas e vestiários que acabaram de construir algum tempo depois da inauguração das piscinas, exame médico aprovado, teve o problema de aprender a nadar. O menino não se satisfaria em brincar na piscina para crianças e a profundidade da grande, mesmo na parte mais rasa, era maior que a altura dele.

Raciocine, menino. A piscina infantil é dividida em três partes, a primeira mais rasa para as criancinhas, separada da segunda, um pouco mais funda, por uma corrente. Em pé na terceira parte, a mais funda, a cabeça do menino está acima da água. Portanto, a piscina infantil é o ponto de partida da jornada do futuro nadador que ainda não sabe nadar.

Começou na parte do meio da piscina infantil. Nadava até a corrente, com as mãos quase a tocar o fundo, voltava ao ponto de partida e tornava a nadar para agarrar a corrente. Cada vez mais para trás, até encostar as costas na parede do fundo da parte mais funda da piscina infantil. Sem pressa, repita os exercícios para aprimorar o estilo, nade com estilo bonito, nado livre cujo nome não sabia, não seja um estabanado que espirra água para todos os lados.

Tendo considerada dominada a piscina infantil, examina a piscina grande. É funda, mesmo na parte mais rasa e, veja só, não tem correntes para segurar. Sabe qual é o segredo dessa piscina enorme? É retangular, num retângulo podem ser traçadas linhas diagonais.

Como assim, diagonais? Ora, se eu nadar em diagonal posso começar com segmentos diagonais menores e aumentos gradativos até ser capaz de nadar sem segurar na borda da piscina.

Assim raciocinou, assim fez. Nadou em diagonais de tamanho quase igual a zero até a largura. Depois nadou muitas vezes a largura e nadou a maior dimensão uma e muitas vezes. Do estilo livre passou ao costas e encantou-se com o nado de peito.

Um dia, convidaram-no para nadar costas em uma competição de natação da cidade. Foi desclassificado por ter errado a virada que pensavam que soubesse, onde diabos aprenderia?

Orgulha-se de ter ensinado a nadar ao irmão, à irmã e aos filhos. Não sabe a razão, sente uma saudade doída daquele tempo e do cheiro do ar à tona da água ao respirar entre as braçadas. Talvez porque fosse tão livre, livre como jamais seria!

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As abelhas nº 1

– Por onde tem andado?
– Por nenhum lugar.

– Se te vi pra lá e pra cá?
– Sim, me viu voando e não andando. Sou uma abelha e abelhas voam.

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Desavenças

São mesmo briguentos. Em todos os encontros tem brigas correrias mordidas pancadarias e xingamentos. Poderiam viver em paz, cada grupo no seu canto e nada disso acontece. O Serengeti é grande e tem lugar para todos. Contudo basta o encontro de uma manada de búfalos com um bando de leões para ter confusão. Suspeita-se serem os búfalos os verdadeiros encrenqueiros que também não se dão bem com as sociáveis hienas.

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Se

  • Se chove, não faz sol? Se faz sol, não chove?
  • Se é alegre, não é triste? Se é triste, não é alegre?
  • Se é amor, não é desprezo? Se é desprezo, não é amor?
  • Se é certo, não é errado? Se é errado, não é certo?
  • Se é manhã, não é noite? Se é noite, não é manhã?
  • Se é noite, não é dia? Se é dia, não é noite?
  • Se é hoje, não é amanhã nem ontem.
  • Se é presente, não é passado nem futuro.

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O amor, o ciúme, o desprezo e o ódio

Dois anos de namoro. Ele numa cidade e ela na outra. Ele a visitava tanto quanto conseguia e ela o recebia com amor.

Passeavam pela cidade e ele a acompanhava à casa onde devia chegar até as 22 horas. Nos primeiros meses ele a deixava no portão e ia encontrar-se com os amigos de infância. Ela tinha de chegar em casa até as 22 horas mas não tinha de entrar imediato. Segurava-o para ficarem mais tempo juntos e ele se ia quando os amigos não mais estavam nos lugares costumeiros.

Amavam-se demais e percebiam apenas as qualidades do outro.

Ela foi morar na cidade dele, compraram as alianças de mulher e marido e ficaram noivos no cinema enquanto o filme viajava pela tela. Emocionados e felizes ela enfiou a aliança dele no seu dedo anelar e ele fez igual com ela.

Casaram-se para morar e viver juntos. Passados alguns meses o ciúme dela apareceu não de uma vez porque seus terríveis pedaços entraram em ação gradativa e inexorável.

Ele ficou transtornado sem saber o que fazer e fez tudo errado. Uma pessoa sujeita ao ciúme de outra e sem conhecer a situação não sabe como se comportar. Debate-se sem se defender e comete erros de toda espécie porque não sabe o que fazer e não percebe as trágicas consequências do ciúme.

Neste caso ele não se deixou dominar pelo ciúme dela e o ciúme sem dominação evoluiu para o desprezo. Ela não conseguiu sujeitá-lo ao seu ciúme e trocou os sentires. Deixou de amá-lo e passou a desprezá-lo. Trocou o amor e o ciúme por desprezo.

O desamor ele não percebeu tão depressa quanto sentiu o desprezo constante silencioso invariável crescente triste indiferente e destruidor.

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Visitante

Ouviu o som da campainha. Não estava quebrada? Seria a memória do som? Sons conhecidos ouvidos repetidos e guardados na memória, aparecem de repente misturados com novos sons. Não tocou de novo, provável uma pessoa educada que aciona o botão uma vez e espera ser atendido.

Ninguém no portão. Seria brincadeira das crianças da escola? Não era. Tinha um cesto de vime encostado na parede. O entregador cansara-se de esperar, deixara a entrega e fora embora.

Pegou o cesto pela alça e ouviu um choro de bebê. Incrível, tem um bebê no cesto, tão coberto que só percebeu ao ouvir o resmungo por mover o cesto. Afastou o cobertor para ver um rostinho de bebê sorridente, o resmungo fora para avisar que tinha o cesto era habitado.

Entrou, chamou a mulher que encantou-se com bebê, tirou-o do cesto e abraçou-o como mãe e avó. Embaixo do bebê tinha um papel com um número de telefone escrito. Telefonaram e ouviram uma gravação de voz feminina pedir para cuidarem do bebê por uma semana, ao fim da qual o buscariam. Uma semana passaria rápido, decidiram atender a mulher ao telefone. No cesto tinha um pacote de fraldas e uma lata de leite em pó para bebês daquele idade.

Avisaram as filhas e filhos que vieram em seguida com as netas e netos. Num instante, a casa encheu-se de gente que queria ver o bebê, pegá-lo no colo, alimentá-lo, ver se tinha limpa a fralda. Trouxeram roupinhas, cobertores, presentes. O bebê parecia abismado com o movimento. Olhava para uns e outros com evidente curiosidade.

Entretidos e encantados com o bebê, não perceberam uma característica diferente dele. Ele não chorava, além do resmungo quando o pai adotivo pegou o cesto de vime no portão, não chorara uma vez sequer. A mãe adotiva percebia que se antecipava às necessidades e desejos do bebê, mas atribuía a antecipação ao seu cuidado com o novo morador da casa. Todavia, num dia em que a mãe se ausentou da casa, o pai sentiu que o bebê tinha sede fome e fralda molhada. O pai intrigou-se com o fato de parecer ter ouvido uma voz lhe dizer para cuidar da criança, mais ainda por ele estar no escritório e o bebê no seu quarto. À noite, contou à mãe e esta admitiu também perceber desacordos nos eventos relacionados ao bebê.

Na manhã seguinte, sem explicação aparente, vieram filhas filhos netas e netos. Também sem atentarem para a singularidade da situação, reuniram-se todos na mesma sala, depositaram o cesto com o bebê no centro e ouviram as explicações sem som difundidas por telepatia para as mentes de todos.

Em uma planeta habitado da Grande Nuvem de Magalhães, o nome dado à galáxia na Terra, nós a chamamos por outro nome, vive uma civilização avançada e antiga que vê a evolução da vida na Terra desde milênios. Após surgir o Homo Sapiens, outro nome diferente de como chamamos a espécie, nos preocupamos em olhar as guerras atrocidades e crueldades praticadas.

Em nosso planeta, tem duas correntes de opinião sobre a evolução da espécie humana. Uma corrente acredita na autodestruição da espécie causada por suas próprias ações de destruição. A outra corrente acredita que, embora não tenhamos detectado, tem algo a manter a espécie humana a salvo dos membros maus e cruéis.

Eu pertenço à segunda corrente e, tendo profissão de explorador, fui transformado em bebê, os bebês são os seres humanos mais frágeis e dependentes, para viver algum tempo com uma família terrestre típica para descobrir a causa da evolução da espécie humana a despeito das atrocidades e crueldades.

Nesta família encontrei as respostas que procurávamos. Mantém a espécie humana em evolução crescente a afeição o amor a bondade a generosidade e a piedade, entre outras afeições.

Agora, se quiserem perguntar terão de falar em voz alta porque transmito por telepatia, mas não leio as suas mentes. Em meu planeta, cultivamos liberdade de pensar e de expressão de opiniões. Por isso, a telepatia se faz apenas no sentido do emissor da mensagem para o receptor. Muitas perguntas fizeram, a todas respondeu o bebê que também tinha curiosidades ainda não satisfeitas.

Quanto todos pararam de falar para permitir-se absorver as novidades as informações e a curiosidade, disse o bebê que a nave que o buscaria aproximava-se e pousaria no quintal, era uma nave pequena para transportá-lo à nave mãe em órbita da Terra. Pediu que o pusessem no cesto de vime que levariam ao quintal.

Sem fazer nenhum ruído e sem luzes brilhantes, pousou a pequena nave com forma de cilindro, abriu a escotilha e desceu uma pequena rampa. O bebê pediu que o pai adotivo apoiasse o cesto na rampa e despediu-se.

Adeus, minha mãe, meu pai, minhas irmãs e meus irmãos. Jamais os esquecerei. Levo para meu planeta e para o resto da minha vida as melhores lembranças e saudades de qualquer ser vivo. Adeus. Vida longa venturosa para todos.

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As abelhas nº 2

Gosto de conviver com as abelhas. São sociáveis informadas e acolhedoras. No outro dia, fui a uma festa das colmeias. Bom papo com o zumbido, boa comida com o mel e boa bebida com o própolis. A conversa foi bem mesmo ao falarem da Seleção Brasileira de Futebol. Teve opiniões divergentes sobre a convocação a escalação e a escolha do capitão, nada demais. Todavia ao mudar o assunto para o Campeonato Brasileiro de Futebol a festa acabou em brigas e ferroadas. Nem eu escapei e olha que comecei a correr ao falarem das decisões do juiz no último jogo.

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Eu me amo, eu me gosto, eu me sou suficiente

– Eu gosto de banana.
– Eu gosto de melancia.

– Fui ao cinema.
– Ouvi uma música linda ontem.

– Engordei nas festas de fim de ano.
– Vou iniciar uma dieta para engordar.

– Dormi mal nesta noite.
– Eu sonho muito todas as noites.

– Gostei do capítulo de ontem da novela.
– Vi um filme lindo ontem.

– Vou votar no candidato X.
– Odeio eleições.

– Sinto uma dor estranha na barriga.
– Tenho consulta marcada com o dentista.

– Comprei um carro Fiat Palio Fire.
– Pretendo usar o metrô para ir ao trabalho.

– Estou lendo um livro interessante.
– Comprei uma caneta tinteiro Lamy.

– Preciso mandar cortar meu cabelo.
– Hoje, me rebelei e não raspei a barba.

– Entrei num grupo de WhatsApp interessante.
– Tenho mais de 500 contatos no Facebook.

– Meu filho tem outra namorada.
– Minha filha marcou a data do casamento.

– Gosto de lasanha.
– Gosto de alface.

– Sou fã do Frank Sinatra.
– Eu gosto de samba.

– Vou mandar pintar a sala de casa.
– Meu chuveiro não esquenta como devia.

– Vi um gatinho lindo.
– Meu periquito anda tristinho.

– O circo é bonita forma de arte popular.
– Hoje tem difusão de futebol no televisor.


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