As cinco cidades

capa de livro de contos de Benedito CarneiroEra uma vez cinco cidades vizinhas em um vale acessível por passagens estreitas nas montanhas. Nas cidades viviam crianças jovens velhos e animais domésticos. Todos atingiam idades avançadas nunca acima dos 100 anos porque morriam antes do aniversário de 100 anos. Eram cidades antigas, fundadas quando já existia escrita porque os fundadores escreveram a história da chegada ao vale habitado por animais e vegetação, escreveram de como decidiram que cinco cidades espaçadas por igual seria boa forma de ocupar a região, escreveram de quando trouxeram as famílias e da curiosa transformação dos velhos.

Ao mencionar a transformação dos velhos, os fundadores referiam-se a um fenômeno iniciado com as primeiras famílias chegadas ao vale: com o passar do tempo, os velhos remoçavam, ficavam mais bonitos mais fortes saudáveis e joviais. Poucos meses depois de chegarem ao vale, os velhos das primeiras famílias tinham a aparência e a vitalidade dos jovens, com melhorias na visão e audição e na pele, voz e andar firmes, cabelos brilhantes, dentes fortes e brancos. A idade avançava, eram conscientes de envelhecer e morriam sem os problemas e aparência do envelhecer.

O rejuvenescer tinha duas características especiais. A primeira era não se restringir aos mais velhos. Os jovens não ficavam mais jovens, porém nas cidades do vale não usavam porque não careciam de óculos aparelhos para os dentes botas ortopédicas aparelhos auditivos e outros consertos dos defeitos das pessoas. A segunda característica, mais importante que a primeira, era nem todas as pessoas mais velhas serem beneficiadas pelo rejuvenescer. Envelheciam sem rejuvenescer os maus os praticantes de crimes os que maltratavam pessoas e animais, os mesquinhos os que desprezavam os que reclamavam da vida e do trabalho no vale.

Os habitantes do vale não se ocupavam de procurar a solução do mistério. Todavia para os estranhos a descoberta poderia ser útil e proveitosa. Isso atraiu curiosos aventureiros e pesquisadores honestos. Não se demoravam porque desistiam de procurar a causa de retardar a velhice que também não os beneficiava. Os mais velhos não mudavam ao permanecer no vale. Se chegavam velhinhos, continuavam velhinhos até voltar às suas cidades de origem.

Testaram a água do rio das nascentes nas encostas das montanhas, coletaram e enviaram amostras a laboratórios de análises, descobriram que a água tinha características e propriedades comuns. Coletaram e analisaram amostras do ar em lugares e horários diferentes, os resultados indicaram ar limpo de poluição sem nada mais notável. A alimentação era simples e não especial. As montanhas em torno do vale eram parte de enorme cordilheira que formava outros vales habitados por pessoas que envelheciam como os outros seres humanos.

Como sempre tem a primeira vez, em certo dia chegou para testar teorias uma pesquisadora de 80 anos de idade que gostou tanto das cidades do modo de vida e das pessoas que desistiu da carreira de pesquisadora para viver no vale para sempre. Assumiu um cargo de professora em lugar de outra recém-falecida. Vivia como se tivesse nascido em uma das cinco cidades.

Ao chegar ao vale, o corpo da professora de 80 anos de idade mostrava os sinais de envelhecer, contudo nos meses seguintes principiou a transformar-se como nunca visto antes. Era visível e perceptível a mudança das condições vitais dela. O andar ficou mais firme os óculos foram abandonados a audição melhorou a voz ficou mais forte e jovial, ela rejuvenesceu recuperou o desejo sexual e namorou.

Foi assim que intuíram a solução do enigma. Não era a água o ar as energias das montanhas a alimentação os extraterrestres os animais os fantasmas dos antigos moradores os espíritos dos animais pré-históricos o espírito da montanha o espírito que paira sobre as águas o guardião das passagens o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa. Era o amor às pessoas ao lugar ao modo de vida à vida no vale a bondade e doçura de gente bondosa que praticava boas ações e distribuía bondade e afeição. O vale devolvia com amor o amor recebido.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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