Como entrei no ofício de escritor

Nasci curioso. Para minha sorte, sou e sempre fui curioso. Como isto funciona, como aquilo é fabricado, o que se faz neste lugar, com quais matérias primas, insumos e processos industriais são fabricados estes produtos, como se aprende isto ou aquilo e por aí afora.

Tem uma característica comum às pessoas curiosas: o autodidatismo. Embora não desprezem os ensinamentos de escolas e professores, aprendem por si a maior parte dos assuntos de interesse. Se tem manuais ou livros ou a imensa quantidade de conhecimento e informação da internet, aprende-se quase tudo.

Junto com a curiosidade e o autodidatismo, tem também o interesse por experimentar todos os assuntos mostrados na tela do radar. Foi assim que vi, em algum lugar do qual não me lembro, referências à escritora americana Julia Cameron e às Morning Pages.

Julia Cameron escreveu o livro “O Caminho do Artista” onde descreve à técnica por ela inventada com o nome de Morning Pages. O subtítulo do livro é “Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios”, de modo que a técnica das Morning Pages objetiva estimular a criatividade do praticante. É uma técnica de aplicação fácil e resultados significativos imediatos.

Consiste de escrever três páginas de texto, entre as primeiras atividades da manhã. Simples demais? Note que se trata de escrever em papel, à mão livre, sem ocupar-se da qualidade da letra, da correção das palavras, da gramática, da ortografia e da pontuação. O mais importante vem agora: escrever o que vier à cabeça, todos os pensamentos enviados pelo subconsciente ao consciente em frases completas ou aos pedaços.

Entre ver a descrição da técnica no radar e praticá-la, foi um pequeno passo. Nas primeiras vezes, aconteceu um fenômeno não mencionado por Julia Cameron no seu livro. Os primeiros pensamentos escritos no papel vieram dos problemas irresolvidos do passado. Mágoas, rancores, raivas, desconsolo. Me agrediu, me maltratou, desprezou, não me ama, me odeia, me bateu. Problemas do passado que pensava tivessem sumido, vieram aos borbotões do subconsciente ao consciente e dali ao papel.

Outro fenômeno sucedeu. Não retornaram nos dias seguintes os problemas do passado vindos no primeiro dia. Passou-se como se os problemas navegassem do subconsciente ao consciente e ao papel de onde, por ser meio externo, não mais puderam retornar ao subconsciente. Perderam-se e sumiram no papel escrito com letra ilegível.

Gradativa e lentamente, o subconsciente esgotou o estoque de problemas do passado. Ora, se o consciente não pode ficar sem pensar, onde iria o subconsciente buscar os pensamentos? Provavelmente, é claro que estou supondo por ter pequeno ou mínimo ou nenhum conhecimento de ciências do cérebro, o subconsciente foi buscar pensamentos entre as lembranças dos livros lidos.

De modo que, num certo dia, entre os escritos ilegíveis das Morning Pages, apareceram as primeiras frases legíveis de uma história pequena. Notou que, embora os escritos fossem ilegíveis na maior parte, escrevi as frases da história em letra legível? Foi impensado e inesperado. Ao tempo de surgir a história, a letra ficou legível, como se o meu cérebro advinhasse que eu teria de copiar a história para outro arquivo.

Assim contado, parece inventado para ludibriar. Acontece, contudo, que tudo se passou assim como descrevi. Se duvida, experimente a técnica. Logo de manhã, sente-se à mesa em frente a duas folhas de papel e escreva frente, verso e frente. Lembre-se, não se ocupe da letra, da ortografia, da gramática, da correção dos erros.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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