Educação

capa de livro de contos de Benedito Carneiro– Quer dizer que você nunca fala palavrões? – intrigado.
– Sim – este não fala palavrões.

– O que você exclama, se chuta um obstáculo com o pé descalço e machuca o dedão?
– Ai, machuquei o dedão do pé. Se tomasse mais cuidado ao andar, evitaria acidentes.

– Sua reação é civilizada comedida e elegante, mas é absurda e anormal. Ninguém dá uma topada com o pé e machuca o dedão e reage com tanta frieza e civilidade. Qualquer um que chuta um obstáculo e arrebenta o dedão e descarrega os palavrões mais escabrosos que conhece.
– Não sou qualquer um.

– Ninguém é qualquer um, quis dizer que a reação normal e aceitável é a explosão de raiva. Você também não fala gírias?
– Não falar gírias é mais fácil que não falar palavrões. Os palavrões são falados sem pensar em explosões inesperadas. Quem se habitua a falar palavrões acostuma-se com eles e os repete mesmo se não seriam necessários. Falar gírias indica preguiça ou vocabulário ruim. Gírias são artificiais e não substituem as palavras do dicionário.

– Você nunca falou palavrões ou passou a não falá-los?
– Deixei de falar palavrões porque me cansei deles. Explosões de palavrões menos resolvem os problemas do que causam outros. Gírias e apelidos nunca falei. O dicionário tem palavras para exprimir conceitos e ideias com objetividade e clareza. Gírias e apelidos são sem necessidade porque inúteis.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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