A guerra parou para o fim de semana


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Restaurante e churrascaria

– Este restaurante e churrascaria mudou.
– Tem razão, a qualidade piorou.

– Deve ser por causa da crise.
– Crises dificultam a atividade empresarial.

– A oferta de carne diminuiu, tem mais saladas e pães.
– A família do dono está maior.

– O bando aumentou. Tinha cinco leoas e agora tem dez.
– E também tem os oito leõezinhos.

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Piratas

Quase morreram no encontro com o capitão pirata. Quase morreram de rir ao ouvir as piadas contadas pelo capitão pirata. Capitães de piratas são bons contadores de piadas.

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Manhã na cidade

8 horas da manhã no horário normal. 9 horas no Horário de Verão instalado desde 16 de outubro na primavera do hemisfério sul. Embora o calendário aponte 6 de janeiro e o relógio 9 horas da manhã no Horário de Verão, é o calor intenso que esclarece estar o verão instalado abaixo do equador.

A Av. Gen. Olímpio da Silveira, no centro da cidade de São Paulo, capital do Estado de São Paulo, no Brasil, empurra automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas por baixo do Minhocão como o povo chama o que para a Prefeitura é a/o Via Elevado Pres. João Goulart, uma ponte de concreto comprida que convive com a avenida de baixo. É curioso esse nome. Se é Via, o certo não seria chamá-la de Via Elevada?

Viaja gente nos automóveis caminhões ônibus motocicletas e bicicletas. Anda gente nas calçadas, alguns saíram da Estação Mal. Deodoro do Metrô e não estão na Av. Gen. Olímpio da Silveira porque a estação está na praça Mal. Deodoro. Pres. é abreviatura de Presidente, Mal. é de Marechal e Gen é de General, importantes postos militares os dois últimos. Marechal mais importante do que General. Os passantes vão dos domínios do Marechal aos do General e, se quiserem, podem ir aos do Brigadeiro porque para os lados da Barra Funda tem a Rua Brigadeiro Galvão. Brigadeiro, que não está abreviado, é outro posto militar, este dos aviões.

Como não tem os nomes das avenidas praças bulevares ruas elevados passeios e vias escritos nas calçadas, não sabemos se sob a proteção do Marechal ou do General, um casal dormia na calçada em frente a uma loja. Dormiam atravessados na calçada larga com os pés protegidos da chuva pelo Presidente e a cabeça pelo Marechal ou General. O resto dos corpos protegia um cobertor velho que não sabia se fora novo porque cobertores não têm memória. Aos cobertores interessa proteger no presente e não adianta perguntar-lhes se algum dia foram novos.

O Minhocão faz sombra ao mesmo tempo que funciona como uma chapa quente do sol de verão. A chapa envia para baixo da sombra o barulho calor poeira poluição ruído e sujeira. Depois, mais barulho calor poeira poluição ruído e sujeira. Tem de ser teimoso ou iluminado para dormir em tais situações.

Olhei para o casal ao passar. Foi um daqueles olhares para a direita esquerda acima abaixo à frente e não atrás porque não se olha para trás ao andar para não trombar com um poste ou uma banca de jornais. Tem muitos postes na calçada. Não apenas os de energia elétrica. Tem poucas bancas de jornais e revistas.

Ao passar pelo casal, olhei para eles. Como conseguem dormir na calçada, nesse calor e com esse barulho! O homem acordou espreguiçou-se e virou-se para a mulher. Ela estava desperta. Não se mexeram e não se tocaram. Sorriram. Sorriram um para o outro. Ela para ele e ele para ela. Sorriram enquanto eu passava e os fotografava. Foto com a câmera sem filme da memória. Não mostro a fotografia porque não sei digitalizar as imagens da memória.

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Elogios

– São bonitos os seus cabelos! – isto falou o primeiro.
– Plástico – isto falou o segundo.

– São bonitos os seus olhos!
– Vidro.

– Você tem o corpo bonito.
– Aço.

– Qual é o seu nome?
– Meu nome de código é ZYL3R, sou um robô. Prefiro ser chamada de Shirley.

– Quanta coincidência, Shirley, também sou um robô! Meu nome de código é PRK30. Prefiro ser chamado de Alfredo.

– São bonitos os seus cabelos! – isto falou Shirley.
– PVC anodizado – já isto falou Alfredo.

– São bonitos os seus olhos!
– Quartzo.

– Você tem o corpo bonito.
– Aço inoxidável. Às suas ordens! Estou livre nesta noite.

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Foi assim

  • Ele enfrentou perigos em aventuras por causa dela. Ela era linda. Morava em um castelo no topo de uma montanha. Ele tinha um cavalo e uma espada. Era destemido e corajoso. O amor entre eles foi instantâneo e maravilhoso. Ela como princesa, ele como príncipe. Casaram-se e viveram felizes para sempre. Não se sabe se foi mesmo para sempre. A história parou de ser contada após o casamento. Assim aconteceu num conto de fadas.
  • Amavam-se, davam-se as mãos, juravam amor eterno e olhavam-se nos olhos. Também se miravam no espelho. Era fácil trocarem de amor para ódio e vice-versa. Assim acontecia porque eram adolescentes namorados.
  • Amavam-se, davam-se as bocas braços corpos e as mãos. Olhavam-se nos olhos. Planejavam casar-se com casa nova e filhos. Juravam amor eterno. Assim aconteceu porque estavam noivos.
  • O amor diminuiu, o desamor o desalento e o desprezo cresceu. Não se davam as mãos, não se olhavam nos olhos. Quase não olhavam um para o outro. O desprezo cresceu e passou à frente dos outros amores. Assim aconteceu. Não se sabe se era união de muitos anos.
  • Sentia saudade. Onde ela estaria? Queria vê-la, encontrá-la e tomar-lhe as mãos nas suas. Olhar nos seus olhos. O casal não mais existia fazia anos. Nenhum dos dois sabia onde estava o outro. Assim acontece na vida de muitas pessoas.

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O leão nº 1

Antes de atravessar a estrada olhou para um lado e para o outro. No outro lado, sentou-se para descansar com as costas apoiadas na árvore. Não percebeu o leão faminto ali perto.

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O berço do bebê

Diabo de móvel difícil de montar! Por quais demônios os fabricantes os fazem tão complexos?

Tinha de vários tamanhos os alicates, as chaves de fenda Philips e allen, e o martelo. Sua mulher opinava que devia tê-las comprado mais e melhores e se ele não fosse sovina compraria o conjunto completo. Leu o manual de instruções e espalhou as partes do móvel pelos espaços vazios do quarto. Duas horas depois de começar, o berço do bebê desmontado parecia que nunca ficaria pronto. A mulher grávida incrédula desistira de olhar o trabalho, jamais acreditara nele, ele não sabia porque estavam casados. Ela tinha ido para o quarto para dormir na cama. Diabo de móvel e diabo de casamento. O bebê nenhuma culpa tinha porque ainda não nascera.

Por quais diabos ele sempre estava em enrascadas das quais não saía senão ao se debater para se livrar? Casar-se era uma enrascada, uma mulher a não acreditar nele, não escondia nem se esforçava para disfarçar a descrença.

Agora, este berço de bebê para montar. Parafuse a peça A na peça B, encaixe a peça C na peça D. Por quais capetas não nomeavam as peças com nomes de entender em vez de letras de expressões matemáticas? Encaixe a Laranja no Espremedor, parafuse a Banana na Aveia. Parabéns, você terminou de montar a Salada de Frutas!
Desistir e chamar e pagar o montador da fábrica tinha tirado dos seus planos. Montar o berço era ponto de honra, pontos de hora são inescapáveis. Ora bolas, acima de tudo a dignidade!

Releu o indecifrável manual de instruções. Arrumou as ferramentas num canto. Levou para o lixo a caixa de papelão e outros pedaços da embalagem. Ocupou o chão do quarto e do corredor e da sala com as partes do berço. Arrumou-as em ordem de montagem.
Às duas horas iniciais acrescentou outras seis, mas terminou o trabalho. Amanhecia, quando arrumou no berço o colchãozinho, o travesseirinho na cabeceira e o cobertorzinho nos pés.

Levou para a garagem e guardou as ferramentas, quem sabe nunca mais as usasse. No quarto do bebê recolheu o manual de instruções e o lixo. Jogou-os na lixeira. De volta, lustrou o berço com uma flanela. Apagou a luz do quarto do bebê. Do corredor escuro olhou-o ainda pouco iluminado pela claridade da manhã a passar pela janela fechada. Sorriu.

Foi à cozinha, abriu a melhor cerveja da geladeira e sentiu orgulho de si por não desistir e persistir até findar o serviço, sem esperar aplausos e aprovações. Sentir-se orgulhoso de pequenas realizações credenciava e preparava para outros e maiores desafios. Raciocinou que a vida era isso, atenção plena e concentração plena e autoestima. Somar esforços aos sucessos e mudar os insucessos em sucessos.
Tinha de ensinar a lição à filha. À criança que nasceria dali a algumas semanas.

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O vampiro nº 1

– Olá, vampiro.
– Como sabe que sou um vampiro? Acaso tenho rótulo de vampiro?

– Não se aborreça. Se está embaixo da placa ‘Parada permitida apenas a vampiros’, é um vampiro.
– Pois é, cá estou.

– Que faz aí?
– Espero alguém de pescoço bonito.

– Que tal o meu pescoço?
– Não é bonito.

– Você é um vampiro exigente.
– Sou cuidadoso. Pescoços bonitos são de pessoas de sangue bom.

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A bola de cristal

É uma loja como não tem outra em qualquer lugar da cidade. Não tem lojas como essa em shopping center, em ruas de lojas elegantes que vendem produtos caros sem valer os preços ou em ruas de comércio popular. Só em uma rua antiga de um bairro antigo, tal qual esta rua neste bairro onde tudo é antigo velho ultrapassado e tende a cair aos pedaços.

A fachada da loja atraía os transeuntes, entretanto fascinante era de fato o interior. Os objetos vendidos talvez só fossem encontrados em lojas semelhantes ou em velhos baús empoeirados perdidos e esquecidos.

Apesar do endereço distante e pouco acessível, a loja era frequentada por clientes amantes de quinquilharias. Com vendas constantes, vendia e não tinha o estoque esgotado porque as prateleiras eram de novo completadas com objetos estranhos e alguns de utilidade discutível.

Um desses objetos era uma esfera de cristal do tamanho de uma bola de tênis pela qual se interessou a professora de crianças pequenas em busca de ideias e objetos para provocar os alunos em sala de aula. A esfera de cristal viera do fabricante ao revendedor, deste ao lojista que a guardou no estoque da loja e depois arrumou-a na prateleira. Dali foi dada pela professora à menina empacotadora, da qual voltou empacotada à bolsa da professora e desempacotada ao canto da mesa da sala de aula. Era o único objeto da loja a não ser reposto no estoque pelo lojista.

As crianças fizeram fila para pegar e olhar a luz através da bola. A última da fila porque era a menorzinha olhou a bola perto dos olhos e perguntou:
– Professora, você vai ao cinema nesta noite com seu amigo e sua amiga?

A professora surpreendeu-se porque fora convidada pelo amigo para ir ao cinema, mas ainda não o avisara ter decidido aceitar o convite. À noite, esqueceu a esfera os alunos as alunas as aulas e foi ao cinema com o amigo que também convidara uma amiga comum e queria surpreendê-las no encontro.

Na manhã seguinte, dia claro quente sem nuvens no céu, seria tão bom se chovesse em tantas semanas de estiagem, a professora ouviu outra criança olhar a bola e dizer aos colegas:
– Trouxeram guarda-chuva? Choverá na hora da saída.

Na hora da saída, um temporal e chuva torrencial mantiveram as crianças na escola até diminuir a intensidade da chuva. Deu tempo da professora perguntar à criança como ela sabia da chuva. Ouviu a resposta intrigante:
– Vi na bola, professora.

Outras crianças surpreendiam a professora com revelações de eventos futuros mostrados pela bola. Somente as crianças viam. A professora olhava olhava, via imagens borradas pela refração da luz e nada mais. As crianças tratavam a situação como normal, reuniam-se animadas em volta da vidente do dia e riam do espanto da professora. O dono da loja contou ter comprado a esfera de um vendedor itinerante de sotaque estrangeiro. Jamais retornara com produtos para vender, por isso ele não repusera no estoque a esfera e não tinha outra para comparar.

No início, as crianças viam na bola eventos do mesmo dia. Então, mudaram para ver os eventos depois de dias. Em seguida, depois de semanas. No fim do ano escolar, as previsões estavam a três semanas à frente do dia da visão. No início do ano seguinte, uma criança da nova turma de alunos da professora viu na esfera um episódio para suceder um mês mais à frente.

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Chapéu

Um dia descobriu que o chapéu não cabia mais na cabeça. Jamais descobriu se o chapéu encolhera ou a cabeça crescera. Trocou o chapéu velho por outro que serviu perfeito.
Tempos depois descobriu que o chapéu novo estava maior que a sua cabeça. Jamais descobriu se a cabeça encolhera ou o chapéu crescera.

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Desprezo

Falava com ela que o ignorava. Como se não o ouvisse, não reagia, não retrucava e não respondia. Ele estava certo de não estar invisível porque era percebido por outras pessoas e via a própria imagem no espelho. Seria invisível apenas para ela? Talvez fosse um caso de invisibilidade seletiva. Ela o tornava invisível para si própria. Ele não sabia se era possível, mas percebeu que sim, era possível fazer sumir outra pessoa. Se tinha ela adquirido a extraordinária capacidade em consequência do desprezo dela por ele, o enigma estava solucionado embora não o problema. Desprezo não se recupera, atinge sem outro cuidado a não ser o empenho de desprezar. Carecendo de uma atitude, ele decidiu tornar-se invisível só para ela, desaparecer para ela. Nem estranhou, quando olhou-se no espelho e não se viu.

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O vampiro nº 2

– Ai, você mordeu meu pescoço!
– Claro, morder pescoços é o que fazem os vampiros como eu.

– Acontece que também sou um vampiro.
– Ah, então é por isso que você tem vários tipos sanguíneos.

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Futuro

Hoje não tive coragem, todavia amanhã sem falta atravessarei a estrada que me separa da praia e do mar, nadarei até a ilha e de ilha em ilha chegarei ao outro continente que atravessarei a pé para chegar ao mar do outro lado para nadar até a ilha mais próxima. Algum dia, estarei novamente neste ponto.

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Estratégia

– Como conseguiu atravessar esse rio largo e agitado?
– Foi simples. Afoguei-me na margem de lá e salvei-me na margem de cá.

– Quer dizer que veio a nado.
– Quero dizer que não sei nadar.

– Como pretende voltar à outra margem?
– Em um barco. Cansei de me afogar e me salvar.

– Por que não atravessou pela ponte?
– No outro lado não vi nenhuma ponte.

– A ponte só existe deste lado para atravessar daqui para lá.

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O tempo

Tudo é muito demorado! Tudo demora demais para acontecer. Uma hora demora 60 minutos, um dia 24 horas, um mês 30 dias, um ano 12 meses e 80 anos uma vida como a minha. Se os tempos fossem reduzidos à metade, ainda seria tão demorado? Os sucedidos passariam com maior velocidade? A vida seria mais rápida?

Começou pelo relógio de pulso analógico de corda com ponteiros. Extraiu o ponteiro de segundos e o tempo evoluiu em minutos. Apagou as marcas dos minutos e o tempo evoluiu em saltos de cinco minutos. Apagou as marcas das horas ímpares para os minutos saltarem de 10 em 10. Extraiu o ponteiro dos minutos para o tempo passar em saltos de duas em duas horas. Apagou as marcas das horas 2 4 8 e 10 para o tempo passar de seis em seis horas. Por fim, apagou a marca de 6 horas para fazer o tempo pular de 12 em 12 horas.

O calendário impresso em papel, um mês em cada folha, os dias do mês embaixo da folha, em cima a foto de um bebê com um cachorrinho, uma foto diferente em cada mês. Brinde de uma loja de brinquedos e roupinhas para bebê onde comprara presentes para a nova netinha que em semanas nasceria para juntar-se aos outros nove. Em quase todos os meses do ano tinha uma festinha de aniversário de uma neta ou um neto. Mais um para uma equipe de futebol com meninas e meninos de diferentes idades.

No calendário cortou com a tesoura menor os números pares dos dias de cada mês para fazer saltar os dias de dois em dois. Cobriu com Liquid Paper as marcas de dias da semana para ter domingo todos os dias. Recortou os números de todos os dias para o ano pular de mês em mês. Excluiu os meses pares para o ano pular de dois meses em dois meses. Extraiu do calendário a parte dos meses, mandou emoldurar as fotos dos bebês com os cachorrinhos, escreveu o nome de cada neto atrás de um quadro, três quadros para a netinha ainda não nascida. Dos netos mais velhos, ouviu: Obrigado, vô! Você é engraçado! Para as mães: Mãe, não sou mais criança para ter na parede do quarto um quadro de bebê e cachorrinho.

Nasceu a netinha, parecida com o vovô (brincadeira!). Na volta do hospital, na rua no metrô no ônibus e na rua, raciocinava: Não tem demora porque o tempo de interesse é o do presente. Ontem, ela não era nascida, hoje, abre os olhos e sorri ao ouvir a voz da mãe. O acontecido ontem, já aconteceu, não se pode saber o que sucederá amanhã.

Parou defronte à vitrine de uma loja e disse para sua imagem refletida no vidro: É simples, não é? No livro Meditações do imperador romano Marco Aurélio (121-180): “Lembra, ainda, que cada um vive apenas o presente momento infinitamente breve. O mais da vida ou já se viveu ou está na incerteza.”

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Crianças e cachorros

Correm pela rua as cinco crianças e os três cachorros. Para estupefação e espanto dos outros cachorros detrás das grades dos portões.

Se tem um cachorro na rua, os detrás dos portões latem com insistência. Quase todos passam presos às cordinhas nas mãos dos donos. Nos dias de coleta do lixo tem os cães vadios livres. Cheiram os sacos de lixo à procura da própria comida.

Tem um incidente motivador dos cães prisioneiros. É quando passa uma cadela no cio e o conjunto próprio de pretendentes. Enquanto ela escolhe os parceiros a persegui-la silêncio animado, os presos participam com latidos, saltos na grade e corridas frenéticas nos quintais. Em vão, porque as grades e o conforto das casas são mais fortes.

No evento em descrição, quase todos os cães detrás das grades estão em silêncio porque a situação é inusitada. Dos três cachorros com as crianças, dois presos a cordinhas seguras por mãos pequenas. O terceiro, grande, pelo amarelo combinada com outras cores do arco-íris, fugiu da cordinha. Escolheu correr livre na frente do grupo de perseguidores.

Sendo um cão com dono não vadio, não vadio o cão, onde estava a cordinha que o prenderia e igualaria aos detrás das grades? Estava na mão de uma das crianças sem conseguir reconduzi-lo à semiescravidão. Não o pegavam porque saltava ao correr e mudava de direção e sentido. Decidira não se deixar prender à cordinha triste. A menos que sentisse fome e sede.

Como diminuiu o alarido das, já ia dizendo 50, cinco crianças e os três cachorros, é de se supor ter o cachorrão de pelo amarelado sentido saudade do cantinho de prisioneiro bem alimentado. Talvez no inverno lhe comprem uma daquelas roupas estranhas de humanos vestirem os cachorros. Ele sem dúvida gostaria de uma de cor verde para ficar da cor de uma bandeira.

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Maria

No portão, chamam: Maria, Maria. Não atenderei, só de birra, não atenderei. Não atenderei porque não estou em casa e não me chamo Maria.

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Estratégia

– Como conseguiu subir nessa montanha alta e íngreme?
– Com dois degraus.

– Como fez?
– Subi em um degrau e puxei o outro para cima e subi nele e assim por diante.

– Demorou?
– Um pouco, com três degraus subiria mais depressa.

– Que tal uma escada?
– Seria fácil demais, prefiro um pouco de dificuldade.

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Diálogo animal

Um cachorro elegante e cortês encontrou uma cadela interessante na qual interessou-se. Ele pretendia uma relação com ela, se ela aceitasse.
– Olá, você é nova nesta matilha? Não a vi antes – isto falou o cão.
– Sim, cheguei faz pouco tempo. Estava no exterior em viagem de estudos e recreação – isto falou a cadela.

– Foi proveitosa a viagem?
– Indeed. Desculpe o idioma, esqueci ter voltado para casa.

– No problem. Aceita o convite para um interlúdio amoroso com atividades e finalidades de multiplicação da espécie?
– Só aceito convites desse tipo com cachorros de raças nobres. Qual é a sua raça?

– Don’t Know.
– É uma raça inglesa nobre?

– Inglesa e nobilíssima. Tenho ancestrais entre os cães dos construtores de Stonehenge.
– Que é Stonehenge, Don’t Know?

– É um conjunto de pedras que ajudamos a construir para as festas de fim de semana dos membros da tribo e do qual muito se falou e escreveu.
– Você exige raça das cadelas com as quais procria?

– Yes – se somos ingleses, podemos falar Inglês. Qual é a sua raça?
– Don’t Know Either.

– Inglesa e nobre também, Don’t Know Either? Somos conterrâneos e temos direito aos mesmos privilégios! Auspicioso, concorda?
– Concordo e aceito o seu convite para um interlúdio amoroso com atividades e finalidades de aumentar a espécie.

– Vamos para o matinho onde teremos privacidade. Posso cheirar suas partes íntimas para iniciar a relação?
– Estou à disposição e no cio. Aproveitemos a vida!

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A samambaia

Uma pessoa alegre ri e brinca mesmo sem razão. Brinca com os problemas, ri das dificuldades, inventa piadas para si, se não tem audiência. Não sempre, embora em alguns casos, uma pessoa alegre alegra e atrai afeição e afeto. Precisa contatar alguém ou algo capaz de sentir e contar afeição porque amor afeição carinho e afeto devem ser falados, não só sentidos. Esta história tem três personagens. Uma pessoa capaz de desamar de desamor desafeição desprezo e indiferença participante da história antes dela começar. O segundo, a pessoa alegre do qual falamos. A terceira personagem, um ser vivo capaz de sentir e mostrar afeto.

No quintal da casa, plantas de tipos diferentes habitavam canteiros no solo, vasos no chão e pendurados em ganchos nas paredes, nas três paredes da área de serviço, inclusive acima do tanque de lavar roupas. No vaso viviam duas plantas, uma plantada e a outra nascida, esta uma samambaia americana de assustador nome científico: Nephrolepis exaltata.

– Ó nobre senhor castelão deste castelo inglês do século X, qual nome tem o fantasma que cá assombra nas noites escuras? – A castelões de castelos ingleses dos séculos X e XI deveis falar em tom cerimonioso.
– Nephrolepis Exaltata.

A samambaia lançava em todas as direções os caules de suporte das folhas. Para cima, os caules pequenos com folhas pequenas. Para baixo, no entanto, os caules cresciam sem folhas como exploradores que economizavam para a missão exploratória a energia que gastariam com as folhas. Os caules exploradores cresciam e se ramificavam para maior capacidade da expedição. Ao nosso personagem alegre usar o tanque para lavar as mãos as unhas o rosto o filtro de café ou as ferramentas, estavam perto do seu rosto os caules descendentes da samambaia com os quais ele brincava falava e mandava beijinhos. Vejam só, mandar beijinhos para os caules de uma samambaia, quais resultados teria?

Pois aconteceu que em uma manhã, ele aproximou-se do tanque e todos os caules descendentes viraram-se em sua direção que não se surpreendeu, falou com os caules e jogou beijinhos para todos. Ao levantar-se com o rosto molhado, sentiu que os caules o tocavam no alto da cabeça. Devolviam-lhe o carinho que ele oferecera.

A relação gentil e afetuosa continua em segredo. Se contasse a alguém, seria chamado de maluco lunático doido demente mentecapto adoidado alienado e aloprado. Tudo isso por falar com plantas?

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O vampiro nº 3

A sequência dos eventos era sempre a mesma. À meia-noite tentava morder um pescoço e tinha de ir ao dentista na manhã seguinte porque lhe doíam os dentes. Era um vampiro com mordida errada. Tentava morder o pescoço, acertava os ossos do ombro da vítima e feria os dentes.

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Concentração

Tem vantagens e desvantagens em concentrar-se na atividades executadas. Concentração resulta em atividades bem executadas, contudo excesso dela pode causar distração. O estudante nesta história de tão concentrado nos raciocínios não ouviu a professora de Inglês traduzir o texto. Depois, ela pediu a cada um dos alunos para ler e traduzir um trecho do texto em voz alta para a turma ouvir. O estudante ainda concentrado/distraído foi avisado pelo colega da carteira de trás da sua vez de ler e traduzir a parte do texto indicado pela professora.

A leitura foi fácil, ele pronunciava bem as palavras do idioma, mas na tradução encontrou a palavra desconhecida Chapel em Royal Chapel. O colega da carteira de trás soprou a tradução, Chapelaria Real.

O estudante agora alerta traduziu Royal Chapel por Chapelaria Real. Em voz alta para toda a turma e a professora de Inglês. Não tiveram como impedir o riso. Riram os alunos e a professora. A Royal Chapel era a Capela Real sem relação com a Chapelaria Real.

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Um sujeito prevenido

– Você mordeu o cachorro!
– Mordi. Antes.

– Antes do quê?
– Antes que ele me mordesse.

– Como sabia que ele te morderia?
– Porque parou de latir.

– Não sabia que cachorro que late não morde?
– Não morde enquanto late.

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O leão nº 2

Ontem, foi o dia do congresso dos animais. Os palestrantes se sucederam até chegar a vez do leão que engasgou e limpou a garganta, provocando assustada e intensa correria e debandada desorganizada. Sobraram as leoas sem entender o que sucedera, porém encantadas com o rugido do macho alfa bonito.

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As bicicletas

Era uma vez o mundo das bicicletas. Tinha os veículos de transporte iguais aos dos outros mundos, todavia o povo preferia locomover-se em bicicletas. Cada pessoa recebia ao nascer a sua bicicleta para toda a vida que tinha características impressionantes e intrigantes. Alguns dias após nascer, chegava dos correios um pequeno embrulho com a minúscula bicicleta do bebê com guizos para pendurar no berço.

Enquanto crescia o bebê a bicicleta também crescia e mudava. Mudava automaticamente. De brinquedo com os guizos para um pequeno triciclo, daí para um triciclo maior, para uma bicicleta de criança com as duas rodinhas ao lado da roda traseira para evitar quedas. Até a pessoa chegar à idade adulta quando tinha uma bicicleta para adultos que não precisa de manutenção, está sempre limpa, brilhante e com os cubos das rodas engraxados.

As bicicletas cresciam com seus donos e se adaptavam às necessidades da idade. Se as das crianças tinham rodinhas para evitar as quedas, as dos velhinhos tinham quatro rodas menores, cadeira estofada para viajar sentado com conforto e motor silencioso para evitar o esforço.
Tinha bicicletas com assentos para dois, três, quatro ciclistas. Tinha um modelo com 11 assentos para times de futebol e a mais bonita de ver: dois assentos lado a lado em uma bicicleta com quatro rodas e só um guidão para os apaixonados viajarem de mãos dadas.

Com a vontade dos donos, as bicicletas mudavam de cor para azuis, vermelhas, amarelas, multicoloridas. Nos desfiles cívicos, ficavam com as cores do país. No carnaval tinha grande variedade de cores. Nos enterros mudavam para as cores escuras.

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Fim de caso

Terminou a união de 45 anos. Ele mudou-se para uma casa alugada num bairro distante da casa dela na mesma cidade. Ela sabia porque o conhecia, ele foi tão generoso quanto podia, deixou-lhe a casa com tudo que continha. Levou livros e as poucas roupas que nunca tivera muitas, levou a bancada de trabalho formões macete facas canivetes pedras de amolar pedaços de madeira e as esculturas inacabadas.

Divorciaram-se. No dia de assinar os papéis do divórcio, encontraram-se, cumprimentaram-se, assinaram e se separaram sem se despedir. Diabo de vida! Amavam-se tanto e o casal terminado. Ela voltou à casa que tinha sido de ambos, era em definitivo sua e voltou à vida comum de mulher divorciada com muitos afazeres passeios cursos viagens festas visitas e danças sem o marido. Não tinha notícias dele, não o procurava nem ele a ela, os filhos que ele visitava e o visitavam nada contavam. Nem os netos falavam dele. Filhas filhos netos noras e genros amavam e respeitavam ambos.

Ele era cuidadoso e organizado. Na cozinha construiu um quadro verde para anotações com giz onde um retângulo escrito fixo num canto tinha o nome dela endereço e telefone. A caderneta de endereços estava na gaveta da mesa de escrever, mas foi no quadro verde que a primeira pessoa a entrar na casa depois da faxineira se baseou para telefonar para ela, avisando-a para vir depressa.

Tinha carros e pessoas filhas filhos netos noras e genros na calçada em frente ao endereço onde jamais estivera. Parou o carro, desligou a chave e chorou. Chorou quieta calma e sem desespero. Os netos se aproximaram, a mais novinha no colo da irmã estendeu a mão e segurou a mão da vovó que chorava. Finda a cerimônia de cremação, voltou à casa dele, pediu a todos que se fossem e ficou só. Examinou a casa pequena, quase vazia de móveis, ele sempre dizia que queria morar numa casa sem móveis, as mesmas e poucas roupas velhas e feias, no mesmo cômodo a cama e a estante com os livros, a mesa de escrever com as canetas tinteiro Sheaffer Parker 21 e Lamy, os blocos de papel escritos e por escrever, a bancada de trabalho ferramentas madeira esculturas prontas e inacabadas. Trocou os lençóis fronha cobertor da cama dele na qual deitou-se. Dormiu.

Na manhã seguinte, chamou os vizinhos que o queriam bem, embora ela não o soubesse, doou-lhes o que queria doar, chamou o Exército da Salvação para doar o que sobrara, contratou uma transportadora para levar o que queria levar, fechou a casa, levou as chaves ao locador que não aceitou receber o aluguel do mês nem o dinheiro para mandar limpar e pintar a casa para alugar a outro inquilino.

Na sua casa, chamou o Exército da Salvação para levar o que continha a antiga oficina dele transformada por ela em depósito. Pediu ao pessoal da transportadora para instalar na oficina vazia a estante com os livros, a mesa de escrever com as canetas tinteiro Sheaffer Parker 21 e Lamy, os blocos de papel escritos e por escrever, a bancada de trabalho ferramentas madeira esculturas prontas e inacabadas que vieram da casa dele. Na estrutura de madeira arame e aço presa à bancada que ela o tinha visto construir, organizou formões macete facas canivetes e pedras de amolar.

No dia livre dos passeios cursos viagens festas visitas e danças, sentou-se na cadeira da mesa de escrever e chorou quieta calma triste e com absurda saudade. Saudade dele, saudade de quando se conheceram, dos primeiros anos após se casarem, da própria juventude e da vida passada. Preparou um bule de café, abriu as janelas da oficina e ligou o velho aparelho de rádio de válvulas Semp e sintonizou na rádio de música clássica, pegou uma das esculturas inacabadas o formão e o macete e retomou o trabalho dele.

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O leão feroz

– Não fosse você um feroz leão e eu te mostraria quem dá as ordens.
– E eu sendo um feroz leão?

– Vou tratar de correr antes que mude para feroz leão faminto.
– Já estou faminto. Por isso, pedi uma pizza. Não demora a chegar. Convido-o a jantar comigo.

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O fantasma nº 3

Era um fantasma friorento nomeado para assombrar na cidade de Yakutsk na Sibéria onde a temperatura no inverno pode baixar a 64ºC negativos. Ao chegar ao novo posto de trabalho, trocou os chinelos e o lençol branco, os chinelos por botas forradas branquinhas e quentinhas, e o lençol branco por um cobertor branquinho e quentinho.

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Um dia difícil na emissora de televisão

  • A apresentadora do programa de auditório fingindo surpreender a celebridade visitada.
  • A celebridade fingindo-se surpreendida por não esperar a visita surpresa da equipe do programa de auditório.
  • A atriz ciente de ter sido escalada para a novela apenas por ser bonita.
  • A auxiliar da apresentadora do programa de culinária que odeia cozinhar, odeia cozinhas e odeia a apresentadora.
  • A auxiliar da apresentadora do programa de entrevistas que odeia a apresentadora.
  • A moça bonita que dança sorrindo com pouca roupa e sapatos de salto alto no programa de auditório.
  • A repórter ao entrevistar os foliões da escola de samba antes de iniciar o desfile.
  • A repórter que entrevista os foliões da escola de samba depois de terminar o desfile.
  • A repórter entrevistando os foliões no baile de carnaval.
  • A repórter que transmite os desfiles dos trios elétricos no carnaval de rua de Salvador, no Brasil.
  • O apresentador do programa de entrevistas rindo e mostrando entusiasmo mesmo com entrevistados medíocres.
  • O apresentador do programa de humor com dor de dentes.
  • O auxiliar do operador da câmera do programa de auditório para crianças candidatas a modelos.
  • O cinegrafista ao filmar de cima o escalador ofegante chegar ao pico da montanha.
  • O comentarista de cinema fingindo gostar do filme que odeia e será apresentado em seguida.
  • O comentarista político falando dos governantes e preocupado com a pontada no lado esquerdo do peito sentida repetidas vezes.
  • O cozinheiro apresentador do programa de culinária que detesta falar ao cozinhar.
  • O jornalista ao criticar programas medíocres da TV nos quais tem de achar méritos porque o jornal e o canal são do mesmo dono.
  • O músico rindo histérico das piadas sem graça do apresentador do programa de entrevistas.
  • O narrador de jogos de futebol mostrando entusiasmo nos gols do time que odeia.
  • O operador da câmera do programa de auditório para crianças candidatas a modelos.
  • O repórter de campo ao perguntar sempre as mesmas perguntas para os jogadores de futebol.
  • O repórter que estudou para ser jornalista e apresenta notícias de crimes no programa sensacionalista.
  • O repórter solteiro encantado com a nova jornalista solteira designada para outra equipe onde tem outros jornalistas solteiros.
  • O sujeito que faz a voz do boneco de plástico no programa de culinária.
  • O sujeito que faz a voz do boneco de plástico no programa de variedades.

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As formigas

Enfim, cientistas de 10 universidades, pesquisando trocando informações e dados com cientistas de outras 10 universidades, gravaram e traduziram as conversas das formigas ao encontrar suas semelhantes e parar para uma prosinha rapidinha.
Achava-se que as formigas informavam umas às outras das fontes de alimentos e dos endereços de formigueiros. Eram as crenças até publicarem os resultados das pesquisas. Sabe-se agora ser diferente da crença anterior.

As formigas contam as fofocas de situações vistas ou ouvidas por onde estiveram. Como estão em toda parte, andam por tudo quanto é canto das casas florestas gramados quintais e ambientes em geral, veem e ouvem os fatos e as fofocas. Ora, depois de ver e ouvir situações picantes meigas alegres tristes diferentes e estranhas, tem sentido guardar para si o visto e ouvido? Nada disso, cara pálida. Tenho de contar as novidades às colegas e vizinhas do formigueiro. Conclusão da pesquisa: as formigas são fofoqueiras.

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O fantasma nº 4

Era um fantasma claustrofóbico. Dormia de janela aberta. Só assombrava nas ruas parques e lugares abertos. Viajava em cima do automóvel do ônibus e do trem. No avião, sentava-se na fuselagem acima da cabine dos pilotos onde aproveitava o ar puro a vista incrível o ambiente aberto e assombrava os urubus que ficavam brancos de susto. Afinal de contas, não é toda hora que se vê um maluco sentado sobre o avião, quando deveria estar dentro dele.

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A artista

Era artista plástica. Pintora, escultora e ceramista. Nos trabalhos de cerâmica, em segredo praticava uma arte de segredos não aprendidos na faculdade de belas artes. Além de artista, era bruxa. Seus trabalhos tinham feitiços de bruxaria. Sabia segredos dos saberes e da prática da bruxaria. No entanto, a bruxaria nos trabalhos de cerâmica dela só seria percebida em condições especiais, se fosse percebida.
Quem olhava e admirava as cerâmicas produzidas no seu ateliê não via a magia o mistério e o segredo. Um vaso era um vaso, não diferente de um vaso, embora bonito e agradável de olhar.

A magia apareceria, se um dos vasos da produção dela se quebrava em acidente. A magia não era percebida, se os cacos de cerâmica fossem jogados no lixo. Entretanto, se o dono do vaso quebrado tentasse reconstrui-lo, o restaurador obteria dos cacos mais cerâmica que no vaso original. Como era possível que no vaso quebrado tinha mais cerâmica do que no vaso novo? O vaso quebrado não podia ser mudado em vaso restaurado a não ser pelo descarte dos pedaços excedentes de cerâmica.
Os restauradores afirmavam que os possuidores dos vasos misturavam os cacos de vários vasos quebrados e outros que a ceramista deixava cacos dentro dos vasos produzidos. As hipóteses variariam, se os cacos dos vasos quebrados fossem levados para restauração.

Ela era artista plástica, ceramista, bruxa secreta, brincalhona e alegre. A magia nos vasos era brincadeira com os restauradores e candidatos a consertadores de vasos. Estes custavam pouco dinheiro. Ela dava um vaso novo à pessoa que tivesse cacos de um vaso quebrado por acaso, tentasse restaurá-lo sem sucesso e perplexa a procurasse no ateliê.

Só tinha uma preocupação a artista plástica ceramista e bruxa. Antes de morrer, já passara dos 80 anos de idade, devia desfazer à distância a magia dos milhares de vasos vendidos. Senão, seu trabalho estaria por fim perdido algum dia. Quando todos os seus vasos de cerâmica fossem quebrados por acidente.

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Referencial

– Suba!
– Não posso.

– Por que?
– Porque é você que está aí no fundo do poço artesiano. É você que terá de subir, se quiser.

– Então, jogue-me essa corda.
– Também não posso.

– Por que, desta vez?
– Porque sou um balde. A corda que vê daí presa em mim não me pertence. O posseiro é o dono dela.

– Puxa vida. Como farei para subir?
– De pouco em pouco, dentro de mim.

– Por que de pouco em pouco?
– Porque você é a água do poço!

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O peixinho

Saia da areia, menino! Venha já para a água respirar. Que modos! Você é o único peixe conhecido que gosta de brincar de prender a respiração na praia.

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Saudade

– Oi.
– Oi.

– Que bom te encontrar.
– Senti saudade.

– Também senti saudade.
– Eu te amo.

– Também te amo.
– Volta pra casa comigo?

– Sim.
– Posso segurar sua mão?

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Distância

Ela ficou, trabalhava na cidade. Ele trabalhava onde estivesse contratado. Foi para outra cidade. A separação não seria demorada porque toda sexta-feira ele voltaria para casa e para ela. Os tempos distantes e as distâncias do trabalho dele não eram novos para eles. Tinha acontecido antes. Desta vez ele iria e voltaria várias vezes. Estava contratado para vários meses de trabalho.

Nos primeiros dias da primeira semana de trabalho, ele a desejou e escreveu-lhe um email malicioso e erótico. Ele a desejava sempre e contava-lhe do seu desejo. Ela era mais reticente e evasiva, recusava e aceitava, recusava e aceitava, era cansativo. A resposta dela foi curta e parecia aceitar o erotismo na mensagem dele.

Quando ele voltou na sexta-feira, ela estava diferente, excitada, aceitou as carícias e urgências dele. Entregou-se como no início da vida de casal. Antes de sair para a viagem na segunda-feira ele distribuiu pela casa bilhetinhos eróticos que ela encontraria.

Sem um plano predefinido, ele subiu o erotismo das mensagens. Explicitou como a queria possuir e como a desejava e como a queria e o que faria com ela. Era direto e franco. Ela respondia com poucas palavras. Era evidente que aceitava e gostava da situação, entretanto não afirmava.

Quando ele chegava nas sextas-feiras, ela se atirava nele, desejando satisfazer o desejo maior das mensagens da semana. As ações dela indicavam mudanças de uma mulher passiva, do ponto de vista sexual, para outra ativa e participante da vida sexual do casal.

Falaram numa noite por telefone, ela estava excitada, desejando ouvir as palavras dele. Foi uma conversa cheia de erotismo, frases picantes, sussurros, suspiros e desejo explícito.

O trabalho dele demorou dos últimos meses de um ano até os primeiros do ano seguinte. Enfim, terminou. Ele voltou para casa para ficar todos os dias das semanas, não nas sextas-feiras, sábados e domingos. Iludido com a perspectiva de mudança dela, nos primeiros dias de março, ele escreveu um daqueles emails eróticos para ela em vão porque não recebeu resposta. Quando ele perguntou porque não respondera, ela disse não querer mais receber as mensagens dele porque estavam lado a lado.

A magia tinha terminado. O erotismo o desejo a entrega e a vida sexual intensa desapareceram. Não era a ele que ela desejava, mas àquele que deixava os bilhetinhos quando se afastava e escrevia de longe. Para ela este era outro, não o que estava em casa em todos os dias das semanas.

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Ultrassom

Eu vejo o mundo pelos olhos de minha mãe, ouço os sons pela barriga dela, sinto não sei como as emoções dela e as minhas porque sou um ser humano vivo. Ainda não nasci e já tenho obrigações e ocupações, uma das quais é ver o entorno de mamãe. Gosto da palavra entorno. “Na noite passada, sonhei com o entorno”. “O governador do entorno decretou feriado”. Também gosto das gírias dos anos 70, mesmo sem saber quais diabos quer dizer gíria e anos 70. Ah, sim, de vez em quando, se minha mãe não ouve, praguejo um tiquinho. Praguejar é divertido.

Este entorno parece ser aquilo chamado por mamãe de consultório médico. As pessoas vestidas de branco devem ser os trabalhadores braçais do consultório. Tem um falante em tom professoral como se de tudo entendesse, deve ser o pajé da tribo.

Começou um ruído inaudível para nós, mamis e eu. Sinto cócegas. Que é? Melhor ficar em silêncio e sem me mexer. Sabe aquela história: “Se me dá vontade de trabalhar, sento-me num cantinho e fico bem quietinho, até a vontade passar”? É o que farei com esse ruído. O pajé que se lasque! Que quer dizer “se lascar”?

Pronto. Terminou. O pajé terminou a pajelança. Preciso de um dicionário. Espere, como se sente minha mamãe? Ela está triste? Não quero minha mamãe triste! Diabo de pajé! Se pudesse, chutava-lhe os fundilhos. Preciso mesmo de um dicionário. Na próxima vez no terreiro deste pajé, farei uma confusão dos diabos! Pularei saltarei baterei palmas e gritarei para alegrar minha mamãe.

Agora, com licença porque aí vem outra remessa de alimentos e insumos via cordão umbilical. Preciso estocar uma parte e distribuir o restante pelos órgãos em formação do meu corpinho. As remessas de mamãe são fantásticas! É moça bonita e querida! Depois de nascer gritarei “mamãããããe” e ela virá sorrindo depressa. Não, não, gente, fala sério! Sem brincadeiras! De certo! De fato! Tem vida melhor?

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Pedindo uma bebida

– Aceita água? – isto perguntou o garçom.
– Água me faz mal – isto respondeu o cliente.

– Aceita leite?
– Jamais.

– Suco de laranja? Vinho? Café?
– Nada disso!

– Que quer beber, então?
– Sangue. Num copo long drink. Traga para a mesa e deixe a garrafa.

– Cada cliente estranho tenho de atender neste restaurante vizinho do castelo do Drácula! – falou para si mesmo o garçom.

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Empenho

Fazia tudo bem feito. Dedicava-se, concentrava-se, empenhava-se para conseguir o melhor resultado do trabalho. Não era um modelo de sucesso. Parecia puxado para o fracasso por uma força tão ou mais forte do que ele. Apesar da dedicação e da concentração e do empenho. Um cabo de guerra. Ele puxava para um lado e a força para o outro. A força não vencia sempre, ele também não. Ele se cansava do esforço, a força não.

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Fuga

Entrou no navio devagar. Subiu os degraus da escada de embarque, subiu ao convés superior e debruçou-se na balaustrada para esperar a partida. Não importava o destino da viagem. Queria viajar e sair dali, só isso. Ainda bem que encontrara o navio.

Todavia desistiu da viagem após esperar tempo indefinido. Este navio não tem tripulantes e passageiros, não sairá deste lugar, não levantará âncora, não abrirá ao vento as velas, não navegará em mares calmos e mares bravios, não será seguido por golfinhos e baleias e tubarões, não será sobrevoado por gaivotas e jamais enfrentará calmarias e tempestades.

Saiu do navio e desceu devagar a escada de embarque. Saiu do museu cujas portas estariam fechadas perto de alguns minutos e foi para casa. Sentiu pena do navio pirata reconstruído para jamais partir em aventuras em mares do sul do norte do leste e do oeste.

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A manchinha na colcha

Esta é uma cama para uma pessoa. Numa cama para uma pessoa são retângulos o lençol o cobertor a fronha do travesseiro e a colcha de cobrir a cama de manhã. Numa cama de solteiro-casado, dorme quem foi expulso da cama do casal por uma união triste desunida que acabou e não se dissolveu. Tinha uma manchinha perto de um dos ângulos do retângulo da colcha de cobrir a cama de solteiro-casado.

Todas as manhãs, via a manchinha vermelha de forma indefinida sempre no mesmo lado da cama de solteiro-casado. Coincidência. A manchinha podia ficar em duas posições. Nos pés ou na cabeceira da cama. Era coincidência que a notasse sempre nos pés. É possível que nos dias que ela ficava na cabeceira, não a via e não percebia.

A coincidência produziu curiosidade. Dormia com o corpo virado para os pés da cama, mais próximo da janela para sentir o cheiro do ar da madrugada que passava pela veneziana. Com o ar entravam os sons da noite sem o interessarem. O ar vestido de vento cheiroso era bem vindo. Os sons atrapalhavam o sono. Durante o dia, a manchinha na colcha de cobrir a cama ficava perto de onde estaria a cabeça à noite, quando a colcha ficava quieta dobrada. Esperava o dia.

A colcha fora lavada não sabia quantas vezes desde que a manchinha aparecera não sabia quando. Entretanto, continuava nítida vermelha pequena de forma indefinida e com um leve odor de morango. Como fora parar na colcha usada só nesta cama a manchinha vermelha como batom com perfume de morango?

Através da lente da lupa, revelou-se a manchinha em forma de um beijo de uma boca pintada com batom vermelho. De quem seria aquele beijo? Qual dama airosa e formosa deixara a lembrança na colcha da cama de solteiro-casado onde fazia tempo que ninguém dormia além de quem gostava dos cheiros do ar da noite?

Impossível descobrir. Não importava descobrir. A dama airosa e formosa fora afetuosa carinhosa e gentil ao beijar a colcha para deixar sua marca.

Até o fim dos tempos, cada qual tem o seu fim dos tempos, arrumava a cama de manhã com a manchinha sempre no mesmo lugar. Do lado dos pés da cama onde a cabeça estaria à noite. Então, dobrava a colcha para manter a manchinha em cima e a punha dobrada bem perto da sua cabeça. Dormiam juntos, cheiravam o ar da madrugada juntos. Jamais soube quem era ela e não precisou. Tinha a marca do seu beijo com batom vermelho perfumado de morango.

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O leão nº 3

Quanta fome! Sinto tanta fome que comeria um antílope crocodilo elefante pequeno gnu ou zebra! Pensou e pôs-se a rir. Ria tanto que teve de se deitar com as costas no chão e as quatro patas para o alto. Os outros leões do bando comentavam: Do que se ri esse leão?

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O agente secreto nº 1

– Você é um agente secreto!
– O chapéu preto me denunciou? Gosto de usar chapéu preto.

– Não.
– Foi a capa preta? Gosto de usar capa preta.

– Também não.
– Os óculos escuros embora seja noite? Gosto de óculos escuros.

– Não.
– Então como descobriu minha identidade secreta?

– Você está embaixo da placa: “Ponto de parada exclusivo de agentes secretos”.

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Aviso pelo correio

Recebeu a carta pelo correio, abriu o envelope e leu. Não questionou a origem e a autenticidade. Tinha uma semana de prazo e não perdeu tempo. Sentou-se à mesa com a caneca de café, a caneta e a carta. No verso da carta escreveu as etapas do plano.

Transferiu para os herdeiros os seus bens e o dinheiro da conta corrente bancária. Encerrou a conta corrente. A parte na sociedade da empresa transferiu para o funcionário mais antigo. Doou aos filhos os livros os discos as máquinas e as ferramentas. Ao filho mais velho doou a furadeira e parafusadeira comprada algumas semanas antes.

Mandou lavar o terno preto, a camisa branca de colarinho que não apertava o pescoço, a gravata preta e as meias vermelhas. Mandou limpar os sapatos brancos. Queria ver as caras de assombro espanto e estupor quando o vissem de meias vermelhas e sapatos brancos.

No dia marcado pela carta, vestiu a camisa branca, a gravata preta, o terno preto, as meias vermelhas, os sapatos brancos e deitou-se na cama à espera da morte. Dizia a carta que ele morreria dali a uma semana. Aprontara-se e estava pronto.

Foi-se o dia. Anoiteceu, foi-se a noite. Não morreu. Adormeceu em posição de futuro morto, dormiu em ondas cerebrais beta alfa teta e delta, sonhou sonhos alegres e divertidos, acordou de boa disposição saúde e bom sorriso. Releu a carta, decidiu por uma brincadeira inútil e má. Jogou-a no lixo. Trocou os sapatos brancos e as meias vermelhas por meias pretas e sapatos pretos, pegou a pasta de couro de ir para o trabalho e saiu de casa para procurar emprego. A pé porque não tinha carro nem dinheiro para o ônibus.

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Economia

Era escritora. Era econômica. Tinha pressa. Era insatisfeita. Queria escrever pouco para economizar tinta da caneta, depressa para economizar tempo.

Começou por escrever as palavras e frases sem acento agudo grave e circunflexo, sem trema til e cedilha, sem ponto de exclamação de interrogação ponto final e vírgula. Insatisfeita, evoluiu. Passou a abreviar as palavras. Escrevia vc em lugar de você, p em lugar de para, tto em lugar de tanto, tbem em lugar de também.

Aperfeiçoou o sistema de abreviações. Passou a escrever apenas a primeira letra das palavras de cada frase. “O l c” em lugar de “O leão caça”. Melhor ainda, se escrevesse “Olc”, economizaria papel e o tempo de saltar os espaços. Ah, a perfeição. Trocou a escrita de cada palavra por um hífen. Em vez de “O leão na floresta”, escrevia “- – – -”. Quanta maravilha! Reduzir a escrita de uma história a um conjunto de hifens! Quanta economia de tinta e velocidade de escrita!

Depois de algum tempo com os hifens, incomodou-se. Ainda gastava tempo e tinta para escrevê-los. A solução era simples. Como não tinha pensado antes na solução? Bastava trocar os hifens por pontos. Cada ponto para uma palavra. Engana-se quem pensa que parou de aperfeiçoar o sistema de economia. Trocou cada frase por um ponto, cada história por um ponto, cada livro por um ponto.

Em uma tarde de andar para pensar, passou em frente a um circo pequeno, abandonado pelos trapezistas malabaristas palhaços músicos atiradores de facas e mágicos. Tinha pregada na lona uma placa “Vende-se este circo” escrita em folha de papel almaço pautada com uma caneta esferográfica de tinta de cor vermelha.

Comprou o circo, mandou trocar a lona e as cordas, mandou consertar os mastros e melhorar o conforto das arquibancadas, mandou fazer uma placa para a entrada e comprou um caminhão para transportar o circo desmontado. Encheu uma mala grande com suas roupas mais simples, encheu outra mala com os livros mais queridos. Abraçou-me na despedida. Tínhamos ambos lágrimas nos olhos. Entrou no caminhão e partiu.

Recebi uma carta dela por correio, algum tempo depois. Escreveu que dirigia pelas estradas de terra em busca das cidades menores e mais pobres. Ao chegar, pedia ajuda sempre conseguida para montar o circo e convidava toda a cidade para assistir de graça os espetáculos. Escreveu sentir saudade e ter reservados para mim um lugar na boleia do caminhão, uma cadeira no picadeiro do circo e metade da cama de armar para amar dormir e sonhar.

Enchi uma mala com roupas e outra com livros. Doei o resto dos pertences para o bazar anual do hospital para crianças. Vendi a casa. Embarquei em um ônibus do qual passei para outro e outro.

Encontrei o circo. Era noite, hora do espetáculo. Aos espectadores nas arquibancadas lotadas, ela contava uma história sentada em uma das duas cadeiras no meio do picadeiro. Ao me ver sorriu e apontou a outra cadeira onde me sentei e continuei a história por ela iniciada. De vez em quando um dos espectadores ficava em pé e continuava a história.

Até o fim do espetáculo, ficamos de mãos dadas. Sentados em duas cadeiras simples no picadeiro do circo montado na cidade pequena e pobre. Contando e ouvindo contar histórias.

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Beberrões

Bebem muito. Bebem de manhã, à tarde, à noite, na madrugada. Berram para avisar que querem beber. São grandes bebedores de uma confraria que aceita novos adeptos todos os dias. Em cada dia de todo o planeta Terra, entre 350 e 360 mil novos bebedores aderem à confraria. Grande margem de segurança, 10 mil. Como teriam contado? Quantos novos membros entram para a confraria vindos das tribos desconhecidas da Floresta Amazônica? Seja como for. Aceitemos por ora o número de 350 a 360 mil. Não importa porque os confrades querem leite. Bebem leite, leite em pó, leite de vaca, leite das mães que amamentam seus bebês recém-nascidos. Bebês são grandes bebedores de leite.

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Música de carnaval

– Ó abre alas que eu quero passar.

– Vejam só, um motorista de caminhão canta ‘Ó abre-alas’ de Chiquinha Gonzaga.

– É que este caminhão de 63 toneladas está sem freios!

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A angústia da procura

Procurou-a no cinema. Não a encontrou. Tinha de encontrá-la e dizer-lhe que a amava. Saiu do cinema e parou na esquina para pensar onde mais a procuraria. Para onde poderia ter ido ao sair em prantos da casa onde moravam? Decidiu-se pelo circo. Ela gostava de circos.

Ela não estava no circo. Ele olhou um pouco o bonito espetáculo, todavia tão angustiado pela procura não esperou o número do trapézio. Onde ela teria ido? Onde mais procurá-la? Saiu do circo iluminado para a noite na rua. Nunca gostara da noite, não sabia a razão, achava a noite triste. Procurá-la à noite era ainda mais triste. Como ela reagiria, ao se encontrarem? Se a encontrasse.

Já sei, o teatro! Ela gosta de teatro, a peça em cartaz é alegre. Mesmo sem vontade o riso diminui a tristeza. É certo que o riso diminui a tristeza? Tentou rir e não conseguiu, de tão angustiado. Não sabia mais onde procurá-la, não sabia para onde teria ela ido, tinha andado de um lado para o outro, sentia angústia tristeza e cansaço.

Voltou para casa. Continuavam acesas as luzes como as deixara para guiá-la ao voltar. A casa estaria vazia e triste sem ela. Entrou, deixou acesas as luzes do exterior da casa, não trancou a porta com o trinco de segurança, entrou no quarto e a viu.

Ela estava deitada na cama, vestida e não dormia. Na penumbra, via os lindos olhos dela a fitá-lo. Sem tirar os sapatos, deitou-se na cama ao lado dela e a abraçou. Nenhum dos dois falou. Ele esqueceu de contar-lhe que a amava. Ela entendeu, embora gostasse mais se ele se lembrasse e lhe falasse muitas vezes.

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Viagem

Tinha dinheiro para pagar as passagens de metrô ônibus e trem urbano, ônibus e trem interurbano, ônibus e trem interestadual, porém preferiu fazer a viagem a pé. Na metade do caminho descobriu. Assim não chegarei hoje. Teria sido melhor ir com o avião.

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A rainha nº 2

– Você se foi e não se despediu. Por quais razões? O que sucedeu?
– Fui-me porque você estava cercada de admiradores.

– Tratam-me como uma rainha. Faça como eles. Por que não faz igual?
– Porque te quero como companheira e amante.

– Uma rainha não pode ser companheira e amante?
– Rainhas podem ser companheiras e amantes dos seus súditos porque serem rainhas é seu único direito.

– Para ser sua companheira e amante não posso ser rainha?
– Sim.

– Então, abdico do trono.

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Um tatu

Um tatu vivia perto do Estreito de Dover, em Folkestone, Kent, no Reino Unido. Olhava o Oceano Atlântico e sonhava conhecer Paris, a cidade capital do país França. Examinando o mapa, percebeu que teria de cruzar o braço de mar Canal da Mancha para ir de Folkestone, Kent, até Coquelles, em Pas-de-Calais, Calais, França. Era um tatu com formação de engenheiro de túneis. Portanto, projetou e pôs-se a construir um túnel sob o mar.

Ao chegar a Coquelles considerou terminado o trabalho. Atravessara o Canal sem se molhar por baixo do mar. Saiu do túnel e dirigiu-se à estação ferroviária a tempo de embarcar no trem expresso das 14 horas. Última parada na estação de trem Gare du Nord em Paris. Desceu à estação de metrô. Ainda tinha tempo para a primeira visita do Louvre.

No dia seguinte, enquanto o tatu comia o café da manhã em Paris, chegaram às duas pontas do túnel na França e no Reino Unido, homens bandeiras bandas de música autoridades convidados de honra e curiosos em geral. Declararam em tom oficial inaugurado o Eurotúnel.

Semanas depois, o tatu voltou de Paris a Londres na primeira classe de um voo da British Airways. Teve uma viagem mais confortável e menos cansativa que construir um túnel.

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Escolas

– Para onde vão essas borboletas?
– Para a escola.

– O que aprendem as borboletas na escola?
– A borboletear.

– Quais aves são essas desse bando?
– Ariramba-pequeno.

– Para onde vão?
– Para a escola.

– Aprendem na escola a arirambar ou a arirambear?
– Nem um nem outro. Aprendem a pescar.

– Por que?
– Ariramba-pequeno é outro nome do martim-pescador-pequeno.

– E esses colibris?
– Vão beijar flores no parque infantil. Colibris são beijoqueiros.

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O leão nº 4

Era um competente exímio e talentoso tocador de harpa. Dava concertos emocionantes para a audiência entusiasmada e fascinada. Contudo não tocava se caçava. Era um leão. No paraíso dos leões, alguns leões tocam harpa. Têm duas profissões. Tocam, se não caçam. Caçam, se não tocam. Cada atividade tem a sua oportunidade.

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Propagandas coladas nos postes

  • Pela bruxa: Trago de volta a pessoa amada mesmo ela não querendo.
  • Pela bruxa: Trago de volta a pessoa amada só não garanto que ela ficará.
  • Pela leoa: Transformo o seu marido em um leão como fiz com o meu.
  • Pela leoa: Transformo o seu marido em um leão que faça mais que rugir.
  • Pela preguiça: Entrego recados em toda a Floresta Amazônica. A entrega pode demorar.
  • Pela vidente: Adivinho o seu futuro, porém não os resultados dos próximos sorteios da loteria.
  • Pela vidente: Adivinho o seu passado porque o seu futuro ninguém pode adivinhar.
  • Pela zebra: Pinto de branco suas faixas brancas e de preto suas faixas pretas.
  • Pelo agente secreto: Ouço os seus segredos em segredo.
  • Pelo fantasma: Assusto amigos e inimigos. Esquema 24×7, 24 horas por dia e 7 dias por semana. Preços módicos.
  • Pelo fantasma: Curo soluços. Preços módicos.
  • Pelo fantasma: Deixo os seus cabelos em pé. Preços módicos. Devolvo o seu dinheiro se, além de em pé, seus cabelos ficarem brancos.
  • Pelo leão: Emagreça em poucos minutos. Pergunte-me como.
  • Pelo macaco-de-cheiro: Vendo imagens da Floresta Amazônica fotografada do alto da copa da Sumaúma a 90 metros de distância do solo.
  • Pelo monge copista: Copio suas cartas e não conto a ninguém os seus segredos.
  • Pelo palhaço do circo: Conto piadas. Se você não rir delas, jogo-lhe uma torta na cara.
  • Por Michelangelo Buonarroti: Pinto o teto da sua casa com motivos florais.
  • Por Leonardo da Vinci: Pinto o seu retrato com um sorriso enigmático de provocar conversas e discussões.
  • Por Pablo Picasso: Pinto seu retrato, mas não garanto que você ficará bonito nele.

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O telefone móvel

A casa tinha um telefone mais ou menos móvel. A mobilidade dependia do tamanho do fio do aparelho à tomada na parede.
* Com o fio de um metro era menos móvel.
* Com o fio de cinco metros era mais ou menos móvel.
* Com o fio de 10 metros era mais móvel.
* Sem fio não funcionava.
Podia ser movido de uma mesa para a outra, da sala da tomada para a sala vizinha ambas com as portas abertas. Ou fechadas com jeito de não esmagar o fio. Portanto, tinham um telefone mais ou menos móvel, mais ou menos transportável. Contudo não podia ser movido para fora da casa. O fio não alcançava. Saía da tomada e o telefone parava de funcionar. De modo que os usuários dele não saíam de casa porque não previam se receberiam ligações telefônicas. Ficavam todo o tempo dentro da casa ao lado do telefone. A última chamada fazia seis meses. Todavia era prudente esperar se não sabiam quando seria a próxima chamada.

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Cantor nº 2

Que cantor! Como cantava bonito! Quanta qualidade na voz. Sendo jovem, era talento inato. Não tivera tempo de estudar canto. Era aplaudido onde se apresentasse. Chamavam-no de rouxinol das multidões mas não era um rouxinol verdadeiro porque era um pintassilgo disfarçado de rouxinol. Sua família jamais admitiria que ele se apresentasse como cantor popular. Seria o único da família não dedicado à música clássica. Causaria um drama familiar, se fosse descoberto.

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O par de tênis e as sandálias

Ele tinha um par de tênis de vontade própria. Não era ele apenas a ter vontade própria, também o par de tênis. A vontade própria do par de tênis independia dele. Se ele calçava o par de tênis, andava pela cidade e, sem saber a razão, chegava em frente à casa dela. Igualmente, ela tinha um par de sandálias com vontade própria. Se calçava o par de sandálias, andava pela cidade e, sem saber a razão, chegava em frente à casa dele.

Ela era inteligente e cuidadosa. Logo descobriu quem era o morador da casa em frente a cujo portão estivera. Porém nada fez a respeito. Preferiu esperar.

Ele não quis esperar e decidiu que pelo menos tinha de conhecer os moradores da casa que visitava sem querer. Tocou a campainha do portão e foi atendido pela moça que o convidou a entrar.

Ele voltou a visitá-la mesmo sem estar calçado nos pés com o par de tênis. Ela o visitou mesmo sem ter nos pés o par de sandálias com vontade própria.

Visitas para cá e visitas para lá. Com ou sem os pés dentro do par de tênis e de sandálias. Visitas aumentam a intimidade. Por fim, não mais se visitam. Vivem na mesma casa. Os pares de tênis e de sandálias estão no armário de calçados da casa do casal. Um ao lado do outro.

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Ponto de vista

– Aquilo no alto da árvore é um macaco-de-cheiro, um macaco-aranha, um macaco-barrigudo, um muquiri, um sagui, um mico-leão, um macaco-prego, um sauá ou um cuxiú?
– É um coco. Estamos embaixo de um coqueiro no jardim. Não na floresta.

– Está a mover-se!
– Porque está caindo. Saia daí pra não tomar uma cocada na cabeça!


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