Madrugada

capa de livro de contos de Benedito CarneiroEste lugar é apertado! Mal consigo me mexer. Dá para bater nas paredes laterais e na de cima. O som é de madeira. Estou vestido com meias sapatos cueca calça cinto camisa abotoaduras gravata colete e paletó. Poucas vezes na vida me vesti com tanta roupa, nem nos dias mais frios quando é mais adequado usar um casaco grosso feito de lã.

É muito estranho estar deitado dentro de um caixão de madeira pouco maior do meu corpo onde pouco posso me mexer vestido com terno e gravata. Pois se não tenho terno, de quem seria este? O tecido é macio confortável e me serve bem. Qual é a cor? No escuro não consigo ver. A gravata pode ser uma das minhas. Tenho três nunca usadas. Foram dadas como presente por pessoas que jamais me viram usar gravata. No entanto gosto da gravata azul. Será ela enrolada no colarinho da camisa em cima do meu pescoço? Estou elegante.

O problema principal, entretanto, é descobrir o que faço aqui, como entrei neste caixão e o que aconteceu. Terei morrido sem notar e estou em um caixão de defunto vestido como um defunto inerte como ficam os defuntos? Se morri como estou raciocinando? Se me belisco dói. Posso rir e estou respirando. Concluo não ter morrido. Se não morri, o que aconteceu?

Agora entendi. É um sonho. Um sonho esquisito, mas é um sonho. Bem, acho melhor acordar. Era mesmo um sonho, estou na minha cama, vestido com meu elegante pijama de bolinhas. Amanheceu e está na hora de levantar e sair para trabalhar.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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