A menina, o baile, o apagão e o beijo


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A menina, o baile, o apagão e o beijo

Atravessou o salão em passos firmes, tão firmes quanto consegue. Aproxima-se dela que sabe e sente que será convidada para dançar. Faz pouco tempo que um ao outro de longe se encantaram e se olharam, intrigados com a emoção. Como não a viu assim antes? Ela está diferente, linda! Ela também o notou. Olhou-o curiosa e interessada. Primeiro como menina e depois como mulher.

Poucos casais dançam. Enquanto ele atravessa o salão quase vazio, ela o olha com doçura. Ele desvia dos casais no meio da pista e a olha encantado, ela é adorável de tão linda.

São tão jovens, não entendem o que sentem! Tremem um pouco ao se enlaçar para dançar. Dançam do jeito antigo, abraçados tão juntos quanto podem. Não falam e quase não respiram. Ele sente as costas dela debaixo do vestido, a mão direita dela na sua. Afastam-se para conversar e logo voltam a se abraçar mais forte.

Como será o gosto dos seus lábios? Se a beijasse no meio do salão de bailes com tanta gente em volta, causaria uma confusão. Neste tempo nesta época e nesta cidade, nem os casais casados se beijam em público.

Que bom seria se as luzes se apagassem. Não precisa ser apagão demais demorado. Um minuto é pouco. O beijo teria de durar menos de um minuto para dar tempo de voltar ao normal. Como se fosse possível voltar ao normal depois de beijá-la. Cinco minutos. É um bom apagão. Tempo para mais de um beijo, abraços apertados e olhar um para o outro com encanto. Depois as luzes podem se acender.

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Os dias não são nunca iguais

Chegou em casa, tomou banho, comeu o jantar, leu o jornal, viu o noticiário no televisor, escutou o programa de música clássica nas ondas curtas do rádio a pilhas, escovou os dentes, vestiu o pijama, deitou-se, dormiu e sonhou.
Acordou, levantou-se, tirou o pijama, tomou banho, vestiu a roupa de trabalho, comeu o pão com manteiga, bebeu o café, escovou os dentes, saiu para o trabalho, trabalhou, comeu o almoço, terminou o dia de trabalho, chegou em casa etc.
Não acordou na manhã seguinte porque morreu de madrugada vitimado por um ataque cardíaco.

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Os presentes

Ao amanhecer o dia, os moradores das cidades viram objetos inexistentes ali na noite anterior. Eram poliedros regulares e irregulares, cilindros paralelepípedos pirâmides esferas cones troncos de cone e cubos. Cilindros com 3 m de altura e 1 m de diâmetro da base, os tamanhos dos outros objetos eram semelhantes. Os mais bonitos eram as esferas de aço, parecia aço, objetos imponentes com 3 m de diâmetro. Não eram pesados porque não danificaram os pisos e gramados onde estavam pousados. Produziam sons de oco e sólido, se tocados pelas crianças a caminho da escola. Limpos e luzidios, foram associados a campanhas de propaganda. Em alguma manhã estariam cobertos de cartazes de propaganda, era só esperar. A gente os incorporou à paisagem. Alguns foram pichados, em outros colaram cartazes de propaganda, na manhã seguinte estavam limpos e brilhantes.

Um dia, uma menininha de volta da escola tinha na mão uma folha de papel com a família desenhada. Ao passar pela praça do objeto, cochichou ao irmão mais velho ao seu lado. Ele pegou um rolinho de fita adesiva da mochila, cortou um pequeno pedaço, colou-o na desenho da irmã. Pequenina e sorridente, ela aproximou-se do objeto e prendeu nele o desenho. O lojista de frente da praça pensou com um pouco de pena que na manhã seguinte o desenho teria desaparecido. Estava enganado. Na manhã seguinte, ao abrir a loja estava o desenho da menininha onde fora colado.

Outras crianças tiveram a mesma ideia. Os objetos ao redor do mundo apareciam cobertos de folhas de papel com desenhos desenhados por mãos pequenas. Chovia e os desenhos não se molhavam. As pichações inevitáveis sumiam à noite. Os desenhos ficavam incólumes. Ninguém além da criança que colara o desenho podia trocá-lo por outro. Toda noite, ninguém sabia como, os desenhos eram reorganizados de baixo para cima de acordo com as idades dos pequenos desenhistas. O lojista da praça era capaz de jurar, sem ter certeza, sempre ter espaço no objeto para novos desenhos, como se ele crescesse de tamanho. Os adultos sentiam pena das crianças, quando os cartazes de propaganda cobrissem os desenhos.

No Hemisfério Sul teve a Primavera e o Verão, no Hemisfério Norte o Outono e Inverno. As estações do ano sucederam-se e a vida de todos continuou quase normal porque aconteceu de em cada comunidade dos objetos as pessoas principiarem a interessar-se pelos mesmos assuntos.

Fabricação de objetos para música nesta cidade. Naquela, relógios cuco de madeira. Em outra, produção de livros escolares bonitos coloridos úteis e atraentes. Estudavam o assunto, compravam máquinas, preparavam oficinas, procuravam informações e ajuda com fabricantes de máquinas de outros lugares. O fenômeno repetiu-se em outras comunidades dos objetos. Pessoas de diferentes profissões, condições socioeconômicas e idades com interesses semelhantes, despertados sem ninguém soubesse a causa, falavam do interesse mútuo, trocavam informações e ajudavam-se.

As notícias dos interesses coletivos espalhadas causaram outro fenômeno. Pessoas de interesses iguais às dos habitantes das cidades iniciaram falar com eles para trocar informações oferecer ajuda professores máquinas e ajuda financeira. Enviaram máquinas técnicos professores e material para ensinar e contribuir para desenvolver as atividades. Desenhistas mudaram-se para a cidade dos interessados em desenhar histórias em quadrinhos. Professores foram ensinar quem queria aprender Matemática. Sem saberem onde como e por que começaram os interesses coletivos.

Os objetos sumiram como apareceram, de repente e sem aviso. Levaram os desenhos das crianças. No lugar de cada objeto ficou uma pilha de pequenos cubos, cada um com o nome de uma criança que colara seus desenhos. Se a criança segurava o cubo nas mãos ele exibia nas seis faces as fotos da criança fotografada de dentro dos objetos.

São Gabriel da Cachoeira é um município brasileiro no estado do Amazonas. Situado às margens do Rio Negro, no extremo noroeste na região conhecida como Cabeça do Cachorro, é um dos municípios de fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. Em São Gabriel da Cachoeira com os cubos de fotografias também ficou um caderno escolar. Os moradores decidiram entregar o caderno à primeira criança da cidade que colara um desenho em um dos objetos. Ela decidiria o que escrever no caderno.

A pequena menina indígena da tribo dos Miriti-Tapuya levou o caderno para casa. No mesmo dia começou a escrever no caderno em língua Tukano. Uma história de visitantes de bastante distante no espaço sideral chegados ao Sistema Solar em uma nave espacial. Dela enviaram à Terra os emissários em pequenas naves com forma de poliedros regulares e irregulares. Os emissários tinham uma missão a cumprir. Não pretendiam porque não previam partir da Terra com desenhos de pequeninas mãos de crianças de países e lugares do planeta.

No dia seguinte, a menina Miriti-Tapuya entregou o caderno a outra criança para continuar a escrita da história. São Gabriel da Cachoeira tem quatro idiomas oficiais, Português Nheengatu Tucano e Baníua. De modo que o caderno esteve em mãos de quatro crianças. Cada uma escreveu no idioma da sua etnia. A história foi por fim contada em quatro idiomas.

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As cascas das bananas

Contam que começou com uma casca de banana nanica! Aconteceu na terça-feira. Por brincadeira, aquele que comia a banana nanica madura jogou a casca no outro que desviou-se, a casca saiu pela janela do 10º andar e caiu na calçada. O jogador de futebol andava na calçada para o carro que o levaria ao aeroporto e escorregou na casca de banana. Caiu e quebrou um dos braços. Os brincalhões do 10º andar não notaram o problema causado ao jogador e à seleção de futebol do país.

No domingo seguinte, a seleção de futebol jogou contra a do país vizinho. A guerra entre os dois países estava suspensa por causa do jogo.
Sem o jogador principal, a seleção do país perdeu o jogo e começou um boato que ele fora ferido por agentes secretos do país vizinho. A trégua acabou com o reinício da guerra. Bombardearam os palácios de moradia dos presidentes de cada um dos países e mataram a ambos.

Pararam de novo a guerra para eleições. Países de regime presidencialista carecem de presidentes. Os eleitores votaram e elegeram os novos presidentes. Um dos países elegeu uma mulher e o outro um homem, ambos solteiros. Os dois novos presidentes decidiram negociar a paz antes de reiniciar a guerra.
Iniciaram as reuniões, primeiro com conselheiros e depois só os presidentes. Tinha boatos de todos os tipos em circulação, todavia não previram o anúncio do casamento da presidente com o presidente. Aconteceu que a presidente e o presidente esqueceram um pouco da guerra e notaram um ao outro. Apertos de mão, olhares, sorrisos, confidências, outros apertos de mão mais carinhosos, sorrisos de cumplicidade e elogios. Consequência: amor, desejo, aceita casar-se comigo, sim.

Acabou a guerra, teve casamento, festas e a vida do casal iniciou. Fizeram construir uma casa na fronteira, metade da casa em cada país. A casa tinha tudo em dobro. O quarto único e a cama do casal única ficavam na fronteira, metade em um país e a outra metade no outro. Quando brigavam, o expulso da cama ia dormir no sofá da sala do seu país.

O povo via curioso os dois presidentes, tanto que os reelegeu. Cobraram dos respectivos legisladores leis para impor que os dois países poderiam ter novas eleições apenas se os eleitores exigissem. Senão, o casal continuaria a governar para sempre.
Era mais prático, cômodo e mais divertido. As fofocas sobre a vida íntima do casal de presidentes eram mais animadas e alegres do que a guerra e o futebol.

Na paz as pessoas confraternizam com seus vizinhos. Começou com os habitantes da fronteira e passou para o interior. Os vendedores e habitantes de um país iam vender e comprar no outro, as cidades fronteiriças cresciam para o outro lado da fronteira e misturaram os idiomas. Teve mais amizades namoros e uniões. O povo pôs-se a pensar em um único país e não mais em dois.

De repente, a notícia ruim. O casal de presidentes anunciou. Nos separaremos. A separação é inevitável. Opositores situacionistas e neutros foram às redes sociais e à imprensa pedir reconciliação. O povo foi às alamedas avenidas estradas montanhas praças rodovias ruas e vales.
Diante de tantos pedidos, o casal reconciliou-se prometendo jamais se separar.

Esta é a história das bananas nanicas maduras contada para as bananas verdes. Estas duvidam porque são novas e céticas. Não se pode acreditar ser a situação atual do país devida a uma triste casca de uma banana nanica descascada. Ah, vá!

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Monteiro Lobato

Se esta é mesmo a cidade de Garça, no Estado de São Paulo, Brasil, naquela pequena casa tem um menino com um livro de Monteiro Lobato numa das mãos, um sanduiche de pão com queijo prato na outra, com a atenção dividida entre a história do livro e o programa de música de fim de tarde transmitido pela ZYL3 Rádio Clube de Garça sintonizada no rádio de válvulas Semp.
O menino relê Reinações de Narizinho, Os Doze Trabalhos de Hércules, História do Mundo Para as Crianças. Aprende a usar e gostar de usar a imaginação, aprende a gostar de mitologia grega e de história. Leu e releu esses e os outros livros da coleção de Monteiro Lobato. Lê e relê os livros de casa porque ainda não descobriu a Biblioteca Pública Municipal.

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Claro e escuro nº 1

– É sempre assim? A um período de claridade sucede um de escuridão?
– Sempre assim.

– De onde vim era diferente.
– Como era?

– A um período de escuridão sucedia um de claridade.
– Não é tal e qual aqui?

– É mais agradável sair da escuridão para a claridade do que o contrário.
– Depende.

– Do que depende?
– Do gosto.

– Qual gosto?
– Quem prefere a claridade aprecia sair da escuridão para a claridade. Quem prefere a escuridão aprecia sair da claridade para a escuridão.

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Um café e um bolinho

Caminhava de volta da noitada no bar com os amigos, sóbrio por causa da marcha no ar frio da madrugada, entrou na casa de portas abertas e todas as luzes acesas e bebeu uma xícara de café quente sem açúcar e comeu dois bolinhos deliciosos, saudou a viúva e saiu da casa onde estava o velório do morto desconhecido.

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As missões

Ele pensou ter cochilado ao volante do carro porque não percebera chegar à cidadezinha ao lado da estrada. Tinha passado por aquela estrada outras vezes, mas não se lembrava da cidade. Seria por causa da escuridão da noite e o estranho fato de não se ver nenhuma luz acesa nas casas passando ao lado do seu carro? Ainda não era madrugada e todos já estavam dormindo?

Esqueci há quanto tempo estou viajando e quanto combustível tinha no carro ao sair. Espero encontrar logo um posto de gasolina para comprar combustível tomar café e comer um pão com manteiga. Curioso, o posto não aparece e a cidade parece não ter fim. Não vejo mesmo nenhuma luz nas casas. Deve ser a noite e a estrada escura iluminada apenas pelos faróis do carro, entretanto aquela casa pela qual passei agorinha era um tanto estranha.

Luzes, por fim. Um lugar iluminado como um restaurante de beira de estrada. Nenhum posto de gasolina. Carros estacionados. Ninguém à vista, só o lugar iluminado. Estacionou o carro, desligou a ignição, abriu a porta e saiu. Espreguiçou-se para esticar as pernas e foi em direção à luz. Entrou no lugar densamente iluminado. Estava cheio de gente invisível da estrada.

Alguém perguntou e outro respondeu. É o último? Sim. Ouviu a pergunta e a resposta dentro de sua mente.
Chegara ao destino. Percebeu. O ponto de encontro com seus semelhantes neste planeta. Da janela do prédio iluminado, viu o seu carro cada vez menor ainda parado lá embaixo. Viu as luzes das casas agora iluminadas, uma após a outra levantando voo.
Voltavam para casa para escolher e planejar o tempo e o próximo planeta para o qual viajariam para distribuir bondade e alegria. Neste planeta e neste tempo, terminara a sua missão e a dos seus companheiros.

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Longe de casa

– Aqui é a Amazônia?
– Não, é a África.

– É longe da Amazônia?
– Sim. Tem o Oceano Atlântico entre onde estamos e a Amazônia.

– Demorarei para chegar em casa.
– Movendo-se com tal lentidão, os felinos o comerão. Não chegará em casa.

– Qual é o seu nome?
– Girafa. E o seu?

– Preguiça. Você á alta. Tem pernas e pescoço longos.
– Sim. Você parece muito tranquila. É a razão para se mover tão devagar?

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Os ciclos

Pôs-se a dormir o máximo possível. Dormia em pé, na escola, no trabalho, ouvindo música. Em vez de ir ao cinema ou ver a TV, preferia dormir. Aprendeu a dormir com os olhos abertos para dormir no trabalho e na escola. Percorria sempre os mesmos caminhos e aprendeu a dormir enquanto dirigia. Com o treino, o tempo de sono ultrapassou o tempo acordado até não mais ficar acordado porque dormia todo o tempo.

Todos os dias, dormindo anotava numa caderneta o tempo de sono e o tempo acordado. No fim da semana transcrevia ainda dormindo as anotações da caderneta para uma planilha onde calculava o saldo igual a 24 horas de cada dia menos as horas de sono daquele dia. Até chegar ao saldo igual a zero, isto é, até dormir todas as horas de cada dia.

Então veio outro ciclo em sentido contrário do primeiro. Em vez de mais tempo dormindo, mais tempo acordado. Fazia acordado o máximo possível. Ia ao cinema via programas no televisor dirigia trabalhava e estudava acordado. Cresceu o tempo de cada dia acordado até o saldo de 24 horas do dia menos horas do dia acordado chegar a zero. Não mais dormia.

Ontem foi visto andando de olhos fechados porque terminou o segundo ciclo e reiniciou o primeiro.

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Secreto

Um escritor que escrevia e publicava seus livros sob um pseudônimo, foi premiado num concurso literário e ficou em situação confusa porque não queria se revelar na cerimônia de entrega do prêmio e enviou em seu lugar o fantasma de um agente secreto impossível de ser desvendado porque se não se mostrara enquanto vivo, menos ainda o faria enquanto fantasma.

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Um sorriso

Deu a partida no carro e olhou-a mais uma vez. Ah, como seria bom se ela sorrisse. Continuava na calçada linda e com os lábios apertados sem sorrir. Diabo de amor, como me apaixonei assim? Quando o carro chegou à rodovia, sorriu sozinho. Sentia saudade.

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Tempo de viagem

– Quanto tempo de viagem entre a cidade de São Paulo e a do Rio de Janeiro?
– 357,65 km é a distância. Se viajar 10 km por dia, demorará 36 dias de viagem.

– Tudo isso? Preciso chegar no Rio ainda hoje!
– Ah, então tem de ir de avião e não a pé.

– Por que pensou que eu iria a pé?
– Porque está a pé. Se estivesse de avião pensaria que iria de avião.

– E se estivesse de barco?
– Acharia que é maluco porque não tem como ir de barco de São Paulo ao Rio de Janeiro.

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Opiniões

Discutia consigo próprio sem jamais concordar com as próprias opiniões. Na única vez em que concordou envergonhou-se ao perceber que mentia para si mesmo.

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Os artistas

Então, veio o primeiro artista. Entrou no palco em passos firmes, vestido com roupa parecida a uma farda. Inclinou-se em elegante mesura ao distinto público, sentou-se ao piano e esperou o fim dos aplausos para iniciar o conserto musical da noite cultural.
Tocou mal, bem mal. Era péssimo pianista e músico. Saiu do palco sob o olhar em silêncio da plateia espantada e incrédula.

O segundo artista estava mal vestido num fraque velho e amarrotado. Levava embaixo do braço um violino desbotado e o arco do violino enfiado no bolso traseiro da calça. Saudou a plateia com um aceno de mão. Testou a afinação do violino com as pontas dos dedos. Pôs-se a tocar.
Tocou mal, bem mal. Era péssimo violonista e ainda pior músico que o pianista. Ouviu algumas vaias e saiu do palco.

Na rua do lado de fora, pela porta dos fundos do teatro por onde saiam os artistas despedidos, jogou o arco o fraque e o violino na lata do lixo. Ouviu uma voz:

– Vai desistir da vida de músico? – Era o pianista, sentado na beira da calçada.
– Não sou músico. Achei o fraque o violino e o arco do violino nessa lata de lixo para onde as devolvi. Que pretende você fazer?

– Assumir o trabalho de hoje. Sou guarda-noturno nesta rua. Achei que seria agradável ouvir dirigidos para mim os aplausos da público.
– Seria mesmo. Boa noite. Vou para casa dormir. Amanhã cedo estarei no meu posto de operário da fábrica. Queria tanto ser músico!

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Não acerto uma

– Você está diferente.
– Cortei o cabelo. Se você tivesse gostado, diria que fiquei mais bonita.

– Que fez no seu cabelo?
– Cortei. Não gostou? Se você tivesse gostado, diria que fiquei mais bonita.

– Não seria melhor pendurar no varal coberto a roupa lavada? O vento e o cheiro de poeira indicam chuva.
– Não vai chover.

– Está chovendo.
– Por que deixou a roupa lavada no varal descoberto, se notou a chuva?

– Vamos dormir juntos?
– Não. Você ronca.

– Dormimos juntos?
– Pra amanhã você dizer que eu ronco?

– Por que você fez isso?
– Porque sim.
– Porque sim não é resposta.
– Pode não ser para você, mas é para mim.
– Você tem uma razão para ter feito o que fez?
– Porque eu quis.
– Por qual razão quis?
– Porque sim.
– Ainda não entendi.
– Você não é o sabichão que sabe tudo? Procure nas suas ações e encontrará a razão de eu ter feito o que fiz.

– Que fazer para o dono desse carro desligar ou abaixar o volume do rádio?
– Chame a Polícia Militar.
– Você acredita que a polícia vem, se a chamam?

– Ouvi que os motoristas de Uber não ganham muito dinheiro.
– Tenho uma amiga que trabalha com o Uber e está satisfeita com os seus ganhos.

– Antes de desligar o notebook é boa prática sair do Facebook e fechar o browser.
– Não fechei? Tem certeza? Nunca esqueço de fechar.

– Como você emagreceu!
– Emagreci nada! Engordei, estou um balão!

– Você engordou um pouquinho.
– Engordei nada! Emagreci. Não dá para notar por causa da roupa.

– Precisa de ajuda?
– Pode deixar que eu me viro sem sua ajuda.

– Como é bonita a sua roupa!
– Bonita nada! É velha. Nem gosto muito dela.

– Quer fazer ginástica comigo?
– Trabalhando nesta casa faço ginástica suficiente!

– Quer dançar comigo?
– Está muito calor!

– Quer dançar comigo?
– Está muito frio! Prefiro ficar embaixo do cobertor, vendo o programa de culinária na TV.

– Está calor hoje.
– Sabe que estou até sentindo um friozinho?

– Está frio hoje.
– Você é muito friorento!

– Que tem nesta sopa?
– Por que? Não gostou?

– Está gostosa esta sopa.
– Não vai perguntar o que tem nela?

– Você demorou para voltar.
– Que nada! Fui e voltei num pulinho.

– Você voltou depressa!
– Que nada! Demorei demais.

– Bem que você poderia cozinhar polenta sem salsicha.
– Eu gosto de salsicha.

– Quer que eu limpe os cabelinhos do milho?
– Eu gosto dos cabelinhos do milho na comida.

– Veja só que interessante: este lado é maior que o outro.
– Mostrei isso a você ontem e você não deu atenção.

– Por que comprou ricota em vez de queijo?
– Prefiro ricota.
– Ricota não tem gosto nenhum.
– Prefiro o gosto nenhum da ricota em lugar do gosto do queijo.

– Vou pendurar no varal o casaco molhado de chuva que usava.
– No varal tem penduradas roupas lavadas, nada de misturá-las com roupa usada.

– Pode enviar por correio a sacola dobrada dentro de um envelope.
– Correio custa uma fortuna.

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O circo nº 1

O circo tinha uma palhaço que nenhum outro tinha igual. Até poderia ser tão engraçado quanto os outros palhaços, se tentasse. No entanto as histórias dele palhaço provocavam lágrimas em vez de risadas.
Entrava sozinho no picadeiro, andando devagar e carregando uma cadeira para nela se sentar. A plateia ficava em total silêncio para ouvi-lo. Falava baixo. Na cadeira velha no meio do picadeiro contava histórias tristíssimas. Quase todos os espectadores desistiam de evitar de chorar.
Quando ele se levantava da cadeira porque findara a apresentação, deviam ir-se para casa. Permaneciam em silêncio manso e sereno até esvaziar-se a plateia de espectadores.

Um dia, o palhaço triste quis mudar para palhaço alegre igual aos seus colegas. Cansara-se de inventar e contar histórias tristes. Decidiu ser palhaço engraçado. Decorou algumas piadas. Riu delas quando as contou para si mesmo na frente do espelho.
Contou as mais engraçadas no espetáculo da noite. Foi um desastre. Foi vaiado e apupado. Jogaram-lhe cascas de tangerina e de amendoim palitos de sorvete e bolinhas de papel de bala. Foi expulso do picadeiro e do circo. Perdeu o emprego confortável embora triste.
Só conseguiu outro emprego de coveiro do cemitério. O contratador achou engraçada a cara dele. Alegraria os parentes e amigos dos falecidos.

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O fio de linha

Porque viu e não resistiu a um fio de linha que saía do cantinho do assento da poltrona do avião, esperou o avião levantar voo, olhou a asa do avião com as turbinas, olhou o fio de linha, pegou-o com as pontas dos dedos e puxou-o até sair inteiro, olhou de novo pela janela do avião onde não mais estava a asa com as turbinas.

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Protestos

– Nunca vi um trânsito como esse!
– Demoraremos para chegar ao formigueiro!

– O que acontece?
– Uma passeata de borboletas e libélulas bloqueia o caminho.

– Do que reclamam?
– Das mariposas.

– Estão certas de reclamar, as mariposas são mesmo encrenqueiras. Vamos nos integrar à agitação?
– Contra o que protestaremos?

– Contra os tamanduás.
– Boa ideia. Tamanduás são provocadores de confusão tal qual as mariposas.

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Formatura

Era o dia da formatura dela. Ela não permitiria a ele esquecer da importância. Cobrava mais a atenção dele que de outras pessoas. Não o perdoaria, se ele faltasse ou atrasasse para a noite da formatura. Outra pessoa poderia faltar ou se atrasar que ela perdoaria, ele não seria perdoado. Se era estranho não perdoar um erro pequeno de uma pessoa importante para ela, não é que ele se atrasou? Viera de longe, dirigira por várias horas, chegou atrasado. A cerimônia de formatura findara antes da chegada dele.

Ela estava de beca preta comprida até os pés, linda com os cabelos penteados e os olhos brilhantes. Ele se apaixonara por ela, quando a encontrara num baile vestindo um vestido preto que a deixava ainda mais linda. Ela sabia que ele vinha de longe para vê-la, mas não adiantou.
Ficou brava e terminou o namoro. Ele se entristeceu porque a amava e não queria perdê-la. Menos ainda por um motivo pequeno, um atraso de alguns minutos. Mas não insistiu e não tentou convencê-la. Ela não mudaria de opinião. Talvez, em alguns dias passados.
Por ora, o namoro estava acabado e ele nada mais tinha para fazer. Despediu-se de todos, entrou no carro para voltar à cidade distante. Ligou o motor e arriscou mais um olhar para ela que continuava firme e fingia não o olhar. Como se não o amasse mais.

O automóvel branco rodou alguns quilômetros e ele mudou de estação. Sentia saudade da moça gentil e afetuosa que conhecia e amava, não da mulher brava que deixara. Apesar da saudade e do coração apertado, tinha outra vida na cidade distante. A escola, o trabalho e outras pessoas.
Mudou a própria estação, sorriu e voltou à vida longe dela. Longe físico e não da lembrança, da memória e da saudade. Um longe onde não via seu lindo rosto bravo e de namoro rompido. Um longe onde ela sorria de olhos fechados nos braços dele.

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O circo nº 2

Em todos os países os circos são itinerantes. Viajam de uma cidade para outra. Apresentam-se ora numa cidade, ora em outra. Não no país dos circos. O país dos circos tem um circo com equipes completas em cada cidade. Neste país, os circos são fixos nas cidades. Os moradores das cidades são os itinerantes. Vivem ora numa cidade, ora em outra.

De tempos em tempos a rádio nacional avisa e os habitantes das cidades mudam-se para a cidade seguinte. É a migração anual dos habitantes das cidades do país dos circos.
Analistas do mundo inteiro observam a migração do país dos circos. Têm de ficar em torres de observação nas fronteiras dos países vizinhos. É proibido interferir na migração anual de gente.

Um dia, um menino voltou à cidade onde morava antes para buscar um livro esquecido. Encontrou uma menina lendo o livro no banco de leituras da praça. O menino apontou o livro. Ela mudou-se para o banco de conversas. Ele sentou-se ao lado dela para conversar. Do banco de conversas passaram ao banco de amigos, depois ao banco de namorados e, finalmente, ao de casais.
Decidiram que ele não voltaria para a cidade para onde tinham se mudado e ela ficaria com ele para sempre na cidade onde se conheceram.

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As stripers

Era errado chamá-las de stripers porque não tiravam a roupa para dançar uma vez que entravam em cena peladas e dançavam sem nada a cobrir seus corpos azuis vermelhos e amarelos com quatro seios, dois no peito e dois nas costas.

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Transporte urbano

– Motorista, este ônibus vai até o Jardim da Saudade?
– Não, vai à Vila Esperança.

– Passa na Praça da Traição?
– Não. Passa na Rua do Amor.

– E na Avenida dos Desiludidos?
– Também não. Passa na Alameda dos Apaixonados.

– Bem, algum dia me servirá.
– Por que não experimenta hoje?

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Cartaz na frente

  • da agência funerária: – Estamos encaixotando.
  • da agência funerária: – Estamos encomendando.
  • da associação de contribuintes de impostos: – Estamos pagando.
  • da associação de contribuintes de impostos: – Estamos sonegando.
  • da lavanderia: – Estamos lavando.
  • da loja de calçados: – Estamos calçando.
  • da loja de calçados: – Estamos escondidos rindo dos seus pés feios.
  • da loja de roupas: – Estamos vestindo mesmo que você fique horrível com a roupa nova.
  • da Receita Federal: – Estamos cobrando.
  • da Receita Federal: – Estamos multando.
  • da tinturaria: – Estamos tingindo.
  • do banco de jardim: – Estamos descansando.
  • do banco de jardim: – Estamos namorando.
  • do banco de jardim: – Estamos falando mal da vida alheia.
  • do banco: – Estamos emprestando dinheiro e o azar será seu, se aceitar a oferta.
  • do banco: – Estamos ganhando dinheiro.
  • do cemitério: – Estamos enterrando.
  • do cemitério: – Estamos esperando.
  • do cemitério: – Pensou que escaparia?
  • do cemitério: – Volte sempre! Rá rá rá.
  • do escritório de agentes secretos: – Estamos contratando em segredo.
  • do escritório de agentes secretos: – Estamos segredando em segredo.
  • do escritório de fantasmas: – Estamos assustando.
  • do escritório de fantasmas: – Estamos contratando fantasmas pouco assustadores para uma escola infantil abandonada.
  • do revendedor de automóveis usados: – Estamos camuflando carros velhos em carros novos.
  • do revendedor de automóveis usados: – Estamos comprando.
  • do revendedor de automóveis usados: – Estamos vendendo.

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A timidez

Os dois amigos divertiram-se no baile de carnaval do clube da pequena cidade. Custaram a fazer chegar a coragem que só apareceu na noite de terça-feira, a do último baile de carnaval do ano. Foram para casa na madrugada da quarta-feira. Quase não falavam. Pensavam na beleza das meninas coradas do esforço e risonhas da dança. Segurar as mãos das meninas conhecidas e das desconhecidas encantou os dois adolescentes. Eram tempos em que meninos e meninas segurarem nas respectivas nas mãos era difícil e emocionante.

Entusiasmado com o sucesso dos bailes de carnaval, alguém quis ensinar a dançar aos jovens frequentadores do clube. Programou promover brincadeiras dançantes, como eram chamados na cidade os bailes animados por músicas de discos LP tocados no toca-discos.
Os dois amigos foram. Afinal, se tem baile, tem meninas. No entanto, a confiança do carnaval sumiu ao chegarem ao clube. Brincadeiras dançantes eram diferentes de bailes de carnaval. Tinham de dançar quase abraçados com as meninas. Tinham de saber como dançar. Confessar que não sabiam dançar era impensável. As músicas tão conhecidas pareciam estranhas naquela situação.
Como começar e o que fazer em seguida? Tiveram de refazer o esforço de vencer a timidez a vergonha e a sensação de inferioridade. Não que fossem ousados ou destemidos. Eram apenas adolescentes interessados nas meninas e, se as meninas queriam dançar, eles aprenderam.

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Uma criança

A criança de três anos ao acordar e ver a mãe em pé ao lado da cama:
– Mãe, como cê cresceu!

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Claro e escuro nº 2

Nem bem amanhecia e ouvia-se um grito. Apaguem essa luz! Sem outra solução porque o Sol não obedece aos gritos, ele tinha de suportar 12 horas de luz. Ela, entretanto, adorava a luz e ao anoitecer também gritava. Acendam essa luz! Sem outra solução porque o Sol se fora, tinha de suportar 12 horas de escuridão.

Numa manhã, ela mostrou-lhe um lugar escuro onde ele poderia esconder-se da luz até o fim do dia. À noite, ele mostrou-lhe um lugar iluminado para ela esconder-se da escuridão. Em outro dia, ele ficou mais tempo na luz do dia por causa dela, para continuar em companhia dela. Em outra noite, foi a vez dela demorar-se no escuro para aproveitar a companhia dele.

Os tempos passados juntos cresceram até que ele esqueceu-se de gritar Apaguem essa luz! ao nascer o dia. Ela esqueceu-se de gritar Acendam essa luz! ao anoitecer. Os filhos gêmeos deles gostavam da luz e do escuro.

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Computadores

Um homem que acabou de levantar-se da cama:
– Bom dia.
A mulher bonita e bem vestida sentada no sofá da sala com as pernas cruzadas:
– Oi.

– Que faz aqui? – isto perguntou o homem.
– Te esperava – foi a resposta da mulher.

– A mim? Por que?
– Sou a morte. Vim te buscar.

– A morte, com essa aparência? Onde estão a mortalha e a gadanha?
– Aprendeu a palavra gadanha no Intermitências da Morte do José Saramago?

– Sim.
– Ótimo livro! Diverti-me com ele. A mortalha e a gadanha foram inventadas pelos pintores. Nunca fui feia daquele jeito.

– Quando morrerei?
– Já morreu! Ataque cardíaco às 4 da madrugada. Gosto quando as pessoas morrem durante o sono.

– Eu não estava doente!
– Quanto sei eu? Não recebeu meu email?

– Você tem email? Qual é o endereço? Tem computador? Acesso à internet?
– Tenho email morte@gmail.com. O computador ganhei de um morto, um desktop com Ubuntu Linux e LibreOffice. O acesso à internet é emprestado de Lúcifer, um vizinho.

– Por que não tem um computador melhor?
– Bem que eu queria um Macbook Air, todavia o dinheiro não deu.

– Você tem dinheiro?
– Não tenho dinheiro e por isso também não tenho um Macbook Air. Você entende dessas máquinas?

– Sim, trabalho com computadores.
– Trabalhava. Vamos?

– Pra onde?
– Que sei eu? Minha missão é buscar os vivos ao morrer. Antes de entregá-lo quero que examine o meu desktop. Tem ferramentas e peças de reposição?

– Tenho tudo para montar um desktop de última geração.
– Que bom! Acho que nos daremos bem! Gosta do meu vestido?

– Muito! Fica-lhe bem. Você é bonita!
– Sou, não sou? Oh, nós nos daremos bem! Segure a minha mão. Maroto! Segurou-me pela cintura. Gosta de lasanha?

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O preguinho de cabeça dourada

Puxou bem devagar o preguinho de cabeça dourada e correu para evitar que a torre de madeira que desabava lhe caísse em cima.

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Os guerreiros

A guerra durou alguns anos. Tempo para várias vezes ele ir ao front e voltar em licença. Não mais sabia se ia à casa de volta da guerra ou ia à guerra de volta da casa. Perdera a noção do sentido do movimento.

Terminou a guerra e voltou para casa. Olhou em volta e a casa estava vazia, não tinha outras pessoas. Puxou uma cadeira para o centro da sala. Sentou-se e desapareceu. Ninguém notara sua partida para a guerra. Ninguém notara suas licenças. Ninguém notou sua volta no fim da guerra. Era desconhecido para o mundo. A sua falta não foi percebida.

No seu mundo de origem de onde viera para a Terra, conheciam-no e o reconheceram. Voltava de outra missão de explorador e logo quiseram saber: Quanto gostou do planeta visitado? O povo? Os fenômenos naturais? Os costumes? São pacíficos como nós?

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A espera

– Chegando ou partindo?
– Nem um, nem outro. Esperando.

– Vem com o trem, o que espera?
– Pela ferrovia. Não depende do trem.

– Não é uma pessoa.
– É um vento.

– Espera um vento que vem pela ferrovia?
– Esse mesmo.

– Qualquer vento?
– Não, um vento especial.

– O que tem de especial no vento esperado?
– Traz cheiros.

– Quais cheiros?
– De perfumes, dos perfumes dela. Do xampu, do sabonete, da colônia, o perfume na roupa, na camisola e no travesseiro.

– Que mais traz o vento?
– A saudade.

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O fantasma nº 1

Era uma vez um fantasma que não assustava ninguém. Gostava de crianças e sempre tinha crianças perto dos adultos que pretendia assustar. Um dia, encontrou uma casa assustadora onde considerou que nenhuma criança entraria. A casa velha tinha vários quartos e uma sala grande como um salão de bailes.
Adultos gostam de desafios e a notícia de um fantasma na casa logo atraiu os candidatos a corajosos. O fantasma assustou um pouco de leve os primeiros que se esconderam da chuva. Foi suficiente para que corressem a contar do assustador fantasma do casarão.

Certo dia, apareceu um ônibus de excursões estranho com passageiros ainda mais estranhos. O fantasma adorou a chance de testar a nova coleção de correntes e gemidos comprados pela Internet, contudo nenhum dos visitantes estranhos assustou-se. Ao contrário, tiraram das malas os clarinetes clarins fagotes guitarras harpas pianos tambores trombones trompas trompetes violas violinos e violões.
Puseram-se a tocar como loucos fora de si. Assim ele percebeu que os visitantes eram fantasmas em uma excursão fantasmagórica. Se existe isso de fantasmas em excursão. Tratando-se de fantasmas músicos, tocavam sem parar, tão alto que alguns habitantes da cidade aproximaram-se para ver o que sucedia.

Não demorou para trazerem bebida comida e crianças que não tinham com quem deixar. A casa ficou em festa. Nos intervalos da festa, consertavam partes quebradas e um grupo preparou quartos para as crianças. Construíram um parque infantil, arrumaram a cozinha e uma professora preparou salas para ensinar. Já contei que era uma casa enorme? O que não tinha na casa, produziram.
A casa tem agora três tipos de habitantes: os fantasmas, os antigos habitantes da cidade que se recusam a abandonar os amigos fantasmas e os visitantes transeuntes e itinerantes.
A música continua sem parar e muda durante o dia e à noite. Nas horas de aulas, do descanso e do sono das crianças, é suave e tranquila.
Para mim, o primeiro morador, tem sido bom porque não assusto as crianças e ainda por cima conto-lhes histórias de fantasmas. Elas adoram.

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Frio

Mesmo dentro do caixão fechado no túmulo sentia frio, quem sabe devido à escuridão que odiava.

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O jantar

– Como disse? Lasanha?
– Sim!

– Arroz à grega?
– Muito.

– Filé com fritas?
– Sem dúvida.

– Vinho?
– Do melhor.

– Pudim ou sorvete como sobremesa?
– Ambos.

– Café com ou sem creme?
– Com.

– A conta?
– Se não tiver outro jeito.

– Tudo isso, pode pedir no restaurante do outro lado da rua. Não aqui, a igreja da paróquia onde sou o vigário. Ah, sim, se me convidar para jantar com você, aceitarei com prazer.

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Colibris nº 1

Está agitada a comunidade dos colibris da floresta. Nos galhos das árvores ouve-se piados indignados surpresos e jocosos. Colibris voam, conversam, comentam e fofocam. Tudo porque uma colibri considerada um modelo de virtude foi vista aos pios, quem sabe íntimos, com um pintassilgo famoso pelas conquistas amorosas.

As colibris solteironas, da Liga das Colibris Virtuosas, propuseram uma passeata em revoada ou uma revoada em passeata contra a promiscuidade. A favor da moralidade e dos bons costumes, contra a imoralidade e os maus costumes. As colibris feministas, pois não é que tem colibris feministas, sustentam que a colibri tem direito de arrastar as asas para o pássaro que quiser.

Alheio à agitação dos colibris, o pintassilgo segue a vida de galho em galho. Já está de olho numa rolinha da mata vizinha. Qualquer dia destes, voará à árvore dela para tentar a primeira aproximação. Com cuidado, é claro, para evitar que o vejam e contem à colibri.

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Medo de altura

Tinha tanto medo de altura que engatinhava como os bebês para não ficar em pé.

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O café

O hábito de beber café é apreciado aprovado e também condenado e reprovado. Uns dizem fazer bem e outros que faz mal. Beber café nas refeições ajuda ou atrapalha a digestão, à noite beneficia ou prejudica o sono e é um hábito bom ou ruim.

Certo, certo, bom é chá, é isso? Bom é beber chá e não beber café? Então, vejamos.

Os leões calmos dorminhocos pacíficos e tranquilos bebem café com creme sem açúcar. Hienas risonhas e sociáveis são grandes bebedoras de café. Tigres e leopardos então, nem se fala. Sempre que podem, param na cozinha para uma xícara de café sem açúcar.

No outro lado estão os bebedores de chá como os antílopes búfalos e libélulas. Sempre nervosos, correndo pulando e voando de um lado para o outro, desconfiados e irritados. Depois ainda insistem em dizer ser bom beber chá. Ora bolas.

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O alto da árvore

– Ei, você aí embaixo! Pode me ajudar a descer?
– Puxa vida! Como foi parar no alto da árvore?

– Ora, de galho em galho. Subindo e subindo cheguei. Agora não consigo descer.
– Ué, pode descer como subiu, de galho em galho.

– Poderia se não fosse por um pequeno problema.
– Qual?

– Minha tromba enrosca nos galhos mais finos e atrapalha a descida.
– Não pode enrolar a tromba e descer?

– Poderia se não fosse por outro pequeno problema.
– Qual é?

– Minhas orelhas enroscam nas folhas.
– Não pode saltar daí ao chão?

– Poderia se não fosse por outro pequeno problema.
– Qual é, desta vez?

– Vou te esmagar se cair em cima de você embaixo da árvore.

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Antártica

Tinha ou não razão em felicitar-se por ser tão inteligente? Quanto senso de oportunidade! Sou inteligente e esperto. Minha será a primeira fábrica e loja de guarda-chuvas sombrinhas capas de chuva e chapéus impermeáveis da região! Pesquisara procurara e olhara em todos os cantos. Não tinha concorrentes. Assim farei fortuna. Com inteligência e senso de oportunidade.

Darei o nome da região à fábrica e à loja. McMurdo Dry Valleys Guarda-Chuvas Sombrinhas Capas de Chuva e Chapéus Impermeáveis. Bonito nome, é um nome de exportação.

Acontece que o espírito empreendedor produz ao mesmo tempo certezas e dúvidas. Não tinha fábricas e lojas de guarda-chuvas sombrinhas capas de chuva e chapéus impermeáveis na região. Também não coberturas para carros nas casas nem toldos na frente das lojas bares e restaurantes. Perguntou a razão a um amigo e ouviu a resposta:

– Porque os objetos mencionados por você não são cá necessários.
– E por que?

– Porque esta é a região mais seca da Terra!
– Como assim?

– Este é um lugar onde não chove faz mais ou menos uns dois milhões de anos!

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Medo de água

Tinha tanto medo de água que morava em McMurdo Dry Valleys, a região da Antártica onde não chove faz uns dois milhões de anos.

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O fim da história

Viveram felizes para sempre. Foi o que o escritor escreveu no fim da história. Depositou o lápis na mesa, releu a história, todavia considerou absurda a última frase. Ora, não vive ninguém feliz para sempre. Todas as pessoas do mundo, em tempos diferentes, estão felizes ou não tão felizes ou infelizes.

Nada tem de errado em não viver sempre feliz ou não viver sempre infeliz. São as dores e as delícias da vida. São de outro mundo, não deste, os príncipes e as princesas que vivem felizes para sempre. São do mundo dos contos de fadas que não é o mundo real.

Apagou a frase final do livro. Ainda bem que escrevia à lápis. Escreveu: Viveram juntos, às vezes felizes juntos e às vezes infelizes juntos.

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Insultos

– Biltre desengonçado estafermo facínora gabiru gatuno lorpa mandrião mentecapto pulha sacripanta safardana e vândalo.
– Que significa essa lista de palavras?

– Insultos.
– Insultou-me em ordem alfabética (em Português)!

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O navio nº 1

Olhou pela janela do camarote do navio a tempo de ver a enorme onda de água mais alta que o navio que se aproximava.

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Visões

Todos os dias passava no caminho do trabalho defronte ao prédio onde via uma pessoa na janela de costas para a rua. Parecia ser sempre a mesma mulher imóvel. Com aquele corpo tinha de ser uma mulher. Eis o valor de observar atento os detalhes da vida.
Queria saber dela e a razão de estar sempre à janela, entretanto tinha de ser discreto. Às vezes parava na calçada um instante a olhar a figura imóvel. Em seguida, seguia o caminho intrigado incrédulo e curioso.

Um dia aconteceu de estar na frente do prédio uma pessoa que o saudou, dando-lhe coragem de parar e perguntar. Você vê através da janela uma estátua da deusa grega Afrodite, a deusa do amor da beleza e da sexualidade. Afrodite foi chamada Vênus pelos romanos. Não é uma pessoa. Este é um museu com muitas estátuas em exibição. Venha conhecê-las.
Agradeceu a resposta e a informação. Deixou para outro dia a visita ao museu e às estátuas.

Na manhã seguinte, ao passar outra vez defronte ao museu, parou na calçada e saudou a estátua da deusa. Tirou-lhe o chapéu e inclinou-se em pequena mesura. Sem pressa, Afrodite voltou-se para a rua e sorriu para ele. Nunca em sua vida de antes e em sua vida de depois, ele vira ou veria um sorriso mais lindo e acolhedor que o da estátua da deusa do amor, da beleza e da sexualidade na antiga religião grega.

Apaixonou-se. Ficou perdidamente apaixonado. Tinha de descobrir como transformar-se em estátua para viver eternamente ao lado dela.

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O fantasma nº 2

Recebeu o diploma do curso profissionalizante de fantasma.

Procurou e encontrou um lugar adequado para exercer a profissão numa área afastada da cidade. Uma enorme escura e sombria construção em ruinas que examinou e achou perfeita. Não demoraria e seu nome estaria no alto da página de Fantasmas com Mais Sustos Aplicados do livro de recordes do Guinness. Preparou a lista de sustos, correntes para arrastar e luzes fantasmagóricas. Lavou secou e engomou as mortalhas penduradas nos cabides do armário. Tudo pronto! Um fantasma diplomado está sempre preparado.

O tempo passou. Um mês, dois meses, alguns anos e nenhum visitante apareceu para ser assustado. Tanto a fazer sem ninguém para assustar! Mais de uma vez, leu as placas na fachada da construção: Fábrica de Chapéus Sombra e Água Fresca – Fechada por falta de clientes.

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Convites para dançar nº 1

Aproxima-se dela:
– Olá.
Ela sorri ao responder ao cumprimento:
– Olá.

Ele a convida para dançar:
– Aceita dançar comigo?
Ela aceita com outro sorriso ainda mais bonito:
– Sim.

– Está gostando do baile?
– Estou adorando. É o meu primeiro baile.

– Obrigado por aceitar o convite para dançar.
– Obrigada por me convidar para dançar com você.

– Olá.
– Olá.

– Aceita dançar comigo?
– Sim.

– Eu te amo, desde a primeira vez que te convidei para dançar.
– Também te amo, desde aquele minuto.

– Vamos viver juntos nossas vidas?
– Sim.

Muito tempo passou desde a primeira dança:
– Olá, querida.
O sorriso dela, ainda radiante ao sorrir para ele:
– Olá, querido.

– Tenho de ir, querida. Não consigo mais ficar, embora sinta tristeza por te abandonar.
– Sei que tem de ir, querido. Não me abandona. É temporário. Também sinto tristeza. Eu te seguirei. Espere-me.

– Adeus, minha querida e amada.
– Adeus, meu querido e amado.

Em algum lugar e tempo que não se sabe se existem:
– Olá, querida. Você chegou!
– Olá, querido. Sim, cheguei!

– Estamos juntos. Desta vez, é para sempre mesmo.
– Sim, é para sempre. Sabe se aqui tem bailes?

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O navio nº 2

Olhou pela janela do camarote do navio e viu o fundo do oceano de ponta-cabeça.

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Gramática

– Ei, aonde vai?
– Ali.

– Que é ali?
– Ali é como à direita à distância à esquerda abaixo acima acolá adentro adiante afora aí além algures alhures antes ao lado aonde aquém aqui atrás, cá, de longe de perto debaixo defronte dentro detrás, em cima em volta embaixo externamente, fora, lá longe, nenhures, onde e perto.

– Entendi, vai a um advérbio de lugar.

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Quando eu me casar,

  • quero morar numa casa com um grande jardim para plantar muitas flores.
  • quero morar numa casa com vários quartos para poder receber muitas visitas.
  • quero morar numa casa com piscina para poder nadar todas as manhãs.
  • quero morar numa casa no lugar mais lindo da cidade.
  • quero morar numa casa bem pequenininha para esbarrar o tempo todo no meu marido.

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Morto

Não sentia alegria amargura angústia calor dor enjoo euforia fome frio mágoa medo melancolia nojo rancor sede tédio tontura e tristeza porque morrera centenas de anos antes e dele nada mais existia nem a lembrança a história e a saudade.

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Uma menina e um menino

Era um menino incomum. De olhar sonhador e distante parecia recitar um poema ou cantar uma canção sem som. Obedecia rápida, eficiente e em silêncio as ordens do pai, o vendedor de pipocas da praça da igreja matriz. O olhar firme e suave parecia encantar as pessoas, acalmando-as.

Era o que ela via do alto dos 10 anos de idade. Uma menina da capital em férias escolares na casa dos avós na pequena cidade do interior. Passeava com os primos e primas, levados pela prima adulta e o namorado. A praça e as imediações do carrinho de pipocas eram seus lugares preferidos. Por causa do menino.

Foram-se as férias de 10 anos e as de 11 12 13 e 14. Mudaram os anos e os passeios. Ela sempre dava um jeito de passar pela praça e o carrinho de pipocas. Cresceu, ficou mais bonita e mais atraente. Transformou-se em linda adolescente. Ele também chegou à adolescência e aprendeu a sorrir. Num dos passeios das férias dos 14 anos, ela o viu sorrir pela primeira vez. Ele sorria para si mesmo como se ouvisse uma voz que ninguém mais ouvia. Uma voz a contar assuntos merecedores de sorrisos. Parecia atento não ao que acontecia em volta do carrinho de pipocas. A conversa interior alterava suas expressões faciais para espanto comiseração e alegria.

Ela aprendera com o pai a ser curiosa e se interessar por tudo que via. Olhando o menino podia afirmar, sem dúvida, que uma conversa acontecia na cabeça dele. Ele estava mais velho e mais alto. Continuava ao lado do carrinho de pipocas. Atendia as ordens do pai, vendia pipocas e cobrava e devolvia o troco, buscava água e empurrava o carrinho para casa no fim da noite de trabalho. Era o que ela via do alto dos 14 anos de idade.

Nas férias de 15 anos, os primos e primas tinham outros compromissos afazeres e interesses, não mais passeavam na praça. Ela perambulava sozinha pelas ruas queridas da cidade, sentava-se no banco da praça perto do carrinho de pipocas como a se despedir. As férias de 16 anos seriam dedicadas aos vestibulares, à escolha e ao início da carreira profissional. No último dia das férias, lembrou-se que nunca falara com ele. Nas vezes em que comprava as pipocas, fora servida pelo pai. Resolveu que naquela noite pegaria o saquinho de pipocas das mãos dele. Tinha de saber como seria ficarem tão próximos.

À noite, bela e com os olhos brilhando, saiu de casa sozinha. Foi à praça e sentou-se num banco de jardim. O menino estava no seu posto ao lado do pai e do carrinho. Era incomum ele ficar sozinho, mas ela aguardou porque sabia que naquela noite falaria com ele, nem que fosse com os olhos. Então, aconteceu. O pai afastou-se, voltava cansado para casa. Deixava o negócio nas mãos do filho que sabia ser responsável.

À medida que ela se aproximava, ele lhe estendeu a mão com o saquinho de papel cheio de pipocas que ela não vira encher. Ficaram em silêncio, olhando-se. Você veio no seu último dia de férias. Eu queria vir. Eu sabia que você viria e te esperava. Eu também sabia que viria e você me esperava. Apertaram-se as mãos para se despedir e sorriram um para o outro.

Na noite seguinte, em sua casa na cidade grande, preparava-se para o início do ano escolar na manhã seguinte. Antes de deitar-se, abriu a pequena caixinha de madeira e pegou a pedra multicolorida que ele lhe dera, quando se despediram. Lembrou-se dele, sorriu feliz e a pedra mudou de cor. Ficou mais brilhante.

A cidade, a escola, as aulas, os amigos e as amigas cobraram sua atenção. Ela assistiu aulas passeou sorriu e foi a festas, principiou a pensar em estudar medicina para especializar-se em cirurgia pediátrica, entusiasmou-se com a notícia da união da prima com o antigo namorado, aqueles que levavam as crianças para passear na praça da igreja matriz.

Na festa ela sorriu e dançou, os olhares voltavam-se para vê-la. Ela olhava para todos à procura do rosto especial que não viu. Em certo instante, sua mãe, as mães conhecem as filhas, perguntou-lhe o que procurava. Pelo olhar de resposta da filha, a mãe compreendeu, as mães compreendem o olhar de suas filhas. A festa terminou tarde na noite. O carrinho de pipocas já teria sido empurrado de volta para casa. Ele estaria no seu posto amanhã? Ela poderia vê-lo mais uma vez? Quanto mudara, quanto era tal qual antes?

Deitada na cama no quarto grande da casa da avó, ouvia as conversas das primas, sentia que o sono se aproximava. Ela sonhava acordada e sorria pensando como seria encontrar-se com ele. Súbito, sentou-se na cama. Alguém falara com ela e não fora uma das primas. A voz viera de dentro de sua cabeça. Era uma voz que ela conhecia, Eu a esperei, mas tive de ir, Amanhã nos veremos, Eu a procurarei, se você não vier. O coração dela ficou aos pulos, mas o cansaço do dia ganhou da agitação e o sono levou-a para a terra dos sonhos das meninas.
Afinal, amanhã é sábado, dia de passear na praça da igreja matriz e dia de namorados se encontrarem.

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Desejos

É verdade. Pode acreditar. O disco voador parou ao lado da minha janela (no 10º andar!). O marciano perguntou onde encontraria um vendedor de pipocas e uma quitanda abertos àquela hora da noite.

Recomendei as imediações do estádio de futebol onde jogavam um jogo do campeonato e um supermercado de portas abertas nas 24 horas de cada dia.

Explicou que sua mulher grávida sentia desejo de tomar suco de laranja adoçado com pipoca doce. Ofereci-lhe o milho de pipoca e as laranjas da despensa daqui de casa. Diante da sua cara desconsolada, ofereci emprestar-lhe a pipoqueira e o espremedor de laranjas. Aceitou sorridente. Prometeu devolver a pipoqueira e o espremedor e trazer notícias do bebê. Fechou a escotilha do disco e partiu.

Qualquer hora aparece com as fotos do bebê, a pipoqueira e o espremedor, se não for um marciano esquecido.

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Visão

– O que é aquilo no céu?
– Onde?

– Ali. É asa delta avião balão estratosférico Barão Vermelho colibri-abelha-cubano disco voador Dumbo Holandês Voador Ícaro jato Lua monstro alado nave extraterrestre pássaro Pégaso satélite artificial Super-homem vespa-fada-voadora ou Zepelim?
– Errou! É um urubu e são urubus no plural! Não sentiu o cheiro horrível?

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O último dia do universo

No último dia do universo, o último ser humano vivo da Terra levantou-se muito cedo e preparou o café e esquentou o pão feito dias antes. Comeu o pão e bebeu o café. Sentou-se na cadeira confortável do terraço para esperar o fim do dia que jamais aconteceria.
Na frente da casa, até onde podia ver com os olhos descobertos ou por trás das lentes da luneta, outros seres vivos esperavam. Animais, vegetais e minerais, predadores e presas, arbustos e árvores, mamíferos e aves. Em pé, sentados, pousados em galhos de árvores.
Olhavam com atenção silenciosa e solene para o mesmo ponto do horizonte onde esperavam ver o último pôr do sol.

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O tempo

Tinha tanto por fazer e pouco tempo. De vez em quando sentia ter o tempo acabado ou seria a vontade de parar e descansar? Tanto trabalho e esforço, mas não conseguia saber se valia à pena. Nunca ouvira de ninguém se a sua vida servira para algum objetivo ou resultado.

Estava com a idade em que cada novo dia vivo parece um prêmio. Não se sabe quem ou o quê premia os que vivem mais um dia. É provável não existir prêmio e a vida seguir o curso natural sem se importar com os vivos e os mortos.

Cabe a cada um fazer da sua vida algum benefício para os outros, não para si porque morrerá e deixará os bens e produtos. Quem são os outros? A família a cidade o estado e o país. Tem os dedicados à espécie humana. Depois de morrer, um pouco da sua força trabalho e esforço são lembrados pela família. Se tinha defeitos tão naturais nos seres vivos, mais tarde o lembrarão também pelos defeitos.

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Dias da semana

Tem quem reclame da segunda-feira. Dizem-no o primeiro dia de trabalho da semana o primeiro de aulas e o reinício. Outros consideram o dia da semana após o domingo. Para mim não tem dia melhor que o dia da semana após o domingo. Segunda-feira é terceiro dia da semana que sucede o sábado e o domingo.

Tenho minhas razões. É no sábado e no domingo que eu me encontro com ela. Só no sábado e no domingo de cada semana. Se você acha pouco, saiba que estamos em 1961, ambos temos 15 anos de idade. Neste ano, nesta idade, nesta cidade, só namoramos nos sábados e domingos.
Ontem, domingo, eu a encontrei pela segunda vez no fim de semana iniciado no sábado. Como ela estava linda! Linda como uma fada perfumada. O cheiro do perfume dela ficou na minha mão porque ficamos de mãos dadas todo o tempo. Eu sempre a acho linda porque a amo.

Ora, você tem 15 anos neste ano de 1961! Como poderia ser diferente? Aposto que amou as outras namoradas. Continue a história.

Como dizia, hoje é segunda-feira e só tenho boas e queridas lembranças do sábado e do domingo. Terça quarta quinta sexta e sábado outra vez. No sábado, eu a encontrarei. Encontrarei a doce e linda namorada.
Tem coisa melhor que ter 15 anos em 1961, amar e ser amado? Ela também me ama, certo?

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O dilúvio

– Noé, falaram no rádio que vai chover durante 40 dias e 40 noites!
– Tudo isso? Tem certeza? Quem falou?

– É a previsão do Instituto de Meteorologia. Não é melhor começar a construir a arca?
– Antes vou comprar alguns baldes.

– Com qual objetivo?
– Armazenar água da chuva!

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Os espelhos

O viajante desceu do ônibus. Estava apressado para ir ao banheiro urinar, lavar as mãos o rosto e pentear os cabelos. Gostava de manter os cabelos bem penteados. Conseguiu se pentear sem ver o resultado. Não tinha espelhos no banheiro do terminal rodoviário.

Ao voltar ao ônibus para pegar a bagagem, uma pessoa aproximou-se e perguntou: Como eu sou? Como é o meu rosto?
Respondeu um resmungo. Notou que as superfícies não refletiam o seu rosto. Não via a imagem do próprio rosto nos vidros das janelas e nas poças d’água. Não tinha espelhos no saguão e no elevador do hotel, nos armários e no banheiro do quarto.

Todavia precisava de um espelho para barbear-se na manhã seguinte. Desceu ao saguão do hotel e pediu um espelho ao atendente. Este respondeu não poder atendê-lo:

– Não tem espelhos e superfícies refletoras na cidade. Nenhum dos moradores conhece o próprio rosto.
– Como farei para me barbear e pentear amanhã cedo?

– Como os outros homens da cidade. No salão de barbeiro será barbeado e penteado. Chegue cedo porque sempre tem fila.

Logo cedo foi ao salão de barbeiro. Tinha uma pequena fila à espera do atendimento. Nenhum espelho dentro do salão. Foi atendido, barbeado e penteado. Não disse ao barbeiro como gostava do cabelo penteado. O homem poderia ter adivinhado porque não lhe perguntou.
No fim do dia, terminou a reunião de trabalho e voltou ao hotel. Pegou a mala e chegou ao terminal rodoviário em tempo de embarcar no último ônibus de saída da cidade.

Na primeira parada além dos limites da cidade, correu ao banheiro onde viu no espelho os seus cabelos ainda penteados mesmo depois de um dia inteiro. Entretanto o barbeiro os tinha penteado diferente de como ele gostava. Fizera como ele e não como o cliente queria. Os cabelos estavam penteados para o lado direito quando ele os queria para o lado esquerdo.
Pegou o pente que carregava no bolso do paletó, molhou os cabelos e os penteou do jeito que gostava. Para o lado esquerdo. Se tivesse de voltar àquela cidade, levaria na mala um espelho pequeno. Nada mais de gastar dinheiro com o barbeiro insolente.
Abaixou-se na pia para lavar as mãos. Quando virou-se para pegar papel de enxugar as mãos, olhou-se novamente no espelho. Seus bonitos cabelos pretos estavam bem penteados. Para o lado direito.

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Chegadas e partidas

– Cheguei.
– Chegaste.

– Sentiste saudade?
– Sim.

– Por que?
– Porque te amo.

– Amor e saudade andam juntos?
– Às vezes, sim.

– Existe saudade sem amor?
– Sim, a saudade de como era a outra pessoa e não mais é.

– Como é isso?
– As pessoas mudam e as relações tornam-se tristes. Daí vem a saudade.

– Pergunte se senti saudade.
– Sentiste?

– Sim.
– Por que?

– Porque também te amo. Que se faz com a saudade?
– Senta-te ao meu lado e segures-me a mão.

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A rainha das fadas

O jogo final terminou. Último jogo da Copa do Mundo de Futebol de 1970 e a Seleção Brasileira de Futebol ganhou o jogo o campeonato e é tricampeã mundial. Os brasileiros comemoram, tem gente nas ruas alegria rojões automóveis buzinam. Comemoramos a vitória da Seleção como se de todo o país, esta cidade é pequena e minha casa está na praça principal.

A linda menina loira ao volante do Ford Corcel vermelho gostou da minha rua? Gostou da rua ou apenas comemora? Quantas vezes passou? Contei três ou quatro. Ela é linda e olhou na minha direção todas as vezes. Sei que me viu porque sorri para ela. Quem é ela? Como é o seu nome? Onde mora? Nunca a vi antes na cidade. Quem sabe, a encontrarei à noite. Estou em férias, ficarei alguns dias. Reencontrarei a loirinha linda. Conversaremos algumas vezes, prometerei escrever-lhe e esquecerei da promessa.

Voltei para o Baile de Debutantes da cidade. Comprei e visto um smoking. No baile estou elegante vestido com o smoking novo. A orquestra ainda não toca. De repente, ali está ela. Vem na minha direção, linda como uma fada, bela como uma rainha, vestindo o mais maravilhoso vestido preto que já vi em toda minha vida. Quer saber? Não é nada fácil aparentar tranquilidade diante da rainha das fadas que vem em sua direção. Reclama. Você disse que me escreveria e não escreveu!

Quanto pode fazer o rapaz dentro do smoking novo, quando a rainha das fadas reclama das cartas não recebidas porque não foram escritas? Ele não esqueceu dela. Esqueceu de escrever a ela. E agora? Prometer que escreverá? Pedir perdão à rainha por ter falhado? Render-se? Pedir a mão da rainha em matrimônio? A última possibilidade é a mais viável. Não hoje, é claro, daqui a algum tempo.

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O pintor abstrato

No início, não era artista, mas era pintor. Era pintor de paredes. Pintava as paredes das casas com tinta látex PVA à base de água, tinta acrílica, esmalte sintético e tinta epóxi. Pintou com tanto capricho e competência as paredes internas e externas da casa de um famoso pintor abstrato que, antes de morrer, agradeceu-lhe o trabalho, fazendo-o herdeiro da sua coleção de pincéis e tintas de muitas e variadas cores. Devido à herança, o pintor de paredes pintava paredes durante o dia. Nas horas da noite dedicadas antes aos programas de variedades da TV, pintava quadros abstratos.

A decisão pela pintura abstrata teve razões. Uma delas descobriu ao pintar as paredes da biblioteca municipal. Usava os tempos de descanso para folhear livros de arte escolhidos pela bibliotecária. Num livro viu a ilustração do quadro “Lines of Time” do artista Rande Cook. Encantou-se pelo quadro e os outros trabalhos do artista canadense. Decidiu pintar apenas linhas nos seus quadros. Pintaria linhas de cores diferentes porque herdara tintas de várias cores.

Parecia fácil pintar linhas na tela, todavia aconteceu um problema. A missão do pintor de paredes é cobrir a superfície com a tinta. Espaços não cobertos significam pintura mal feita. Acostumado à atividade profissional, ele acabava por pintar linhas de tantas e tão variadas cores que cobria a superfície da tela com uma mancha de linhas sobrepostas. Não conseguia parar de riscar outras linhas com outras cores. Bem que tentou mas não conseguiu. A tentação de usar mais e mais cores ganhava sempre da sua vontade de artista amador.

Numa noite dedicada à arte, a filha pequena quis também brincar de artista e ele separou alguns pincéis e tintas para uso dela. Então, notou que o quadro da noite não tinha todos os espaços da tela cobertos com linha. Faltavam as cores usadas pela filha. Foi assim que, nas noites seguintes, entregou mais cores à menina, até ficar com seis: amarelo azul branco preto verde e vermelho.

Agora, ele não é e não pretende ser pintor abstrato famoso, contudo é capaz de conciliar as paredes cobertas de tinta com os quadros parcialmente cobertos com linhas pintadas. A filha pequena frequenta uma boa escola de desenho paga com o dinheiro que ele ganha ao pintar paredes também em fins de semana. Ela, sim, será artista plástica famosa e aplaudida.

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Cidades

  • Na primeira cidade eram gordos, muito gordos. Alguns pareciam acima dos 200 quilos de peso. As portas das casas eram largas para passar os mais gordos. As outras dependências das casas não tinham larguras conformes aos moradores. Por que? Isso era fácil de explicar. Após entrar nas casas, tiravam os enchimentos de debaixo das roupas para simular serem muito gordos. Assim, voltavam ao peso real.
  • Na segunda cidade eram altos, muito altos. Alguns pareciam acima de três metros de altura. As portas das casas eram altas para passar os mais altos. As outras dependências das casas não tinham alturas conformes às dos moradores. Por que? Isso era fácil de explicar. Depois de entrar nas casas todos tiravam as pernas de pau usadas nas ruas. Assim, voltavam à altura real.
  • Na terceira cidade andavam curvados, muito curvados. As mesas e bancadas de trabalho tinham pernas encurtadas para acomodar os trabalhadores encurvados. Todavia ao entrar nas casas aprumavam os corpos para andar deitar e sentar eretos.
  • Na quarta cidade, andavam para trás, jamais para a frente. Conheciam-se pelas costas, cumprimentavam-se pelas costas, falavam-se pelas costas. Entretanto depois de entrar nas suas casas viravam-se e viviam de frente.
  • Na quinta cidade não tinha excentricidades. Os habitantes eram como os de cidades não estranhas. Os excêntricos eram forçados a se mudar para cidades onde seriam considerados normais.


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