O fantasma sente frio e não assusta crianças

capa de livro de contos de Benedito Carneiro

~ ~ ~ ~ ~

No elevador

No centro do elevador. Com os braços estendidos tinha mais de um palmo de distância entre suas mãos e as paredes de aço escovado brilhante. Fechou os olhos e sentiu o contato com as paredes frias dos dois lados nas pontas dos dedos das duas mãos. Até hoje não sabe se foi o elevador que encolheu ou os seus braços que cresceram.

~ ~ ~ ~ ~

Madrugada

Este lugar é apertado! Mal consigo me mexer. Dá para bater nas paredes laterais e na de cima. O som é de madeira. Estou vestido com meias sapatos cueca calça cinto camisa abotoaduras gravata colete e paletó. Poucas vezes na vida me vesti com tanta roupa, nem nos dias mais frios quando é mais adequado usar um casaco grosso feito de lã.

É muito estranho estar deitado dentro de um caixão de madeira pouco maior do meu corpo onde pouco posso me mexer vestido com terno e gravata. Pois se não tenho terno, de quem seria este? O tecido é macio confortável e me serve bem. Qual é a cor? No escuro não consigo ver. A gravata pode ser uma das minhas. Tenho três nunca usadas. Foram dadas como presente por pessoas que jamais me viram usar gravata. No entanto gosto da gravata azul. Será ela enrolada no colarinho da camisa em cima do meu pescoço? Estou elegante.

O problema principal, entretanto, é descobrir o que faço aqui, como entrei neste caixão e o que aconteceu. Terei morrido sem notar e estou em um caixão de defunto vestido como um defunto inerte como ficam os defuntos? Se morri como estou raciocinando? Se me belisco dói. Posso rir e estou respirando. Concluo não ter morrido. Se não morri, o que aconteceu?

Agora entendi. É um sonho. Um sonho esquisito, mas é um sonho. Bem, acho melhor acordar. Era mesmo um sonho, estou na minha cama, vestido com meu elegante pijama de bolinhas. Amanheceu e está na hora de levantar e sair para trabalhar.

~ ~ ~ ~ ~

As cinco cidades

Era uma vez cinco cidades vizinhas em um vale acessível por passagens estreitas nas montanhas. Nas cidades viviam crianças jovens velhos e animais domésticos. Todos atingiam idades avançadas nunca acima dos 100 anos porque morriam antes do aniversário de 100 anos. Eram cidades antigas, fundadas quando já existia escrita porque os fundadores escreveram a história da chegada ao vale habitado por animais e vegetação, escreveram de como decidiram que cinco cidades espaçadas por igual seria boa forma de ocupar a região, escreveram de quando trouxeram as famílias e da curiosa transformação dos velhos.

Ao mencionar a transformação dos velhos, os fundadores referiam-se a um fenômeno iniciado com as primeiras famílias chegadas ao vale: com o passar do tempo, os velhos remoçavam, ficavam mais bonitos mais fortes saudáveis e joviais. Poucos meses depois de chegarem ao vale, os velhos das primeiras famílias tinham a aparência e a vitalidade dos jovens, com melhorias na visão e audição e na pele, voz e andar firmes, cabelos brilhantes, dentes fortes e brancos. A idade avançava, eram conscientes de envelhecer e morriam sem os problemas e aparência do envelhecer.

O rejuvenescer tinha duas características especiais. A primeira era não se restringir aos mais velhos. Os jovens não ficavam mais jovens, porém nas cidades do vale não usavam porque não careciam de óculos aparelhos para os dentes botas ortopédicas aparelhos auditivos e outros consertos dos defeitos das pessoas. A segunda característica, mais importante que a primeira, era nem todas as pessoas mais velhas serem beneficiadas pelo rejuvenescer. Envelheciam sem rejuvenescer os maus os praticantes de crimes os que maltratavam pessoas e animais, os mesquinhos os que desprezavam os que reclamavam da vida e do trabalho no vale.

Os habitantes do vale não se ocupavam de procurar a solução do mistério. Todavia para os estranhos a descoberta poderia ser útil e proveitosa. Isso atraiu curiosos aventureiros e pesquisadores honestos. Não se demoravam porque desistiam de procurar a causa de retardar a velhice que também não os beneficiava. Os mais velhos não mudavam ao permanecer no vale. Se chegavam velhinhos, continuavam velhinhos até voltar às suas cidades de origem.

Testaram a água do rio das nascentes nas encostas das montanhas, coletaram e enviaram amostras a laboratórios de análises, descobriram que a água tinha características e propriedades comuns. Coletaram e analisaram amostras do ar em lugares e horários diferentes, os resultados indicaram ar limpo de poluição sem nada mais notável. A alimentação era simples e não especial. As montanhas em torno do vale eram parte de enorme cordilheira que formava outros vales habitados por pessoas que envelheciam como os outros seres humanos.

Como sempre tem a primeira vez, em certo dia chegou para testar teorias uma pesquisadora de 80 anos de idade que gostou tanto das cidades do modo de vida e das pessoas que desistiu da carreira de pesquisadora para viver no vale para sempre. Assumiu um cargo de professora em lugar de outra recém-falecida. Vivia como se tivesse nascido em uma das cinco cidades.

Ao chegar ao vale, o corpo da professora de 80 anos de idade mostrava os sinais de envelhecer, contudo nos meses seguintes principiou a transformar-se como nunca visto antes. Era visível e perceptível a mudança das condições vitais dela. O andar ficou mais firme os óculos foram abandonados a audição melhorou a voz ficou mais forte e jovial, ela rejuvenesceu recuperou o desejo sexual e namorou.

Foi assim que intuíram a solução do enigma. Não era a água o ar as energias das montanhas a alimentação os extraterrestres os animais os fantasmas dos antigos moradores os espíritos dos animais pré-históricos o espírito da montanha o espírito que paira sobre as águas o guardião das passagens o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa. Era o amor às pessoas ao lugar ao modo de vida à vida no vale a bondade e doçura de gente bondosa que praticava boas ações e distribuía bondade e afeição. O vale devolvia com amor o amor recebido.

~ ~ ~ ~ ~

Previsão do tempo

– Chove hoje?
– Por que deveria chover hoje?

– Se ontem choveu, por qual razão não chove também hoje?
– Se chove em um dia, tem de chover no outro?

– Não tem sido assim desde o início dos tempos?
– Se assim fosse, anteontem deveria ter chovido?

– Choveu no dia anterior a anteontem?
– Como eu saberia?

– Não tem acesso a um serviço de meteorologia?
– Meu serviço de meteorologia conta no dia seguinte, se choveu no dia anterior.

– Não é um serviço de previsão do tempo?
– Não. Eles se cansaram de prever. Agora, esperam chover. Riem muito se inundou onde choveu.

~ ~ ~ ~ ~

Aos três anos de idade

Nas primeiras vezes, foi um pouco difícil. Depois, melhorou. Por que o espanto? Acha fácil aprender a usar papel higiênico aos três anos de idade?

~ ~ ~ ~ ~

As roupas ao sol

Recolheu as roupas. Estavam lavadas secadas no varal pelo sol da manhã de verão. Bermudas blusas calças calcinhas camisas camisetas cuecas e saias, panos de enxugar pratos, toalhas de banho e de rosto, outros panos que a lava-roupas lavou.

Levou as roupas ainda quentes do sol para o quarto dela e as depositou sobre a cama. Levou para o seu quarto as suas roupas, dobrou-as e guardou-as. Em ordem decrescente de uso, embaixo as usadas recente. A organização economiza as roupas ao não usá-las vezes repetidas.

De volta ao quarto dela que não está em casa porque saiu como em todos os dias. Não sai de casa para trabalhar e sim passear talvez para estar longe dele.

Dobrou as toalhas e os outros panos. Carinhoso dobrou as roupas dela. Com amor? É possível. Não sabemos o que ele pensa nesse instante.

Sentou-se na cama, pegou as roupas dela e cheirou-as. Cheiravam a sabão em pó, amaciante de roupas e calor do sol. Não era o cheiro dela, mas era o possível pois não podia sentir o cheiro dela do qual não se lembrava.

Suspirou, tornou a dobrar as bermudas blusas calças calcinhas e saias, alisou as marcas do varal e saiu do quarto e da vida dela. Até o próximo dia de lavar roupas pessoais.

~ ~ ~ ~ ~

Aconteceu no parque

Tem histórias entre dois seres com começos simples que depois se tornam confusas. Começam com olhares escondidos, mudam para olhares diretos sorrisos sinais evidentes de interesse sorrisos interessados e diálogos. Quem sabe tem-se aí a origem de uma vida juntos. Se a relação mantém-se nos primeiros olhares, pode ser timidez vergonha ou porque um não percebeu o interesse do outro.

Nesta história os dois se olhavam, fazia tempo que se olhavam e estavam em situação de interesse mútuo. Viviam em um lugar escuro à noite, todavia as lâmpadas ganhavam da escuridão a disputa diária para escurecer e iluminar o lugar. Durante o dia não tinha escuridão porque a luz do Sol clareava os espaços entre eles, os objetos dos olhares de cada um.

Estava um dia ensolarado na cidade e no parque onde andavam e conversavam os dois funcionários da prefeitura:
– São essas as estátuas?
– Estas duas.

– A quem representam?
– Um casal dos tempos do império. Eram jovens ao serem copiados em estátuas.

– Para onde serão levadas?
– Para duas praças da cidade. Cada estátua para uma praça. Neste parque construirão uma escola.

– Serão separadas, depois de tantos anos em frente uma da outra.
– Assim será. São estátuas de pessoas mortas faz bastante tempo.

À noite, a luz do Sol sumiu porque a Terra girou. Falhou o mecanismo automático que detectaria o pôr do Sol e ligaria a energia elétrica do sistema de iluminação do parque. O interior do parque sumiu na escuridão da noite.

Ele desceu do seu pedestal de estátua, atravessou a alameda, estendeu a mão para ela que a segurou, apoiando-se nele para também descer do seu pedestal de estátua. De mãos dadas pela primeira vez após tantos anos de espera, afastaram-se do parque para sempre.

~ ~ ~ ~ ~

O aniversário

Um dia antes do seu aniversário cobriu os relógios e calendários da casa. No dia do aniversário não ouviu a transmissão do programa de música clássica no rádio e não olhou o televisor e não leu o jornal e não ligou o notebook e o telefone celular. Levantou-se antes do dia nascer no dia após o aniversário, descobriu os relógios e os calendários, ligou o rádio e o televisor, leu o jornal. À tarde descobriu ter ainda a mesma idade de dois dias antes.

~ ~ ~ ~ ~

A cadeira

Tinha uma escada e preferiu puxar para perto da estante a cadeira na qual subiu e apanhou o livro e olhou para baixo e viu a cadeira caída e o chão que se aproximava depressa.

~ ~ ~ ~ ~

Estilingue bem planejado

– Qual é a distância? 10 km?
– Mais.

– 100 km?
– Muito mais.

– 100 mil km?
– Mais.

– Um milhão de km?
– Da Terra ao Sol a distância é maior que 1 milhão de km.

– Quanto?
– Quase 150 milhões de km.

– É longe!
– Sim. A pedra do seu estilingue jamais atingiria o Sol.

– Nem se eu puser borrachas duplas de cada lado?

~ ~ ~ ~ ~

O circo nº 5

Anos antes deste em que estamos, nesta cidade teve um circo muito pobre. De tão pobre só pagava o salário de um artista. O único artista executava todas as funções. Era atirador de facas e alvo, não era domador de leões porque não tinha leões no circo, era equilibrista mágico malabarista mestre de cerimônias palhaço porteiro e trapezista. O circo pobre não tinha arquibancadas. Os espectadores quase nada pagavam para entrar e ficavam em pé em volta do picadeiro.

Certo dia, o único artista do circo cansou-se da solidão. Empregou-se em um banco onde trabalhavam outras pessoas e onde conheceu uma moça com a qual se casou e tiveram quatro filhos, uma menina e um menino e um casal de gêmeos. Quando cresceram, nenhum dos quatro foi trabalhar em circo.

~ ~ ~ ~ ~

Autoescola

Agora você engata a primeira marcha do carro e sai. Volte aqui! Era para sair com o carro e não sair do carro.

~ ~ ~ ~ ~

Reencontro

Quando se encontraram, sabiam que não seria para sempre. Tinham se reencontrado, por acaso, por um desses meios estranhos de contato impessoal dos tempos modernos. Coisas como email Facebook Messenger SMS telefone Twitter e WhatsApp.

O tempo do namoro ficara no passado, escondido por vidas inteiras com uniões e desuniões filhos netos responsabilidade solidão e tristeza. Trocaram mensagens e só se viram nas letras escritas e lidas. Decidiram encontrar-se, não sabiam bem para quê. Tinham para escolher afeição amor angústia e saudade.

Quando se perceberam sós, abraçaram-se e nenhum dos dois viu as lágrimas nos olhos do outro.

~ ~ ~ ~ ~

Disco voador

– Aquele disco voador caiu perto – isto falou o primeiro terrestre.
– Era um meteorito e não um disco voador – já isto falou o segundo terrestre.

– Meteoritos têm luzes coloridas em toda a volta e som de música e risadas?
– Vamos olhar mais de perto.

– Não disse que era um disco voador? Pousou e não caiu.
– O som da música e das risadas está mais alto. Vem da porta aberta da qual sai o som e um tripulante.

– Olá, terráqueos. Onde podemos comprar mais cerveja porque a nossa acabou? – isto falou o tripulante do disco voador.
– No supermercado onde não serão atendidos com essa aparência – este é o primeiro (terrestre).

– Podem comprar para nós?
– Sim. Precisa de dinheiro para pagar as compras.

– Empreste-me uma nota do seu dinheiro.

Foi e retornou o tripulante (do disco voador):
– Imprimi 100 destas notas. É suficiente?
O primeiro (terrestre):
– Dá e sobra. Logo estarei de volta.

O primeiro (terrestre) foi ao supermercado. O segundo (terrestre) ficou a prosear com o tripulante (do disco voador). Voltou das compras o primeiro (terrestre). O tripulante (do disco voador) agradeceu:
– Obrigado por comprar a cerveja o pão o queijo o salaminho e os salgadinhos. Querem vir conosco? Celebramos uma união. Nossas festas são animadas e duram vários dias.

~ ~ ~ ~ ~

A seca

Como tinha muito tempo sem chover, decidiu buscar água nas nuvens. Pegou um balde uma escada e subiu. Ao chegar ao último degrau puxou a escada para cima e reiniciou a subida. Chegando nas nuvens, encheu o balde com água, desceu até o primeiro degrau da escada puxada para baixo até chegar ao chão onde sua proeza foi aplaudida. Outros subiram com o mesmo método e trouxeram água das nuvens. Até alguém levar uma mangueira que prendeu na nuvem para produzir água corrente. Se a capacidade da nuvem era esgotada alguém subia e prendia a mangueira em outra nuvem cheia de água. Um professor prendeu algumas nuvens com cordas e puxou-as para baixo para ensinar às crianças a arte de capturar água das nuvens.

~ ~ ~ ~ ~

O navio nº 3

Abriu a janela do camarote do navio e entrou água, muita água. Agora só falta entrar um tubarão no meio dessa água porque golfinhos entraram vários. Na próxima viagem irei de avião porque o pior que pode acontecer é entrar um urubu pela janela.

~ ~ ~ ~ ~

O país das fadas

Faz muitos anos, no país das fadas teve a Convenção Anual dos Personagens dos Contos de Fadas e Congêneres. O tema da Convenção era a pergunta “Quem disse terem vivido felizes para sempre?”.

Estavam a Bela Adormecida, a Bela e a Fera, a Gata Borralheira, a Pequena Sereia, Aladim e os 40 Ladrões, Branca de Neve o Príncipe e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho o Caçador a Vovó e o Lobo, João e Maria, João e o Gigante do Pé de Feijão, o Mágico de Oz, o Patinho Feio, o Príncipe Valente, o Soldadinho de Chumbo, os Três Porquinhos e o Lobo e Rapunzel. Além de muitos outros personagens de contos de fadas, fábulas e séries da TV.

No último dia, votaram e aprovaram as decisões da Convenção: fundariam um partido político para lançar candidatos nas próximas eleições. Assim fizeram. Fundaram o Partido dos Personagens dos Contos de Fadas e Congêneres, lançaram candidatos para todos os cargos eletivos. Os candidatos do partido foram eleitos para os cargos principais. Tendo assumido o poder do país das fadas, distribuíram os cargos públicos comissionados entre os correligionários e aí sim viveram felizes para sempre.

~ ~ ~ ~ ~

Visita de cortesia

– Céus! Tem um leão e outros leões, leoas e leõezinhos!
– Um território de leões tem leões leoas e leõezinhos!

– O que viemos fazer?
– Uma visita de cortesia.

– Zebras fazem visitas de cortesia?
– Sim.

– Zebras fazem visitas de cortesia a leões?
– Sim. Estamos de passagem na nossa migração anual no Serengeti e viemos cumprimentar os habitantes da região.

– Não me parece boa ideia. Os gnus e as gazelas concordam comigo.
– Gnus e gazelas não sabem de nada. Seja educada. Somos visitas.

– Os leões as leoas e os leõezinhos estão sorrindo e lambendo os beiços.
– Percebe agora como as visitas de cortesia são importantes para a paz nas comunidades?

~ ~ ~ ~ ~

O fantasma nº 5

Nunca dissera a ninguém que era um fantasma porque não o acreditariam. Não parecia um fantasma não se comportava como fantasma e não se vestia como um fantasma. Para atrapalhar estava vivo. Ninguém acredita em fantasmas vivos.

~ ~ ~ ~ ~

Ela e ele

  • Ela foi, ele foi.
  • Ela o viu, ele a viu.
  • Ela correu, ele a alcançou.
  • Ela não gostou, ele gostou.
  • Ela perdoou, ele pediu.
  • Ela o alcançou, ele correu.
  • Ela gostou, ele não gostou.
  • Ela pediu, ele perdoou.
  • Ela enviou, ele recebeu.
  • Ela recebeu, ele respondeu.
  • Ela gostou, ele veio.
  • Ela cozinhou, ele comeu.
  • Ela gostou, ele ficou.
  • Ela veio, ele gostou.
  • Ela comeu, ele cozinhou.
  • Ela ficou, ele gostou.
  • Ela viu o filme, ele viu o filme.
  • Ela amou o filme, ele gostou do filme.
  • Ela gostou da ópera, ele amou a ópera.
  • Ela ouviu a música, ele ouviu a música.
  • Ela aceitou o convite, ele a convidou para dançar.
  • Ela dançou com ele, ele dançou com ela.
  • Ela queria, ele queria.
  • Ela aceitou, ele propôs.
  • Ela propôs, ele aceitou.
  • Ela quis, ele quis.

~ ~ ~ ~ ~

Desalento

Tu te enganaste. Em algum dia da tua vida, te enganaste de pessoa com a qual passaria a vida. É certo, não te enganei de propósito. Não posso ser culpado por parecer outra pessoa aos teus lindos queridos e amados olhos.

Essa é a realidade. Eu te amei como consegui, com afeição dedicação angústia e tristeza por causa do teu afastamento crescente. Em algum minuto não detectado, tu percebeste o engano e decidiste consertá-lo sem cuidar do custo do dano que causaria.

Eu nunca soube o que esperavas de mim. Tu nunca o disseste. Também jamais disseste que me amava, por não ter amado? Nunca disseste que me desejava, por não ter desejado? Todos esses anos ao teu lado sem me sentir amado e desejado não foi uma forma agradável de viver.

No teu raciocínio peculiar, eu devia descobrir por meus próprios meios o que te faria feliz e te faria me amar. Então, tentei te amar te adorar e te desejar. Em vão porque te afastavas mais e mais. Minhas tentativas angustiadas desarvoradas e desorganizadas foram inúteis. Te afastaste tanto que perdi o direito de te amar, de te chamar meu amor, de tocar em ti e te desejar.

Não te peço que voltes, não tenho esse direito e não tens para onde voltar porque nunca estiveste de fato comigo.

~ ~ ~ ~ ~

Visita

– Boa tarde, senhora. Seja bem vinda. Entre, por favor. Aproxime-se do fogo da lareira. Está frio lá fora. Sente-se nesta poltrona, é a mais confortável. Aceita chá? Está quente e agradável ao sabor. A quem tenho a honra de saudar e receber em minha casa?
– Percebo-o não me reconhecer. Nunca me viu? Nunca esteve na corte?

– Temo não reconhecê-la, senhora. Desculpe-me por olhá-la com admiração. Rendo minhas homenagens à sua beleza. Sabe, é raro eu viajar se trabalho na maior parte do tempo. Sou escritor. Nunca fui à corte e jamais participei dos bailes no castelo da Rainha.
– Agradeço o elogio à minha beleza. O senhor é um homem bonito e tem sorriso agradável de olhar. Sou a Rainha.

– Sinto-me honrado com a presença da minha Rainha. Meu sorriso é um tributo à senhora e à sua beleza. Como tem passado, Vossa Majestade?
– Estou bem, obrigada. E ao senhor, senhor conde, como lhe tem sido os dias?

– Em paz, senhora. Em paz com meus raciocínios pensares e escritos. Mas a que devo a importante visita de Sua Majestade?
– Venho lhe comunicar sua libertação.

– Libertação, senhora? Se não estou preso!
– Está preso a uma união.

– Sou casado, tem razão Vossa Majestade. Mas temo não considerar como uma prisão esse casamento.
– A libertação não é para si e sim para sua mulher.

– Deveras? Jamais ouvi dela tal desejo. Por correto afirmo ter ouvido poucos desejos dela.
– Ela temia magoá-lo ao lhe dizer.

– Não me magoaria. Já o esperava. Os modos de ser e agir dela não permitia dúvida. É curioso, o temor dela tem aparência de ironia.
– Pois ela me procurou com o pedido de livrá-la do senhor e do compromisso. Pediu-me que o informasse como se o senhor fosse libertar-se, quando ela é que deseja a liberdade.

– Que propõe, Vossa Majestade?
– Aceite sua falsa liberdade e conceda a real liberdade à sua mulher.

– Ouço e obedeço, senhora. De fato, a libertação é para ambos, para mim e para minha ex-mulher, assim a chamarei por enquanto. Depois não a chamarei de mais nada.
– Assim seja. A partir de agora, é um homem solteiro, senhor conde. Sua ex-mulher também é solteira para casar-se com o Duque, seu melhor amigo.

– Espero não ser convidado a comparecer às bodas de minha ex-mulher com o Duque. Prefiro manter intacta minha dignidade.
– Cuidarei que não seja convidado. Apenas, mude-se porque o Duque quer morar com sua ex-mulher, mulher dele após se casarem, nesta casa que ao senhor pertencia até nascer o dia de hoje quando comecei minha viagem.

– Não me importo de me mudar. Não me apego a lugares e tenho pouco a carregar. Sou de poucas posses materiais. Livros, ferramentas, alguns guardados, lembranças de outros tempos e poucas roupas.
– Venha comigo. Tem à sua espera no meu castelo um lugar pronto e preparado para recebê-lo. Li os seus livros, quero vê-lo trabalhar e conviver com sua inteligência e generosidade. Além de moradia ofereço-lhe um salário mensal para que escreva minhas memórias. Se aceitar minhas ofertas, é claro.

– Aceito, agradecido e encantado. Daqui a alguns minutos, terei juntado minhas coisinhas e poderemos partir.
– Ótimo. Abrace-me, meu amigo. Oh, nós nos daremos bem. Gosta do meu vestido?

– É lindo o seu vestido assim como é linda Vossa Majestade.

~ ~ ~ ~ ~

A espingarda

Comprou uma espingarda de pressão que atira como outras espingardas, a pressão do nome é porque é muito pesada. Ao levantá-la pressiona contra o solo o atirador que sustenta o peso próprio e o da espingarda. É por essa e outras razões que não a levam nas caçadas. Precisariam de um carrinho de mão de pedreiro para carregar a espingarda de pressão.

~ ~ ~ ~ ~

Amazônia

Meninos indígenas habitantes da Amazônia conhecem as árvores da floresta. Sobem nelas para pegar frutas e caçar animais nos ramos e olhar para longe.

Uma das grandes árvores da Floresta Amazônica é a Sumaúma, assim nomeada em Tupi, também conhecida pelos índios como mãe-das-árvores, árvore da vida ou escada do céu. São árvores com alturas entre 60 e 70 metros de altura e algumas sobem a 90 metros. Era desta altura a Sumaúma pela qual encantou-se o menino. Dias antes, ele e outros meninos da tribo viram a árvore. Admiraram a árvore cuja parte mais alta da copa não conseguiam ver. O menino foi enfeitiçado pela árvore. Teve uma ideia e voltava para colocá-la em prática. Rodeou a árvore algumas vezes. Acariciou as sapopembas, como são conhecidas as enormes raízes da Sumaúma. Começou a subida.

Subia um pouco, parava e olhava para o trabalho realizado. Não se ocupava com o trabalho por realizar. Dizia preferir olhar o trabalho feito pois o trabalho por fazer era incerto no futuro misterioso. Parou em vários pontos da subida para olhar as formigas. Elas não o picavam porque passara na pele um repelente do pelo pajé da tribo para proteger as crianças pequenas quando brincavam no chão.

Assim subiu o menino. À medida que diminuía o diâmetro do tronco, sabia aproximar a copa da árvore. Até que viu a Floresta Amazônica do ponto mais alto de uma Sumaúma de 90 metros de altura! O espetáculo da floresta soberba e soberana era emocionante. Sorriu riu em silêncio riu alto gargalhou chorou e gritou para os macacos-da-noite intrigados. Acomodou-se sentado em um galho até o fim da manhã e comeu algumas frutas do embornal.

Engana-se quem pensar que começou a descida. Ao contrário, recomeçou a subida, não mais na árvore, mas no espaço, alimentado pelas frutas e pela energia da árvore. Continuou a subir e a parar para olhar para baixo. Ao chegar às nuvens, viu a Floresta Amazônica, o rio Amazonas, todo o tanto de mundo que seus olhos conseguiam ver. Não parou. Continuou a subir. Na Lua, viu a Terra azul e redonda, parte na noite e parte no dia. Cansado, dormiu e foi acordado por São Jorge a passear com o dragão e o cavalo que convidou o menino para jantar.

~ ~ ~ ~ ~

Mães, filhas e filhos

Comprou 16 pares de sapatos de passeio do mesmo tamanho para a filha adolescente. Para a filha de pés chatos que aprendia a andar comprou 16 pares de botinhas ortopédicas de mesmo tamanho. De volta das compras a mamãe centopeia disse para a mamãe aranha:
– Gastei um dinheirão na loja de calçados. Sorte a sua que só tem de comprar quatro pares de chuteiras para o seu filho jogador de futebol.

Respondeu a mamãe aranha:
– Os filhotes machos gastam os sapatos mais depressa que as fêmeas. Você não imagina quantas vezes tive de comprar chuteiras no campeonato.

Disse a mamãe pata:
– Pois acreditam que minha filha quer um par de sapatos de salto para não andar como pato ao sair da água?

Disse a mamãe crocodilo:
– Meu filho me fez gastar um dinheirão no dentista porque não escova os dentes após as refeições.

A mamãe colibri:
– Minha filha adolescente declarou que quer beijar outros colibris porque se cansou de beijar flores.

Nesse segundo, uma gritaria entre os girinos obrigou mamãe sapo a saltar na água para acalmar os filhotes, sob os olhares de aprovação das outras mamães que foram cada qual aos seus afazeres a pensar no trabalho que dão os filhos.

~ ~ ~ ~ ~

O fim do mundo

Pode me dar licença, por favor? Quero chegar perto da borda do precipício. Dizem que de lá se vê o fim do mundo. Se conseguir, irei ao fim do mundo para descobrir se tem um fim do fim do mundo. Do fim do mundo irei ao fim do fim do mundo em busca do fim do fim do fim do mundo.

~ ~ ~ ~ ~

A decisão

Andava fazia tempo pela estrada de terra larga e deserta. Quase um dia inteiro de marcha e não vira uma pessoa, um veículo e um animal. Durante algum tempo, andou de cabeça e olhos virados para o solo e não viu sequer formigas. Nas áreas de planície, o vento provocava a poeira em redemoinhos pouco duradouros porque só tinha poeira para brincar.

Então, chegou à encruzilhada com caminhos em frente, à direita e à esquerda semelhantes mas não iguais se são três. As instruções não recebidas não indicariam o caminho de seguir. Anoitecia e logo não conseguiria ver nada na escuridão da noite sem luar.

Montou a barraca no meio da encruzilhada, juntou gravetos para a fogueira, esquentou a lata de comida que comeu e escutou no rádio portátil o concerto de Bach irradiado em ondas curtas por uma das rádios da BBC inglesa. No fim do concerto, enterrou a lata vazia de comida, lavou a colher com um pouco de água do cantil, bebeu o resto da água, amanhã teria de encher o cantil com água do riacho cujo ruído parecia ouvir, desligou o rádio portátil que guardou embrulhado em panos na mochila. Recolheu-se à barraca e dormiu.

Acordou antes de nascer o dia. Acendeu a fogueira apagada durante e noite, esquentou a lata de café, molhou no café o pão duro que tirou da mochila, bebeu o resto do café, apagou a fogueira, enterrou os restos da fogueira e a lata de café junto com a lata de comida da noite de ontem, desmontou a barraca e olhou para a esquerda para a direita e para a frente na encruzilhada.

Com o binóculo viu mais à frente o caminho da esquerda entortado para a direita e por sua vez o caminho da direita entortado para a esquerda. Não seguiu o caminho da esquerda nem o da direita. Agiu como se não tivesse encruzilhada e seguiu em frente na mesma direção de onde viera.

Mais à frente no tempo e na distância, sempre tem mais à frente no tempo ou na distância, atingiu outra encruzilhada em posição contrária da anterior. Nesta chegavam três caminhos, um da esquerda, um da direita e outro de trás, este último de onde viera. Ela pensou que o caminho chegado da esquerda era o saído para a esquerda e curvado para a direita na encruzilhada anterior. O chegado da direita era o saído para a direita e curvado para a esquerda. Com o binóculo viu que a estrada terminava mais à frente, mesmo embaixo de uma placa onde leu: FIM.

~ ~ ~ ~ ~

Desamor

No dia em que ele se foi, ela nada sentiu. Foi firme e implacável. Disse-lhe que não só podia como devia ir-se porque não o amava, nunca o amara, o desprezava e o considerava um perdedor inútil. Ficaria melhor sem ele, um estorvo na vida dela. Ela pensava e até queria, que ele retrucasse e gritasse com ela para justificar suas palavras cruéis, mas ele nada disse. Ficou todo o tempo em silêncio, com a cabeça abaixada, concentrado no trabalho de reunir suas coisinhas, como ele as chamava. O notebook, os periféricos do notebook, livros e ferramentas, alguns guardados e as roupas. Quem o viu carregar aquele pouco de objetos pessoais não imaginava que ali tinha mais de 40 anos de vida com ela.

Nos primeiros meses, ela gostou da liberdade. Doou aquilo que ele não levara, limpou a casa dos vestígios dele, como uma pessoa pode desaparecer em tão pouco tempo? Entretanto, nem tudo foi tão simples assim. Num dia uma mensagem estranha na tela do monitor do computador, um problema que ele resolveria sem ela pedir. No outro, queimou uma lâmpada que ela não sabia como trocar. Uma máquina que ele consertaria falhou. Ela decidiu não necessitar de um marido para serviços e contratou profissionais para cuidar dos problemas.

Então, sentiu falta da música. Ele não era músico, não tocava corneta piano tambor violão e violino, mas ouvia música todo o tempo. Conhecia músicas letras melodias intérpretes. Cantava e vibrava com a música tocada pelas rádios de internet sintonizadas no notebook. Sabia escolher as músicas as rádios e os artistas, interesses com os quais ela não se ocupava.

Sentiu falta dele. Falta de sua alegria, da generosidade, da bondade e atenção com ela e com os filhos. Não era por acaso que ele fosse tão querido por outras pessoas. Viam nele o que ela não vira.

~ ~ ~ ~ ~

O circo nº 6

De volta às jaulas depois do fim da sessão da noite, os dois leões do circo conversavam:
– Qual a sua opinião do novo domador?
– Saboroso! Ficaria mais gostoso com mostarda e uma cerveja gelada.

~ ~ ~ ~ ~

Mudanças de opinião e conteúdo

Volta e meia mudavam de opinião e de conteúdo. Seria insegurança ou incerteza? Organizaram reuniões e congressos e simpósios para discutir o problema sem nada concluírem. Parecem mesmo destinadas a mudar. As colegas de profissão por outro lado têm convicções firmes. Mantém a opinião e o conteúdo. Todo o tempo. Qual seria o problema de umas e o segredo das outras? Um programador resolveu. Inexiste problema ou segredo. Acontece de serem umas as variáveis e as outras as constantes de um programa de computador. As variáveis variam de conteúdo e as constantes mantêm o conteúdo. Variáveis e constantes não têm opinião.

~ ~ ~ ~ ~

Trabalho

Trabalho ruim este para fazer. Quem vê sem atentar acha ser fácil porque apenas tenho de carimbar os papéis na esteira rolante. Entretanto antes de carimbar cada papel bato o carimbo na almofada de tinta porque o carimbo velho tem de deixar uma marca nítida no papel. Este trabalho deve mudar.

Fiz bem em reclamar. O trabalho antes ruim agora está melhor. Aposentei a almofada de tinta e o carimbo velho porque recebi um carimbo autoentintado.

Meu trabalho reduziu-se a manter o braço levantado, esperar passar um papel na esteira e abaixar o braço para carimbá-lo, levantando o braço em seguida. Trabalho fácil este para fazer.

~ ~ ~ ~ ~

Impasse

Você tem razão, estamos parados um de frente para o outro em impasse ou situação sem saída. Ambos queremos passar pela mesma estrada, você no sentido norte, eu no sentido sul. Temos um impasse porque viajamos em sentidos opostos. Precisamos raciocinar e resolver o problema.

Achei uma possível solução. Esta estrada tem duas pistas, não é? Estamos na mesma pista. Fazemos de conta que a pista à sua direita e à minha esquerda é a pista norte, aquela na qual se vai no sentido norte. A pista onde estamos é a pista sul para as viagens no sentido sul. Se você passar para a pista norte, seguirá viagem no sentido norte. Por minha vez, eu seguirei viagem no sentido sul porque estou na pista sul.

Não gostou da solução? Então, fazemos outro de conta. Esta será a pista norte das viagens no sentido norte e a outra será a pista sul das viagens no sentido sul. Mudo de pista e ambos seguimos viagem porque resolvemos o impasse. Desejo-lhe boa viagem. Adeus.

Puxa vida, esta foi uma situação complicada! Dois elefantes em viagem em sentidos opostos na mesma pista da mesma estrada! Ainda bem que não tinha outros animais em viagem. Teria congestionado o caminho. Apenas os colibris passariam com folga porque viajam em estradas de uma ou duas pistas. Viajam por cima da estrada.

~ ~ ~ ~ ~

Bruxa

Um dia, revelou-se:
– Sou uma bruxa malvada!
Que susto e que medo. Teve debandada geral. Todos fugiram. Bem, nem todos. Ficou uma menininha de 4 anos de idade que se aproximou da bruxa, puxou-lhe a ponta da saia e perguntou:
– Que é uma bruxa malvada? Estou com fome. Tem no seu bolso um pedaço de pão? Tem um copo de leite na sua casa?

~ ~ ~ ~ ~

Informações

– Quando passa o próximo trem?
– Por aqui, nunca.

– Por que?
– Porque esta é uma estação rodoviária.

– Passam ônibus?
– Também não.

– Não estamos numa estação rodoviária?
– Estamos numa estação rodoviária desativada.

– Onde estão as estações rodoviária e ferroviária ativas desta cidade?
– Em nenhum lugar, esta é uma cidade desativada.

– Você é um guarda numa cidade desativada?
– Não sou um guarda, sou o fantasma ativo de um guarda desativado.

~ ~ ~ ~ ~

Mensagens de texto

Reencontraram-se. O reencontro não foi real, em pessoa, foi virtual, através de uma rede social. Foram namorados, quando adolescentes, o que não eram mais, isto é, não mais eram adolescentes. Ao contrário, muitos anos passaram e ambos tornaram-se pais e avós. Ela era mãe e avó, ele era pai e avô, não dos mesmos filhos e netos. Cada qual tinha seus próprios filhos e netos. Se fossem pai e mãe e avó e avô dos mesmos filhos e netos, não teriam de se reencontrar.

Os anos decorridos marcaram-nos. Eles envelheceram e ainda viviam mas distantes da aparência bonita e agradável aos olhos da adolescência. Não se viam como físicos bonita e bonito. Claro que sabiam que o fim da beleza devia-se à idade, mas o que importava mesmo era a fim da beleza nunca mais revivida.

Trocaram mensagens de texto, cada vez mais íntimas e não demorou para reavivarem a antiga paixão e desejo. Decidiram reencontrar-se em pessoa e com esta decisão teve um problema. Ela temia não fazer boa figura para ele que temia não fazer boa figura para ela.

Ela e uma amiga um pouco mais jovem e bonita eram consideradas parecidas. Ele e um amigo um pouco mais jovem e bonito eram considerados parecidos. Por isso, não é estranho que tivessem a mesma ideia, enviar em seu lugar a amiga e o amigo. Combinaram que no encontro falariam apenas do futuro e não do passado de ambos, instruíram a amiga e o amigo e mandaram-nos ao encontro.

A amiga dela e o amigo dele eram sós no mundo, tanto se encantaram uma com um que prolongaram o encontro pelo dia e noite e dia e noite seguintes. Encontraram-se em outros dias e outras noites, os encontros ficaram mais compridos, a convivência em maior tempo, apareceu um pouquinho de amor que cresceu até que decidiram que não queriam viver distantes, foram morar na mesma casa onde estão até hoje.

Ela e ele voltaram às mensagens de texto, confessaram as trocas de pessoas, confessaram os temores, trocaram fotos, não se espantaram com a aparência mútua, encontraram-se na casa dela, ela achando-se velha e feia, ele achando-se velho e feio, conversaram muito, acabaram o dia na cama onde ela dormira sozinha, abraçados e felizes, encontraram-se outras vezes, decidiram que queriam viver juntos e foram morar na casa dele onde estão até hoje.

~ ~ ~ ~ ~

A vendedora

Conseguiu o emprego de vendedora e sua mãe e seu pai alegraram-se. Sua jovem filha admitida como vendedora do grande atacadista da cidade era bom indício de um promissor futuro profissional. A empresa, já contamos, é um atacadista em operação anos antes de nascer a jovem vendedora recém-contratada que vende de tudo e vende bastante. São tantos produtos à venda de modo a ser sempre possível encontrar algum do interesse do comprador.

Começou a vender poucos produtos porta a porta no bairro onde morava com os pais. Era a tática da empresa para treinar os novos vendedores na extensa lista de produtos, facilitar o trabalho na área de vendas familiar, incentivá-los a se esforçar para vender e, em última análise, testá-los.

A jovem era esforçada trabalhadora e boa vendedora. Todas as manhãs, pegava na empresa a sacola de produtos para mostrar aos clientes. Vendia e anotava os pedidos. Os produtos comprados eram entregues pela empresa em outro dia. Logo aprendeu que as pessoas queriam comprar e bem depressa receber os produtos comprados. Por isso, trocou a sacola por um carrinho de feira onde podia levar vários exemplares de cada produto para vender entregar e receber o cheque de salário.

O gerente dos novos vendedores entusiasmou-se tanto com a jovem vendedora de todos os produtos do carrinho de feira que lhe deu um carro da empresa para ela carregar os produtos em cada manhã porque vendera os do dia anterior. Ele afirmava ter ela nascido para ser vendedora. Era outra maneira de dizer que gostava de negociar e convencer as pessoas. Incentivou-a a estudar vendas e oratória porque acreditava que em algum dia não distante ela falaria para audiências de mais de duas pessoas.

Assim aconteceu. Na convenção anual da companhia, ela foi convidada a contar a todos as suas técnicas de vendas e persuasão. Não se intimidou, apresentou-se, foi aplaudida com entusiasmo e promovida nos dias posteriores à convenção. Como em promoções posteriores, nesta também ela saltou etapas que um vendedor comum enfrentaria. Deixou as vendas porta a porta dos produtos do porta malas do carro, subiu seu salário e passou a vender em toda a cidade para grandes lojas, redes de supermercados e outros atacadistas.

A evolução da medicina e farmácia reduziu as mortes infantis e aumentou as idades dos adultos. As crianças continuavam a nascer e os velhos viviam mais, de modo que o povo crescia em número, causando a inevitável necessidade de produzir cada vez mais alimentos. Por fim, chegaram ao dia a dia da Terra o excesso de gente e a falta de comida, empurrando a espécie humana para conflitos e para as viagens espaciais para grande número de pessoas.

A produção de alimentos da Terra entrou no limite da insuficiência e as fazendas em Marte entraram em operação e a Terra continuou a alimentar a sempre crescente população. As fazendas em Marte eram automáticas, mas as máquinas careciam de manutenção e técnicos que para lá se mudaram com suas famílias com crianças que queriam alegria bibliotecas ensino escolas esportes professoras e professores. Assim foi que as famílias dos fazendeiros e as dos técnicos em manutenção das máquinas colonizaram Marte.

Recusou aposentar-se para continuar a vender não mais na Terra, mas nos entrepostos da companhia em planetas colonizados. Ela ganhara bastante dinheiro com o seu trabalho, dinheiro do qual jamais desfrutou. Dava todo os ganhos ao pai que comprava bens em nome dela e sua fortuna aumentava embora pouco usada. Na cidade onde nascera, tinha seu quarto na casa dos pais onde os visitava pouco porque estava na maior parte do tempo em viagem para outras cidades, estados, países e mundos. Vivia em hotéis na Terra e nos espaçoportos, cada vez mais longe.

A companhia pediu-lhe visitasse o entreposto de um pequeno exoplaneta. Da janela do hotel onde sempre escolhia hospedar-se nos andares mais altos para olhar as cidades através das janelas, viu a cidade, as grandes casas, as ruas comerciais e residenciais e longe um pedaço da paisagem ganhou sua atenção. Levava na mala em todas as viagens um binóculo potente comprado anos antes após receber o primeiro salário. Pois o bom e velho binóculo ajudou a identificar o objeto como sendo uma pequena casa.

Na manhã seguinte, chamou um táxi para ir ver a casinha de perto. Encantou-se com a casa, o jardim, os ruídos de crianças da escola infantil próxima, o sorriso dos vizinhos que a saudaram como se a conhecessem de outra vida. O táxi levou-a à dona da casinha agora moradora de uma enorme casa moderna cercada de muros altos e surpreendida que alguém se interessasse pela casinha na qual fora feliz nos primeiros anos de vida no planeta.

Comprou a casinha, comprou poucos móveis para substituir os da antiga dona que doou, comprou ferramentas de jardinagem, uma cadeira de balanço e uma mesa grande para a varanda, encheu o quintal de brinquedos para crianças, voltou à Terra e aposentou-se da companhia, transferiu todos os seus bens para instituições cuidadoras de crianças sem pais, visitou os túmulos da mãe e do pai no grande cemitério da cidade e comprou uma passagem de ida para o pequeno exoplaneta.

Ao sair do espaçoporto, foi ao entreposto da companhia onde comprou produtos e utensílios de cozinha para fazer pão, bolo, tortas, sorvetes, sanduiches e outras delícias. Já em casa, produziu bolo pão sanduiches sorvete e torta. Encheu a mesa da varanda e sentou-se na grande cadeira de balanço para esperar o fim das aulas na escola infantil que traria à sua casa as pessoas com as quais ela sempre quisera conviver.

~ ~ ~ ~ ~

Decisão

Subiu a encosta do morro alto e olhou para o outro lado, não para o lado da cidade. Com alguma pressa iniciou a descida da encosta do morro alto não para o lado da cidade e sim para mais longe de casa.

~ ~ ~ ~ ~

Tarde demais

– Você voltou! – isto falou quem ficou.
– Sim, voltei. – já isto falou quem voltou.

– Foi-se faz tempo.
– Mas voltei.

– Que estranho. Por que voltou?
– Senti saudade.

– Voltou por sua causa e não por mim. É mesmo estranho.

– Tem outra pessoa a ocupar o meu lugar na sua casa na sua vida e no seu amor? – agora falou quem voltou.
– Não. – esta a resposta de quem ficou.

– Então me aceita de volta?
– Também não.

– Posso ficar?
– Sim.

– Mas não me aceita de volta.
– Não.

– Não mais me ama?
– Ainda te amo demais.

– Então, por que me rejeita?
– Porque te amo, entretanto você não me ama.

– Por que diz isso?
– Você nunca me amou, nunca me amou nem um pouco, menos ainda quanto te amo.

– Não sei se te amo ou te amei.
– Amor não se sabe, se sente.

– Tem razão. Ficarei hoje porque não tenho outro lugar para ir. Amanhã irei embora para sempre.
– Faça isso.

– Sentirá minha falta quando me for?
– Não.

– Quanta pena sinto ao te ouvir. Tinha esperanças…
– Não sinta pena. Apenas vá e não volte.

~ ~ ~ ~ ~

O agente secreto nº 2

– Quem é aquele que ali vem?
– Vestido de roupa de cor preta com capa de cor preta chapéu de cor preta e óculos com lentes de cor preta? Deve ser um vampiro.

– Vampiros só saem à noite.
– No meio da manhã na praia e debaixo do sol do verão, não pode mesmo ser um vampiro. Um agente secreto?

– É um agente secreto!
– Como sabe?

– Carrega uma placa ‘Sou um agente secreto à procura de emprego como agente secreto’.

~ ~ ~ ~ ~

Um provocador

Era uma vez um arreliento ou arreliante briguento curioso encrenqueiro inventor pesquisador professor provocador e produtor de teorias metodologias teses textos e artigos sempre com opiniões contrárias às vigentes. Não tinha lei moderna antiga ou recente excelente sofrível ruim ou péssima, opinião proposta regra e teoria livre de ele investir contra. As aceitas e admitidas pela maioria da comunidade acadêmica eram as preferidas dos seus ataques ácidos e destruidores, bem escritos definidos fundamentados e raciocinados. Se concordavam com suas opiniões, ele as alterava invertia e mudava.

Não era pessoa amarga ressentida triste ou violenta. Nada disso. Era um homem afável alegre amigável bondoso brincalhão combativo espirituoso e risonho .

Foi assim até os colegas e oponentes brincalhões passarem a concordar com todas as suas investidas. Publicavam artigos onde concordavam com tudo que ele escrevia. Os primeiros foram seguidos por outros que gostaram da brincadeira até que ele aposentou-se, deixando-os sem ter quem provocar. Dele foi a última palavra.

~ ~ ~ ~ ~

Saudade

Ele estava em toda parte, o que a incomodava e aborrecia. Um dia acordou preparada para irritar-se e lembrou-se que não mais o veria. Sentiu saudade e não alívio.

~ ~ ~ ~ ~

Desalento

Os tempos dos dois tiveram um princípio. Nesses tempos ela o recebia sem festa, quando ele chegava, mas ele fazia a festa por ambos. Ela esperava os modos de ser e agir dele ou seria indiferença? Ele não percebia e ela não contou.

Após tempo passado, ao se intrigar com atos dela ele deduziu que o objetivo era subjugá-lo, daí a indiferença calculada e não natural. Sentiu-se usado sem determinar quanto e qual mal aquilo causava. Diminuiu com desalento a festa para ela ao chegar. A acolhida dos filhos substituía a dela.

Inteligente, ela percebeu a mudança dele, intensificou a indiferença, transformou-a em rejeição que evoluiu para desprezo. Se não subjugava, desprezava porque desprezo é destruidor. Não notava, se o fazia não se importava, que o desprezo destrói tanto o desprezado quanto o desprezador.

Por razões que talvez contou para outras pessoas, jamais para ele, ela não abandonou o objetivo inicial. Entretanto, pesaroso pela vida desperdiçada, ele mudou. Esteve em vários estágios e aterrissou na indiferença. Não resolvera o problema insolúvel que não deveria ser insolúvel, mas tinha de tentar resolver os outros da fila jamais terminada.

Ela ainda o despreza e quer subjugá-lo. Se ele a ignora, ela usa subterfúgios para chamar-lhe a atenção. Ele cede, entre divertido e curioso com a evolução da situação. Ela não sabe que ele cede porque não se importa mais com ela, com o desprezo a atenção e o amor dela.

~ ~ ~ ~ ~

Colibris nº 2

– Aonde voam?
– Ao circo dos colibris.

– Por que a pressa?
– Apresenta-se hoje a colibri trapezista linda! Queremos chegar cedo para ocupar os galhos próximos ao palco.

~ ~ ~ ~ ~

A voz ao telefone

No telefone ouço uma voz feminina aflita: Alfredo, Alfredo, por que abandonaste? Respondo: Porque não te amo! A voz feminina desliga. Qual seria a resposta do verdadeiro Alfredo?

~ ~ ~ ~ ~

Para o agente de polícia

  • A arma não é minha. Encontrei na rua. Pretendia levar ao distrito policial amanhã cedo.
  • A faca é pra descascar laranjas. É um pouco grande pra descascar laranjas grandes.
  • A moto roubada escondida na minha garagem não é minha. Um conhecido pediu para guardar para ele.
  • Antes de dirigir o caminhão carregado de tubos de aço, bebi só meia garrafa de pinga e três ou quatro ou cinco cervejas.
  • Entrei nesta casa por engano. Pensei que era a minha casa. Não, não moro neste bairro.
  • Eu só passava na porta da loja. Não sei quem arrombou a porta.
  • Não dei um soco na cara dele. Ele caiu sozinho e bateu o rosto no chão.
  • Não dei um soco na cara dele. Só me defendi com força.
  • Não roubei este carro. Estou apenas descansando dentro dele.
  • Não são meus o revólver, a máscara, as outras armas e as coisas roubadas. Alguém os jogou no meu carro para me incriminar.
  • O carro é meu, comprei de um conhecido que precisava de dinheiro, vendeu baratinho. Amanhã entregará os papéis.
  • O carro roubado escondido na minha garagem não é meu. Um conhecido pediu para guardar para ele.
  • Os carros desmontados estavam na garagem quando aluguei a casa. Não sei quem é o dono.
  • Toda a maconha e a cocaína são para meu uso. Comprei em grande quantidade para conseguir desconto.

~ ~ ~ ~ ~

Paradoxos

Em nosso mundo, é usual e normal cobrar coerência de opiniões e atitudes das pessoas. É paradoxal porque ao mesmo tempo da cobrança tem as reclamações. Discordo de suas opiniões, seja coerente, mude. Também é cobrada a coerência das pessoas em relação a suas personalidades. Essa não é a sua personalidade, você finge ser quem não é, seja você mesmo, não se reinvente, não seja incoerente! Oportunos não reclamam de atitudes opiniões e personalidades como as suas. Enfim, não é nunca possível agradar a todos.

Tem um mundo diferente do nosso que eliminou um dos dois paradoxos. É um planeta colonizado por descendentes de terrestres imigrantes depois de ter a evolução médica e farmacêutica reduzido as doenças, aumentado o tempo de vida do povo também maior com mais nascidos e menos mortos, e a evolução tecnológica produziu as viagens espaciais de grandes grupos.

Os primeiros imigrantes ao novo mundo decidiram resolver o paradoxo das personalidades. Não sabem quem teve a primeira ideia que começou em conversas nas naves de transporte ao avistarem o planeta onde viveriam. Em pouco tempo, a ideia tornou-se uma parcela da soma de entusiasmo com alegria e sonhos dos viajantes. Era um tempo propício para ideias de construção.

A ideia tornada decisão foi que no novo mundo seria usual e normal assumir personalidades compatíveis com as situações. A qualquer habitante do novo mundo, se lhe aprouvesse e adequasse à situação, seria lícito e permitido trocar de personalidade como quem troca as palavras.

É simples assim ainda hoje, séculos depois do desembarque dos pioneiros no novo mundo. Nas escolas, os estudantes interessam-se por todas as aulas e ensinos. Nas festas, todos assumem personalidades simpáticas, ninguém é desagradável nem bebe em excesso.

As personalidades são conciliatórias em reuniões de negócios para tomada de decisões. Em reuniões de negociações, são personalidades de contendores. Os espectadores de teatro aplaudem em pé as apresentações. Não tem concursos e contendas porque todos seriam considerados vencedores.

Como nem tudo simples e eficiente continua assim todo o tempo, tem relações entre pessoas onde falsificar personalidade causa confusão. É ao se casarem que nenhum dos dois sabe exato como é o outro porque ambos adaptam as respectivas personalidades às situações do casal. Assim é que ambos podem tornar-se amorosos, apaixonados, atenciosos, generosos e interessados. Mesmo depois de anos juntos, não se conhecem.

Numa noite qualquer, as duas pessoas de um casal antigo usavam as personalidades de jantar simpático em família onde todos gostam da comida servida:

– Marido, você sabe que depois de tantos anos juntos eu não o conheço e você não me conhece. Pois quero saber como é você, como é a sua personalidade verdadeira.
– Mulher, como a primeira informação de minha personalidade verdadeira saiba que odeio carne de frango carne de peixe e jiló.

– Marido, é certo? Qual incrível coincidência! Em minha personalidade verdadeira desgosto de carne de frango, de peixe, bife de fígado, jiló e quiabo. Temos gosto igual, pelo menos sobre carne de frango, de peixe e jiló.
– Mulher, então, por que comemos dessas comidas e não as rejeitamos?

– Marido, porque jamais falamos com franqueza um com o outro. Quer saber? Proponho uma mudança nos nossos modos de ser e agir.
– Mulher, qual é a mudança?

– Marido, a partir de hoje, entre nós dois e apenas se estivermos sozinhos para não desconfiarem da transgressão, usaremos nossas personalidades verdadeiras. Não as trocaremos para adequar-se às situações.
– Mulher, concordo com a mudança. Você me conhecerá como sou, eu a conhecerei como é. Daqui a alguns anos, nos amaremos ou nos odiaremos?

~ ~ ~ ~ ~

Luar

A única luz vinha do luar de prata da lua cheia. O luar brilhava nas casacas brancas imaculadas dos músicos da orquestra tocando em cima da maior pedra da praia. O luar de prata iluminava os casais de dançarinos. Embora dançassem na areia da praia, a magia da noite impedia a areia de entrar nos sapatos pretos lustrosos dos homens e nos sapatos de salto alto das mulheres. A orquestra tocava valsas belíssimas dançadas pelos casais com alegria e paixão. Todos os homens vestiam traje a rigor e as mulheres longos e esvoaçantes vestidos de noite.

Enquanto isso, as carruagens de capotas abaixadas esperavam entre os coqueiros e o luar de prata brilhava nos lombos dos cavalos todos brancos. A brisa soprando do mar balançava os longos vestidos de noite das mulheres e as longas crinas dos cavalos.

Enquanto os primeiros raios de sol anunciavam o nascer do dia no mar e na terra, a orquestra tocou músicas para os amantes apaixonados que se dirigiam às suas carruagens. Os cavalos brancos sabiam os caminhos para conduzir os amantes às alcovas onde continuariam a amar-se em desvario sem desfazer a magia da noite de luar música e amor.

O leve luar de prata afastou-se suave para o esconderijo das noites mágicas, cedendo seu lugar no céu no mar e na terra ao astro rei e ela acordou. Ao lado da cama, o marido a olhava sorridente:
– Quantos sonhos e quanta animação na noite, hein?! Você me chamou de Alfredo, beijou-me várias vezes, pediu-me para abraçá-la com força enquanto dançávamos mais uma valsa! Bom dia, dançarina. Enquanto se despede do Alfredo, vou trocar a fralda do bebê e acordar as crianças para se vestirem para a escola. Depois, prepararei o café da manhã das crianças e você tem de amamentar o bebê. Saúde o Alfredo por mim, madame.

~ ~ ~ ~ ~

Angústia

Não queria continuar naquela vida. Como mudar, se não sei por onde principiar? Estou afundado na situação até o pescoço. Mais que o pescoço, até a parte de cima da minha cabeça. Como poderia sair da união de tantos anos sem magoá-la? Quando nos casamos eu a amava demais e talvez ela me amasse também. O amor dela acabou e destruiu o dele. Deixamos de nos amar e o casal perdeu o sentido? Precisava de dinheiro para sair. Com pouco dinheiro, para onde irei? Talvez, se ganhasse um prêmio na loteria. Talvez, se jogasse.

~ ~ ~ ~ ~

A melhor vida eterna

– Que faz? – este é o porteiro.
– Estou de passagem. Como se chama este lugar? – este é o que passa.

– Purgatório. Pretende descer ou subir? – de novo o porteiro.
– Ainda não sei. Dizem que embaixo é mais divertido que em cima – o que passa.

– Embaixo é quente.
– Em sentido literal ou figurado?

– Ambos.
– Vou experimentar descer. O que recomenda levar?

– Um leque um ventilador um extintor de incêndio e protetor solar Fps 60. Lá não usará cobertores e roupas de lã.

– Já de volta? Gostou do Inferno? – mais uma vez o porteiro.
– Demais! Estou de passagem outra vez. Vim comprar cerveja porque hoje a festa lá embaixo será abrasadora!

~ ~ ~ ~ ~

Atriz e ator

O início da história deles foi banal. Ela e ele nasceram no mesmo mês do mesmo ano de mães e pais diferentes em cidades e países diferentes. Quando ainda eram criancinhas, em tempos distintos, seus pais imigraram das respectivas cidades e países de origem para a mesma cidade do mesmo país.

Moravam em bairros distantes na grande cidade, motivados pelas condições financeiras que os pais dela tinham melhores que os dele. Por isso, estudaram em escolas de diferentes proprietários. Ela, em escolas particulares. Ele, em escolas públicas. Quando escolheram as respectivas profissões, por acaso ela e ele decidiram trabalhar como atriz e ator.

As vidas das pessoas têm coincidências e desencontros com e sem consequências. Ela e ele, cada um em seu caminho, registraram-se em profissões de atriz e ator em tempos próximos.

Eram jovens, bem apessoados, profissionais talentosos para atuar em cinema teatro e TV. Por essas condições, em alguns dos trabalhos que se sucediam, acontecia uma curiosa coincidência. Autores e diretores orientavam-se para transformar a atriz e o ator em casais nas histórias.

Casais casados, casais de namorados, amiga e amigo, companheiros de trabalho de escola de alegrias e de infortúnios. Se ambos eram empregados da produção e a história previa casais com alguma característica, lá estavam a atriz e o ator programados para encenar um dos casais.

O público percebeu o casal e torcia para que a ficção virasse vida real e nada disso aconteceu. Eles viviam na mesma direção, mas em sentidos contrários. Ela formou uma família com filhas filhos netas e netos com o filho de um amigo de seu pai e ele outra família com filhas filhos netas e netos com uma moça que conhecera num baile no clube do bairro.

Acontece que ela e ele eram colegas de trabalho onde se davam bem, mas não eram amigos fora dos palcos. Nenhum dos dois jamais iniciara a aproximação que causaria a amizade da atriz e do ator dos casais das peças de teatro, das novelas da TV e dos filmes.

Quando ela e ele não mais tinham idade para representar, ela soube da morte dele por uma notícia no jornal. Pediu ao filho mais velho que a levasse à cerimônia no crematório onde estavam muitos atores atrizes diretores e produtores, o povo de ontem e de hoje do cinema teatro e TV, pessoas que a reconheceram e a cumprimentaram emocionadas.

Uma das atrizes que contracenara com ela e ele em trabalhos, ao abraçá-la disse-lhe baixinho ao ouvido de modo que apenas ela ouviu:
– Foi-se o seu amado que também a amava.

~ ~ ~ ~ ~

WhatsApp

Defende o chute do atacante e manda a bola para escanteio e cobra o escanteio e corre para a área e cabeceia a bola e salta mas não alcança a cabeceada do atacante e comemora o gol feito e reclama com o juiz por considerar impedido o atacante. Assim se parecem as mensagens dela no WhatsApp, são como se contassem um jogo de futebol. Ela tem o hábito de encadear assuntos diferentes na mesma mensagem e deixar ao destinatário a tarefa de separar as várias partes da mensagem nos respectivos assuntos. É irritante o hábito e desagradável a tarefa do recebedor da mensagem com o ônus. Ônus é palavra definida no dicionário como a obrigação difícil de ser cumprida pelo trabalho ou custo que acarreta.

~ ~ ~ ~ ~

São Pedro

Bom ouvinte, conversador e cumprimentador. Andar ao lado dele exercitava a paciência porque em todo lugar encontrava a quem saudar, perguntar da família, dos negócios e do trabalho. Não falava de si, ouvia, era querido por ser bom ouvinte. Suas qualidades e problemas eram ignorados, era raro lhe perguntarem tanto quanto contavam.

Um dia, morreu. Ao chegar ao céu, ficou no fim da fila de entrada e saída através da única porta. Apenas um entrava ou saía em cada vez. São Pedro designava os destinos dos entrantes aos serafins, querubins, anjos e arcanjos ajudantes da organização do céu, e se despedia dos que partiam para o inferno.

Ao avistá-lo, São Pedro abriu os braços de alegria e indicou-lhe uma das duas poltronas próximas da portaria do céu.

– Seja bem vindo. Quando li no jornal a notícia da sua morte, mandei vir do almoxarifado estas duas poltronas para podermos conversar. Sente-se um pouco, enquanto termino de escrever um email para São Jorge. Ele tem TV por satélite na Lua, vê os jogos de futebol e me conta os resultados. Ontem, não ouvi a difusão do jogo em ondas curtas no rádio portátil. Tivemos reunião de condomínio.

– Pronto. Temos duas horas de folga até a próxima leva de almas em trânsito. Como está, meu amigo? Como se sente? Conte dos seus sonhos, suas alegrias e tristezas. Fale de si.

~ ~ ~ ~ ~

Tarde demais

– Voltou!
– Voltei. Sentiu minha falta?

– Demais.
– Aceita-me de volta?

– Não.
– Não sentiu minha falta?

– Senti.
– E, mesmo assim, não me aceita?

– Não aceito.
– Por que?

– Porque senti sua falta, sofri com a sua falta, desejei a sua volta e você não voltou. Então, aprendi a não sentir a sua falta e a não te amar.
– Não mais me ama?

– Não.
– Mas eu te amo!

– Tarde demais!
– Sim, tarde demais. Que pena!

~ ~ ~ ~ ~

O casal

Antes de se casarem, decidiram dormir em cama de casal. Compraram do fazedor de camas uma cama grande porque ambos eram grandes.

Descobriram o problema nas primeiras noites de dormirem juntos. Ambos tinham de dormir virados para o mesmo lado. Não podia ele dormir virado para a direita e ela para a esquerda ou vice-versa. Se um se virava, o outro tinha de se virar. Por isso, ambos acordavam algumas vezes durante a noite. Tinham de resolver o problema.

Adotaram uma solução simples. Trocaram com o construtor de camas a cama grande de casal por duas camas separadas. Não tão grandes quanto a de casal e também não pequenas. Casais de elefantes, ambos grandes, para dormir juntos em camas de casal têm de dormir em camas separadas.

~ ~ ~ ~ ~

Cantor nº 1

Parou de cantar e ninguém aplaudiu. Foi mais aplaudido ao abandonar o palco que ao parar de cantar. Cantava mal e não sabia a letra nem a melodia da música.

~ ~ ~ ~ ~

Desalento

Desaparecer dormir morrer sonhar e não mais sofrer de alegria amor angústia calor e frio cansaço desalento desejo desespero dia e noite dor fome medo melancolia paixão preguiça pressa sede solidão sono tontura tosse e tristeza.


Comentários estão fechados