O fio solto na poltrona do avião


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Os chamados

Três vezes bateu na porta da casa. Três vezes chamou:
– João!
– João!
– João!

Três vezes de dentro da casa ouviu a voz de uma pessoa invisível:
– Não está o João.
– Não está o João.
– Não está o João.

Três vezes repetiu o chamado em duas casas vizinhas. Sempre com o mesmo resultado. Na quarta casa um homem veio à porta:
– Cá está o João.

Disse o homem que chamava por João:
– Eu sou o carteiro e tenho uma carta para entregar a um João.

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13 anos

Isso de ser uma menina com 13 anos de idade é trabalhoso! Ainda não tive a primeira menstruação e minha mãe está tão ansiosa quanto eu, até um pouquinho mais. No outro dia, comprou-me um sutiã, meu primeiro sutiã. Meus pais irmãos tios tias avós comemoraram. Mudaram o jeito de me tratar, mais como mocinha que garotinha. Afinal de contas, eu sou a joia preciosa da família. É o que dizem meus pais irmãos avós tios e tias.

Tem a escola. Ah, a escola, tantas meninas mais bonitas que eu. Minha irmã, estudante do colegial, diz que sou a mais linda da escola para me agradar. Bom, faço o que posso. Sou alegre, vivo numa família maravilhosa, sou amada e amo demais a todos eles. Precisa de um grande coração porque tem um monte de gente para amar. Caberia mais um? Os livros escolares não se ocupam dos corações das meninas de 13 anos. Terei de descobrir sozinha.

Tenho de achar um lugar no meu coração para ele. Eu o acho fantástico e lindo! Estudamos em turmas diferentes da mesma série da escola. Só nos vemos um pouquinho antes da primeira aula de cada dia e nos intervalos e na saída antes da volta para casa. Sempre tem alguém para cuidar de mim. Tenho benefícios por ser a joia preciosa da família.

Eu o descobri antes que ele me visse. Descobri que nós mulheres de 13 anos somos mais espertas que os meninos de 13 anos. Bastaram alguns olhares para ele me perceber. Se eu quisesse, ele não notaria que eu o olhava. Ah, não pense que foram olhares descarados, nada disso. Foram olhares furtivos disfarçados e escondidos. Sou esperta, não sou? É claro que eu queria que ele também me olhasse. Senão, não teria insistido, quando ele se fez de difícil. Venci afinal. Foi fácil sorrir para ele. O danado vive rindo e sorrindo. Sorri, se vem alguém buscá-lo, sorri para os amigos e amigas.
Só uma vez o vi com semblante sério e pensativo. Foi no dia em que o fiz me perceber. De repente, me viu e parou o sorriso no meio. Ficou ali parado, parecia intrigado, olhando-me de longe, sem se importar com a algazarra dos colegas. Então, sorri para ele e seu sorriso voltou. Melhor assim. Prefiro vê-lo sorrir em vez de olhar-me sério e intrigado. Nos outros dias, outros sorrisos cada vez mais próximos. A vida é tão boa!

Agora, tenho de ir. O dia de aulas terminou e devem estar à minha espera. Aproveitei uma aula vaga para fingir estudar e escrevi no meu diário que tenho de esconder agora que estou apaixonada. Se alguma de minhas irmãs ou irmãos lê o que escrevi, conta aos outros e todos ficarão me olhando com o olhar de nossa menina está crescendo, está se tornando uma moça. Eu adoro esse olhar da minha família e fico um pouco envergonhada. Segunda-feira o verei. Não tem nenhuma festa no fim de semana anterior às provas de fim de ano. Numa festa poderíamos dançar e conversar. Nada de namorar.

Ainda tenho 13 anos de idade. Esse negócio de ser uma menina com 13 anos de idade é maravilhoso e um pouco confuso.

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No set de filmagem

– Pode saltar sem medo – o diretor do filme.
– Na água do rio cheio de crocodilos? – o dublê preocupado.

– São crocodilos-do-nilo ensinados para atuar em filmes.
– Onde está o instrutor deles?

– Foi comido por um crocodilo que faltou às aulas.
– Esse crocodilo veio hoje?

– É possível que não tenha vindo. Falta às aulas e ao trabalho.
– Tem um escondido atrás do muro.

– Qual é a cor dele?
– Verde.

– Ótimo. Os crocodilos verdes são herbívoros e vegetarianos. Os perigosos e carnívoros são os vermelhos.
– Tem um vermelho!

– A cor dele real é verde. O vermelho que você vê é maquiagem para ele aparecer sinistro no filme.
– Tem um rindo!

– Estão contando piadas para passar o tempo antes de iniciar a filmagem.
– Crocodilos riem de piadas?

– Riem de piadas de jacarés e lagartixas porque não contam e não riem de piadas de crocodilos.

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O rádio

Estava no porão da casa. Um aparelho limpo, reluzente e com aparência de novo. Decidiram-se por um rádio porque se parecia com a ilustração de um rádio de um velho livro de história antiga. Diferente do artigo do livro, este não tinha fio para ligar à rede de eletricidade nem lugar para baterias ou pilhas. Não tinha controles e botões para ligar desligar mudar de estação crescer e diminuir o volume. Não tinha mostrador para indicar a estação sintonizada e os rádios do livro tinham os botões e mostradores.

A dona da casa colocou-o sobre um móvel da sala de visitas. O bonito e estranho aparelho virou um objeto de decoração.

O menino não se contentou de só olhar. Andou em frente do estranho aparelho, dançou passos da dança da moda, fez ginástica. Nenhuma reação aconteceu. Ia quase a desistir, quando fez um gesto de adeus com a mão espalmada e o aparelho ligou e passou a tocar música desconhecida.

O menino repetiu o gesto no nível do chão e em pé sobre uma cadeira na outra sala e, de novo, nada. Repetiu o gesto de adeus quase no mesmo lugar de antes e o aparelho desligou-se. Logo descobriu que o rádio era controlado por gestos das mãos à distância. Precisava de gestos especiais para ligar desligar trocar de estação subir e diminuir o volume.

Não sabia o menino. O rádio era presente de um planeta habitado no centro da Via Láctea. Os habitantes do planeta construíam aparelhos de rádio para reproduzir os programas difundidos por emissores de rádio dos planetas habitados da galáxia. Construíam e presenteavam em segredo os aparelhos, escondendo-os em lugares inesperados e inusitados. O rádio no porão fora um presente aos antigos moradores da casa onde ainda não morava um menino para descobrir como funcionava.

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O idioma

Como fala com as pessoas que só contam dos assuntos dos seus interesses e jamais o ouvem, inventou um idioma próprio ininteligível para as outras pessoas que desistem de falar com ele porque pronuncia sons estranhos e não sabem se ele está maluco ou zomba dos interlocutores.

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Os alienígenas

Ele dizia para todo mundo, Meu vizinho é um alienígena. Bem, claro, não para todo mundo e sim para quem ainda quisesse ouvir e não fugia quando ele se aproximava. Onde moravam todos o conheciam como o professor de Biologia. O vizinho era o professor de Matemática da mesma escola. Ninguém acreditava ser um alienígena o simpático e sempre gentil professor de Matemática. Ele não só acreditava como achava saber a razão. Conhecia o verdadeiro vizinho e aquele no seu lugar não era aquele conhecido. Não tinha como provar, entretanto achava que alguém acreditaria e o ajudaria a desmascarar o alienígena. O vizinho ria. Dizia ser a história uma brincadeira bem humorada.

A mudança iniciou quando o diretor da escola aposentou-se. No seu lugar contrataram um profissional que em pouco tempo conquistou a simpatia de todos na escola e na cidade. O novo diretor era semelhante ao professor de Matemática. Risonho alegre simpático e sempre pronto a ouvir as outras pessoas. Sem falta, o professor de Biologia contou-lhe do professor de Matemática. O diretor ouviu a história e sorriu.

De repente, o professor de Biologia parou de contar a história do vizinho alienígena. Mudou de conduta séria prudente e quase ranzinza para risonho alegre e expansivo. Se perguntavam da história do vizinho, respondia:
– Aquilo foi uma brincadeira combinada. Queríamos descobrir a reação da cidade a uma acusação absurda.

Aconteceu de as pessoas estranharem seu modo de ser e agir mudado. Ninguém muda tanto de uma hora para outra. Ele fingia ou era outra pessoa. Outra pessoa não poderia ser, então fingia e zombava de todos. Iniciaram a desconfiar dele e a evitá-lo. Os alunos não queriam mais assistir a suas aulas. Perdeu o emprego de professor e a alegria. Voltou a ser o homem sério circunspecto intrigado pensativo e triste.

Saiu de casa sem mala maleta e sacola, foi à estação ferroviária e entrou num trem de passageiros para qualquer destino. Nunca mais se ouviu falar dele. Algum tempo depois, o professor de Matemática e o diretor da escola demitiram-se do emprego e saíram da cidade .

Voltamos a encontrá-los na cabine de comando de uma enorme nave espacial em órbita do planeta Júpiter. Dizia o comandante aos subordinados diretos:
– Erramos ao testar invadir com uma de nossas personalidades a de um terrestre sério e circunspecto. Nós estamos sempre rindo, somos alegres e felizes. Não sabemos ser tristes e sérios. A vida é boa demais para não rir e expressar alegria.

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Tarde demais

– Oi – ele ou ela cumprimentam.
– Oi – ela ou ele respondem.

– Quanto tempo desde a última vez que te vi! Onde tem andado?
– Mudei-me.

– Por que deixou-me sem avisar? Senti tua falta.
– Você não se interessaria.

– Eu te amei tanto.
– Também te amei demais.

– Acabou.
– É, acabou.

– Não demores tempo demais sem mandar notícias.
– Precisa?

– Não, não precisa, falei por falar. Adeus, perdoe se lhe escondo meu olhar. Não quero que me veja chorar.
– Adeus, também não quero que me veja.

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Fila organizada

– Posso pular o muro? – o interessado em pular o muro.
– Sim – o organizador da fila dos saltadores do muro.

– É alto!
– Cinco metros.

– Quando poderei pular?
– Vá para o fim da fila.

– Onde é o fim da fila?
– Atrás do elefante. Opa, atrás do rinoceronte agora. Ih, atrás do colibri.

– O colibri pula o muro?
– Não, ele vem porque gosta da conversa na fila.

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Comunicações

O telefone fixo não funciona, o telefone celular está mudo, não tem conexão com a internet nem com linha discada que também não tem, não tem acesso ao Facebook e ao Twitter, sinais de fumaça nem pensar porque não tem como fazer fogo sem oxigênio, tambores estão em falta, ninguém ouviria gritos, diacho, nada funciona de dentro deste caixão neste túmulo neste cemitério incomunicável em Marte.

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A rainha nº 1

Em anos antes deste em que estamos uma pequena cidade tinha duas escolas primárias. Cada escola tinha uma fanfarra com objetos musicais de sopro e de percussão. As fanfarras lideravam os estudantes nos desfiles comemorativos. Os músicos eram alunos do curso primário com idades próximas de 10 anos.

Um dia, uniram as duas fanfarras das duas escolas para desfilar nas comemorações do aniversário de 100 anos de outra cidade. Vários ônibus para o transporte, mães para proteger as meninas, pais, professores e o instrutor da fanfarra.

Viajaram no dia anterior, foram hospedados por famílias da cidade e desfilaram na manhã seguinte. Na frente, meninas carregavam bandeiras e a identificação da fanfarra. Entre a comissão de frente e os músicos, ela, a baliza. Arlete era o seu nome, baliza e rainha da fanfarra. Dançava e executava piruetas e malabarismos com o bastão.

Terminado o desfile, preparavam-se para a viagem de volta para casa. Os meninos tinham alguma liberdade de ir e vir As meninas, protegidas pelo esquadrão de mães estavam nos seus lugares dentro dos ônibus. Enquanto circulava entre os ônibus, ele ouviu uma voz de menina que o chamava. Era ela, a rainha, que o chamava da janela do ônibus das meninas. A conversa durou pouco. Chegou a hora da partida. Ele foi para o ônibus dos meninos. O comboio seguiu viagem de volta para casa. Num dos ônibus ia uma menina encantada com um menino encantado em outro ônibus.

Não mais se falaram. Ele a via e ficava envergonhado de se aproximar; ela não mais o chamou para conversar.

Numa tarde em que ambos estavam com 16 anos de idade, ele andava por uma rua, quando ela o chamou da janela de casa. A casa dela tinha a parede da frente rente à calçada, de modo que, ela na janela e ele na calçada podiam conversar como se estivessem frente à frente.

Conversaram, olharam-se nos olhos, com afeição e saudade. Não sabiam se saudade de tempos passados ou de tempos futuros. Ele confessou que quis procurá-la e achou que ela, tão linda e rainha, não se interessaria por ele. Para surpresa dele, ela confessou que esperou que ele a procurasse. Tarde demais. Ela e a família partiriam cedo na manhã seguinte em mudança para outra cidade.

Anoitecia na pequena e triste cidade onde conversavam a menina e o menino. A rainha e o músico. Deram-se as mãos para se despedir pela última vez. Ela ficou na janela, enquanto ele se afastava com as mãos no bolso.

Nunca mais se viram. Não tinham trocado endereços, não trocaram cartas, ele não sabia para qual cidade ela se mudara. Hoje, neste ano em que estamos, ele ainda se lembra dela.

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O estranho

Viera de longe, de outro planeta habitado em outra galáxia. Visitara planetas desabitados e habitados. Demorara-se pouco nos planetas desabitados onde nada tinha para ver e viver. Escondia-se nos planetas habitados até identificar os habitantes dominantes. Então, transformava-se em um deles sob cuja aparência circulava e vivia como os nativos.

Tinha um aparelho como uma câmera fotográfica digital onde registrava dados fatos imagens sons cheiros e outras visões dos planetas habitados. Estivera no planeta do circo, no planeta dos olhos sem faces e no das faces sem olhos. Ao chegar à Terra teve uma surpresa da qual gostou. Salvo por uma pequena diferença, os habitantes da Terra eram iguais aos do seu planeta natal. No seu planeta, os habitantes tinham um terceiro olho na nuca que ele não viu em nenhum terráqueo, embora tivesse quem afirmasse ver o invisível. Escondeu o seu terceiro o olho e misturou-se ao povo dos lugares.

Viveu na África na América Latina na Índia e no Japão. Em 1854, na Guerra da Criméia, lutou com os soldados ingleses, depois passou para o lado dos russos. Em 1863, na Guerra Civil Americana, lutou ao lado dos soldados nortistas na batalha de Gettysburg e com os sulistas no Ataque de Pickett. Mudava de lado para ouvir dos soldados as suas versões da guerra e as esperanças de vitórias. Na Segunda Guerra Mundial, lutou ao lado dos russos na defesa de Stalingrado hoje Volgogrado. Entrou com os soldados aliados em Paris em agosto de 1944 e com os exércitos russos em Berlim em maio de 1945.

Usava recursos do seu planeta inexistentes na Terra. Se tinha de passar por um muro ou um portão fechado, desenhava no ar os degraus de uma escada pela qual subia para transpor o obstáculo. Para subir a um lugar alto, desenhava no ar a escada. As escadas desenhadas no ar não existiam para os terráqueos, só ele as via e acreditava nelas a ponto de usá-las. Para atravessar uma porta trancada desenhava no ar uma chave para abrir a fechadura. Não desenhava no ar em presença de outras pessoas para não ser chamado de maluco ou bruxo.

Assim, viveu na Terra entre os terráqueos por anos. De tempos em tempos, mudava-se para as terras de outros povos. Quando vivia entre os índios Asháninka nas margens do rio Envira, no estado do Acre no Brasil sentiu saudades do planeta natal. Vagava pelo Universo fazia séculos. Tivera alegrias aprendizados estupefação sortes e azares surpresas e tristezas.

No pequeno aparelho do tipo de uma câmera digital, acessou a imagem da Lua e desenhou a própria imagem, a real e não a assumida nos planetas habitados visitados. Para surpresa e alegria dos índios, de pronto sumiu da Terra e apareceu na Lua. Acessou a imagem de Marte, desenhou-se, sumiu da Lua e apareceu em Marte. Viajando entre os planetas no sentido inverso do caminho da vinda chegou por fim em casa. Tinha muitas histórias para contar.

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Músico e poeta

O compositor músico e poeta intitulou “Adeus, ingrata” a música composta sem melodia e letra porque o título atendia tanto a condição suficiente antecedente quanto a condição necessária consequente do sentir do autor para a mulher amada ingrata da qual despediu-se para sempre.

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Pode me carregar?

– Cansei-me, pode me carregar?
– Não.

– Nas costas?
– Não tenho costas.

– Eu vejo suas costas.
– Eu não existo.

– Eu o vejo.
– Vá para a sombra daquele árvore.

– E daí?
– Notou que desapareci?

– Como foi isso?
– Eu sou a sua sombra e você me vê embaixo da luz.

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O clandestino

Veículos de transporte de carga transportam poucos tripulantes passageiros e carga. Embora incomum, pode acontecer de um cargueiro viajar vazio. No transporte interplanetário de carga não tem espaços vazios nos cargueiros interplanetários que transportam poucos tripulantes e passageiros com toda a carga possível. Cada viagem custa dinheiro e não permite desperdícios. O transporte de cargas da Terra se beneficia de entrepostos comerciais. São lugares para descanso dos trabalhadores, reabastecer, comprar e vender produtos. Em Titã, o satélite de Saturno, está um dos maiores entrepostos do comércio interplanetário construído dentro de uma cúpula com armazéns bar cinema escritórios espaçoporto hotel restaurante salão de danças e teatro.

Os visitantes do entreposto comercial de Titã eram curiosos para identificar as nuvens vistas através das janelas de plexiglás, nuvens em constante alvoroço a uma certa distância da cúpula. Aprendiam ser um tipo de inseto chamado de “maldito pernilongão” pelos moradores do entreposto. O inseto parecido com ao mosquito Culex quinquefasciatus, o pernilongo doméstico terrestre, era três vezes maior mais feroz e difícil de matar. Quem saia da cúpula era cercado pelos bichos a tentar furar os trajes protetores e atrapalhavam o trabalho. Os inseticidas e repelentes enviados da Terra não produziram resultados até descobrirem que os raios gama afastavam os bichos, embora não os matassem. Instalaram um campo de raios gama em torno da cúpula e levavam pistolas de raios gama aos que saiam da cúpula.

A espécie humana é de natural curiosa, de modo que os pernilongões não fugiram dos biólogos e microscópios. Descobriram que os bichos eram hermafroditas, tinham asas pequenas demais para os tamanhos dos corpos e não voavam a grandes alturas para economizar energia. Segregavam-se em grupos voando juntos em grandes comunidades. Eram as nuvens vistas das janelas de plexiglás da cúpula. Cada grupo tinha um número máximo de indivíduos, de modo que de tempos em tempos parte da nuvem atacava e matava os outros membros para manter sempre o mesmo número de seres no grupo.

Até então os cuidados tinham mantido os pernilongões afastados do interior da cúpula. O entreposto tinha população fixa e os temporários. Os fixos eram trocados de seis em seis meses porque não era fácil viver nesse fim de mundo. Os outros eram pesquisadores e aventureiros. Os de passagem ficavam tempo suficiente de conseguir lugar no cargueiro prestes a partir. Os pesquisadores, em sua maioria geólogos, podiam ter problemas com os pernilongões porque saiam da cúpula para as pesquisas.

Certo dia, um geólogo distraído e descuidado coletava amostras de rochas longe da cúpula e uma nuvem de pernilongões se aproximou. O geólogo lembrou-se da pistola de raios gama tarde demais para impedir um pernilongão de entrar na caixa de amostras e esconder-se entre duas pedras. Afugentou os bichos, fechou a caixa de amostras com o prisioneiro, voltou à cúpula e embarcou para a Terra. Desembarcou, levou a caixa de amostras fechada para o laboratório, foi rever a família e cuidar de assuntos pessoais. Voltou ao laboratório, abriu a caixa de amostras e foi chamado ao telefone na sala ao lado.

Ninguém viu a pequena nuvem de pernilongões voar através da janela do laboratório e esconder-se nos arbustos do jardim. Já tinha procriado o solitário pernilongão escondido na caixa de amostras em Titã e viajante como passageiro clandestino para a Terra.

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Direitos

Um homem e uma mulher se conheceram. Namoraram e se casaram. Conheceram-se quase por acaso como acontece em tantos inícios de amor. O namoro cada vez mais apaixonado durou dois anos. Uma história comum que mudou porque de um deles acabou o amor, a compaixão e a generosidade.

Amor é sempre entre duas pessoas, neste caso entre um homem e uma mulher. O amor entre duas pessoas carece de componentes de cumplicidade conhecer mútuo adivinhação dos pensares e antecipação das ações do outro.

Quando acabou o amor dela, ele perdeu direitos, sem os quais era incompleto. Perdeu o direito de chamá-la meu amor, de agarrá-la num abraço apertado, de acariciá-la. Perdeu o direito de abrir os braços, estreitá-la contra si, beijar-lhe os cabelos e o rosto.

Perdeu o direito de amá-la. Ficou com a tristeza e a saudade.

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Os melhores dias

Os melhores dias dos estudantes não são dias inteiros e sim instantes e pedaços de dias minutos e horas depois do fim das provas mensais bimestrais trimestrais quadrimestrais semestrais e anuais, ao sorrirem pensando estar livres para viver pelo menos até a ameaça das próximas provas.

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Miniconto

– Escreverei um miniconto – o candidato a escritor.
– Que é um miniconto? – a outra pessoa do diálogo.

– É uma história com poucas palavras.
– Como contar uma história com poucas palavras?

– Com objetividade e concisão.
– Que é concisão?

– É exprimir-se bem com o mínimo de palavras.
– Que escreverá?

– Como tudo que vale à pena escrever a ideia do texto vem sem explicação ou método.
– Como é isso?

– É assim: aparecem na minha cabeça as primeiras frases da história com as demais presas a um cordão que tenho de puxar para revelar.

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O andarilho

Veio de longe, bem de longe, andando. Andava de uma cidade à outra. Procurava trabalho sempre conseguido porque tinha boa formação, era inteligente versátil e falava com fluência os idiomas dos povos das cidades. Ganhava dinheiro para comer morar e comprar livros para ler e presentear. Tinha facilidade de encontrar pessoas para ler os livros que os passariam adiante. Os livros circulavam nas cidades e entre as cidades porque os leitores viajavam, mudavam-se, levavam os livros e os distribuíam. Em 50 anos de andanças comprou leu e doou milhares de livros, resultando em uma desorganizada informal e grande biblioteca circulante.

Acontece que nem todas as pessoas faziam circular os livros lidos. Muitos compram leem e guardam os livros em bibliotecas particulares. Então, no mesmo período de vida do andarilho leitor, pessoas recuperavam os livros que deveriam circular e estavam escondidos em estantes, criando bibliotecas circulantes organizadas como centros de empréstimo de livros.

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A solidão

A solidão entrou na sala e anunciou:
– Cá estou, chamou-me e vim.

Ela apontou para uma cadeira com forma de confortável:
– Acomode-se. Vamos ler em voz alta. Gosta da minha ideia e convite? Eu inicio e você continua, se me cansar.

Trouxe da estante para a mesa As Intermitências da Morte, de José Saramago, Dresden, de Frederick Taylor, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e O Senhor das Moscas, de William Golding. Abriu As Intermitências da Morte e leu. A solidão apoiou-se no encosto da cadeira e fechou os olhos. Embora talvez dormisse, se gostava de um trecho da leitura, abria os olhos e sorria para a leitora.

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Direito à felicidade

Não tinha de ser assim e era, não devia ser assim e era, a vida deveria ser melhor e não era, ele tem direito à felicidade parada longe de sua vida, sente ter direito à alegria que não está, quer de volta a liberdade da juventude e o tempo perdido, o tempo passa e a vida chega perto do fim que não sabe se será e acontecerá em qualquer dos minutos do futuro distante ou próximo.

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Força

– O que é você?
– Um besouro rinoceronte.

– Qual é o seu nome?
– Dynastes Hercules.

– Bonito nome.
– Foi-me dado por Carolus Linnaeus em 1758.

– Você era nascido em 1758?
– Não era nascido em 1758, sem dúvida. O nome foi dado a um ancestral.

– Você é forte?
– Diziam que eu carregaria até 850 vezes o meu peso.

– Carrega mesmo?
– Se a afirmação fosse correta, eu que peso 100 gramas carregaria 85 kg.

– Qual é a falha da afirmação incorreta?
– Com carga igual a 100 vezes o meu próprio peso mal posso me mexer.

– Por que inventaram essa história?
– Alguém decidiu sem cuidado.

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Convites para dançar nº 2

– Aceita o convite para dançar comigo? – aquele que convida.
– Sim – aquela que aceita.

– Você vem sempre a este local de danças?
– Vim hoje porque você veio.

– Coincidência?
– Não, viemos juntos.

– Como foi isso?
– Viemos da mesma casa.

– Tantas coincidências!
– Esqueceu-se que nos casamos ontem?

– Aceita o convite para dançar comigo? – outra vez aquele que convida.
– Sim – outro convite aceito.

– Você está linda com esse vestido!
– Você me disse isso antes e os vestidos eram diferentes.

– Quando?
– Todas as vezes que dançamos juntos nos últimos 40 anos.

– Tanto assim?
– Desde que nos casamos.

– Você gosta?
– Adoro!

– Perdoe, querida, não posso convidá-la para dançar comigo – aquele que sempre convidou, desculpa-se.
– Não faz mal, querido. Eu também não poderia aceitar o convite – aquela que sempre aceitou os convites.

– Tantas vezes dançamos em 60 anos de união.
– Que tal fazer de conta que dançaremos como no dia seguinte ao do nossa união?

– Oh, linda senhorita, aceita o convite para dançar comigo?
– Aceito encantada, gentil e querido senhor!

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Você foi avisado

A mulher avisou o moço, Ela não é fácil de conviver, Tem gênio difícil de lidar e entender, Você se meterá numa enrascada ao se casar, Ouça o meu aviso, Fuja enquanto não casou, Procure outra mulher melhor que esta, disse ao moço a mulher que bem conhecia a moça com a qual, não obstante o aviso, se casou o moço que lamenta não ter atentado para o aviso da mulher antes futura depois atual e agora falecida sogra que perto de morrer perguntou ao genro, Eu não lhe disse?

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Fins e recomeços

Terminou o namoro com ele. Na primeira vez ela pensou que ele sofreria, tentaria continuar e ele não fez nada disso. Ambos tinham 15 anos de idade, ele era o primeiro namorado dela e ela era a primeira namorada dele.

Quando ela disse que estava tudo acabado entre eles e ele devia ir-se embora sem olhar para trás, ele concordou com um leve aceno de cabeça. Sério e pensativo olhou-a nos olhos virou-se e saiu em silêncio. Se perguntassem a razão da quebra, é provável que ela não respondesse. Uma menina de 15 anos de idade não responde, se lhe perguntam de razões de amor. De qualquer maneira decepcionou-se um pouco com a reação dele, melhor era deixá-lo ir.

Nas semanas seguintes nenhum dos dois procurou o outro. Quando se encontravam por acaso, ela o olhava quase sorrindo e logo perdia a pose porque ele continuava sério e pensativo como no dia do desacordo, como se pensasse que ela sabia que ele a esperaria. Esperas de amor parecem durar demais, com eles não foi diferente e chegou ao fim. Um dia, ela o procurou e sugeriu reiniciarem o namoro. Ele sorriu o sorriso que ela gostava tanto e abriu os braços para ela.

Não durou a segunda fase do namoro. Ela terminou como da primeira vez e se foi sem reclamar nem protestar. Só que, desta vez, o olhar dele também parecia intrigado, não só sério e pensativo. Naquela noite, antes de adormecer, ela ficou bastante tempo com a imagem do olhar dele ao se despedir. Quando o sono se aproximava, pensou se algum dia a separação seria definitiva. Lembrou-se de como ele ouvia com atenção as histórias que contava o pai dela e a forma carinhosa como a recebia a mãe dele.

Encontraram-se nas ruas da cidade, olharam-se e não se falaram. Os amigos comuns diziam que para saber o que aconteceria, bastava olhar para ambos nesses encontros casuais.

Como no primeiro fim, ela o procurou e reataram o namoro. Diferente da primeira vez, abraçaram-se quase com desespero, ficaram bastante tempo abraçados, em silêncio.

O amor entre eles era tão evidente que as amigas e amigos se angustiavam, pensando que tinham de ajudá-los a evitar outro desenlace. Que aconteceu tal qual nas duas vezes anteriores. Ela rompeu, mas desta vez ele ficou mesmo triste. Tinha os ombros baixos, a cabeça abaixada, não a olhou nos olhos ao se despedir e ela ficou a olhá-lo até que sumisse de vista como se o seu olhar de amor o protegesse na volta para casa. Naquela noite, ambos demoraram para ceder ao sono. Não se encontraram porque ela viajou com a família em férias.

Tendo rompido o namoro e distantes, qualquer um pensaria que ambos se interessariam por outras pessoas. Não aconteceu com ela, não aconteceu com ele. As amigas a informavam dele e ele parecia não querer notícias dela. As amigas dela insistiam em contar e desistiam por causa do olhar distraído e distante dele.

Ela voltou da viagem de férias linda e queimada do sol de beira-mar. Desfez as malas, vestiu um lindo vestido de verão e saiu a procurá-lo. Procurou-o nos lugares habituais e não o encontrou. Então, foi à casa dele onde foi recebida pela mãe que lhe fez um sinal para não falar, tomou-a pela mão e a conduziu ao escritório do pai dele. Encontrou-o sentado na cadeira da escrivaninha com um livro enorme aberto sobre a mesa. A cadeira ficava de costas para a porta pois a escrivaninha perto da janela aproveitava a luz do dia, de modo que ela pode aproximar-se dele e tocá-lo no ombro, sem que a visse antes. Ele levantou os olhos do livro, virou-se na cadeira giratória e a viu. Levantou-se devagarinho, sem tirar os olhos dos olhos dela. Ela notou que em vez de sorrir como era o seu jeito, ele tinha os olhos cheios d’água e atirou-se nos braços dele, chorando. Choravam de alegria por estarem juntos, de tristeza pelo tempo perdido, pela confusão de dor e alegria que o amor causa. Tudo aconteceu em pouco tempo e a mãe dele, que ficara parada na porta do escritório e assistira à cena, afastou-se bem de leve.

O namoro deles teve outros fins e reinícios, nenhum mais que alguns minutos porque ele abria os braços para ela que não resistia porque não queria. Uma noite, cada um enfiou no dedo anelar da mão direita do outro uma aliança do par comprado naquela manhã e consideraram-se noivos. Acredite quem quiser, três meses depois ela terminou o noivado e mandou-o embora. Entretanto, não tirou a aliança da mão direita, nem ele o fez. Reataram o noivado. Esta foi nossa última separação. Nunca mais nos separaremos. Vamos nos casar e ficar juntos todo o tempo.

Para simplificar esta história, casaram-se tiveram filhos que cresceram ficaram adultos casaram-se e tiveram os próprios filhos. Ele tinha os cabelos grisalhos, a cor dos dela não se sabia porque eram pintados, quando recebeu uma encomenda de trabalho num lugar distante onde ficaria alguns meses. Falavam-se por telefone, era maior a saudade porque não podiam segurar as mãos um do outro. O trabalho terminou e ele voltou. Entrou em casa, ela abriu-lhe os braços, Esta foi nossa última separação, Nunca mais nos separaremos.

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Ervas finas

Está escrito na lata ser o extrato de tomate feito com ervas finas. Que são ervas finas? Precisamos de um chefe de cozinha, fácil de achar. Tem tantos nos programas da TV. Perguntamos a um chefe de cozinha cozinheiro de comidas estranhas num restaurante chique e comidas caseiras num programa de TV não chique. Ele explicou.

Ervas finas são ervas nascidas em Paris, virgens intocadas, não xingam o juiz nos jogos de futebol, não xingam os inimigos porque não os tem, só tem amiguinhos, põe as mãozinhas na boca para rir de piadas picantes, não cospem no chão, não peidam no elevador, tem bumbum e não bunda, fazem pipi e popô e não xixi e cocô, não matam e só espantam os pernilongos impertinentes, não se misturam às ervas grossas e só estão na lata de extrato de tomate porque aquela máquina horrorosa comprimiu-as umas contra as outras.

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Questões digestivas

– De acordo com os resultados de pesquisas recentes e recomendações de nutricionistas com programas matinais de TV, doravante é prática nutricional condenada e proibida comer leite e queijo com comida, iogurte como sobremesa, carne com queijo ou molho de queijo na salada.

– Por que?
– A digestão dos laticínios dificulta a absorção do ferro.

– Bife à parmegiana?
– É proibido.

– Café depois das refeições?
– Proibido também.

– Uma barra de chocolate depois das refeições?
– Proibido.

– Comer, pode?

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As torcedoras de futebol

Considerando a polarização, Você é a favor?, Você é contra?, onde não é permitido trocar a opinião, considerando que aprecia futebol, deixou de ser torcedor de um time específico, guardou a camisa do time que não tinha e passou a torcedor das torcedoras de todos os times, das torcedoras do Corinthians e do Palmeiras e do Barcelona e do Chelsea e da Ponte Preta etc., e além de não mais ter de justificar ser torcedor, aproveita que elas são fofas lindas e se não são lindas são bonitas, embelezam-se para ir ao estádio de futebol onde embelezam as torcidas, e pretende trabalhar como vigia de torcida nos jogos para olhar apenas as torcedoras.

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Sistema operacional

A hora no relógio do notebook era da madrugada do novo dia, hora normal de trabalho para ela que preferia a luz da lâmpada da mesa e as dos monitores auxiliares à claridade e ruídos diurnos da casa e da cidade. Na noite silenciosa, os sons próximos vinham das teclas do teclado ou da pena das canetas tinteiro Sheaffer Parker 21 e Lamy no papel. Em cada um dos três monitores, as telas dos softwares em execução, o editor Visual Studio Code em Inglês, o navegador de internet Firefox em Português e o editor de imagens PhotoScape em Português.

Súbito, três caixas de diálogo apareceram nas três telas dos três monitores: Hello, young woman, Olá, moça, Olá, moça. Ela assustou-se, pensou ter um programa de comunicações em execução, mas três mensagens sem indicação do remetente? Escreveu Who are you?, Quem é você?, Quem é você? teclou Enter três vezes e recebeu três respostas: Visual Studio Code, Firefox e PhotoScape.

Alguém sabia os softwares executados por ela em quais monitores em quais idiomas e controlava o programa de comunicações fora de execução. Quem seria? Tinha de ser um hacker brincalhão, ninguém conhecido. Cobriu a câmera do notebook e as mensagens vieram. Fechou o Visual Studio Code, abriu o navegador de internet Chrome em Português e logo apareceu a caixa de diálogo: Olá, moça. Decidiu encerrar a noite de trabalho e, antes de fechar os software, escreveu: Boa noite e recebeu as respostas: Boa noite, durma bem!

Nas noites seguintes os diálogos seguiram. O hacker era educado, parava as mensagens se ela trabalhava. Ela era esperta e inteligente e tentou mudanças. Trocou para Espanhol o idioma de um software e recebeu mensagens em Espanhol. Testou com Mandarim, traduziu as mensagens recebidas no Google Translator, poliglota escreveu em Português Inglês Francês e Espanhol, foi compreendida e compreendeu as mensagens recebidas. O hacker era educado inteligente e culto. Antivírus e antimalware não acharam espiões e elogiaram seu vestido de verão, desconectou o modem de acesso à internet e mesmo assim teve elogiado o novo corte de cabelo. Espantoso porque em execução ou inativos os softwares enviavam mensagens para ela e entre eles, saudavam-se, sugeriam melhorias de desempenho e soluções de problemas.

O Ubuntu, sistema operacional do notebook, até então à margem da anarquia, apareceu para contar que os softwares gastavam ciclos de CPU, energia e memória, processos processador e processamento para enviar mensagens de texto e pediam sua autorização para mudar para telepatia. Ela concordou porque se convencera de falar com os softwares e de não existir o hacker. Principiou aprender a separar as mensagens recebidas dos pensamentos do próprio cérebro, depois pensar e enviar as respostas aos destinatários.

O cérebro humano é complexo. Se a pessoa fala ou escreve uma frase, esta foi enviada do cérebro para o exterior em processo automático. O cérebro prepara e emite a frase quase sem a pessoa de concreto pensar no processo. Na telepatia, a mensagem recebida de fora do cérebro sem ter entrado nos olhos ou ouvidos tem de ser mantida em evidência, separada dos outros pensares para ser pensada e a resposta emitida. Para os softwares era fácil porque usavam a CPU e a memória do notebook não comparáveis ao cérebro e memória humanos.

Agora, ligado mesmo se ela sai de casa, as máquinas falam com ela como entidade única, enviam informações, resultados de pesquisas na internet, resultados de cálculos, pagam as contas no sistema bancário, resolvem os problemas de hardware e software etc. A situação é segredo dela a ninguém revelado porque não acreditariam. Cá por mim também não a conheço. Contou-me a história em carta anônima que enviou-me por correio e foi entregue por carteiro como se fazia.

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Vogais

  • Em Pat todos os habitantes são cantores de óperas. A música cantada por eles provoca um ruído ensurdecedor.
  • Em Pet cada habitante tem um bichinho de estimação.
  • Em Pit os habitantes são tão magros que os ônibus de transporte urbano têm pontos em lugar de bancos para os passageiros.
  • Em Pot os habitantes são tão gordos que em cada ônibus de transporte urbano cabe só um passageiro.
  • Em Put os habitantes são pessoas comuns com hábitos e vidas comuns. São bebês crianças adolescentes jovens adultos e velhos, altos e baixos, gordos e magros, bonitos e feios, espertos e ingênuos, crentes e descrentes, trabalhadores e preguiçosos.
  • Na cidade de Garça vivem homens mulheres meninas meninos velhas velhos gatos cachorros e passarinhos. O vendedor de laranjas e laranjas lima e laranjas lima-da-pérsia e laranjas-da-Bahia e mexericas e tangerinas tem uma carroça e um cavalo para puxá-la. Ele não vende bananas.

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A polícia

Neste país, a polícia prende e a justiça condena os acusados provados de antipatia, boato falso, chantagem emocional, confessos de andar de ombros baixos, criminosos desafeto desalento desamor, descuido com a educação dos filhos, obrigações conjugais não cumpridas, desprezo, esperança descabida, falsidade, falta de empatia, falta de higiene, inverdade maledicência mentira, mesquinhez que é o antônimo de generosidade e outros crimes que não matam, entretanto magoam maltratam, merecem punição e prejudicam.

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Os dançarinos

Nesta cidade, no passado, teve um moço que gostava de dançar. Ia a todos os bailes na cidade e não dançava com nenhuma das moças. Era pobre e trabalhava nos bailes servindo bebidas atrás do balcão do bar do início ao fim do baile.

Era jovem e risonho e adorava dançar. Se tinha de trabalhar, dançava sozinho. Andava de uma ponta a outra do balcão em passos de dança. A maior parte das pessoas não percebia e quem o fizesse pensaria que ele andava engraçado. No fim da noite sentia-se tão cansado quanto os outros dançarinos e ia para casa a pé, dançando pela rua.

Numa noite bonita de primavera teve um baile especial. Grande orquestra, moças em lindos vestidos e bar lotado.

Uma das moças, curiosa e interessada, viu o moço do bar, intrigou-se com seu andar esquisito e investigou. Em um ponto do salão de onde via atrás do balcão desvendou o segredo: ele dançava sozinho, enquanto servia as bebidas.

Aproximou-se do balcão e, em vez de pedir bebida, estendeu-lhe as mãos que ele segurou. Começaram a dançar juntos, cada um do seu lado do balcão. Sorriam como se brincassem com a alegria de dançar juntos. Atraíram a atenção das pessoas próximas. A cena era bonita e emocionante porque todos os que algum dia perceberam o moço, entenderam o que ele sentia ao olhar o baile do lado de dentro do balcão do bar. Outros moços saltaram o balcão, seguraram as mãos das moças para formar uma linha de dançarinos com o moço do bar e a moça de lindo sorriso. Em pouco tempo, todo o salão estava tomado por casais que dançavam com imaginários balcões de bar entre eles.

Quando terminou o baile, a moça de lindo sorriso e o moço do bar andaram juntos até a casa dela conversando e até dançando mesmo sem música.

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Rapunzel e o príncipe

– Rapunzel, Rapunzel, joga abaixo as tuas tranças!
– De novo, aquele príncipe! O sujeito é chato e não percebe. Sobe pelas minhas tranças e fica um tempão com a prosa mais xoxa do mundo. Não ouve o que falo. No outro dia trouxe laranjas pera para mim que só gosto de laranja lima. Em vez de pó de café 100% Arábica, trouxe café em pó descafeinado. Pois se o gostoso do café é a cafeína! Desta vez não jogarei as tranças e sim esta pesada caixa com joias que ganhei dele. Mandei avaliar. É tudo bijuteria!

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Rede de conhecimentos

Muitos séculos antes dos computadores redes computacionais internet redes sociais tablets e celulares com funções e recursos, inventaram uma rede de saberes onde os grupos formavam-se por afinidade de interesses. A rede reunia em grupos as pessoas com interesses em temas e assuntos semelhantes. Diferente de uma rede social como Facebook onde os conjuntos formam-se por amizade entre as pessoas.

Os conteúdos da rede de ciência filosofia história matemática música etc. não eram publicados em canais do YouTube blogs Facebook websites fóruns ebooks e PDF inexistentes. Em vez de meios desconhecidos, publicavam os resultados dos estudos e raciocínios em um meio físico chamado de livro. As descobertas proporcionadas pelos livros ainda existem em muitos lugares diferentes do planeta Terra. São chamadas bibliotecas.

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Montanha

Subiu ao ponto mais alto da montanha alta e atirou-se no espaço. Ainda bem que tinha uma asa delta, senão se esborracharia no sopé da montanha.

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Perdedor

Era uma vez um perdedor mal sucedido zero à esquerda pobre-diabo joão ninguém frouxo bunda mole sem dinheiro e sem posses com uma mania esquisita: não desistia. Podia estar aflito agoniado amofinado angustiado apoquentado atormentado atrapalhado aturdido desencaminhado desnorteado desolado desorientado injuriado perdido perturbado, sem Norte Sul Leste Oeste, todavia não desistia. Desapareceu porque não desistiu de insistir que a hora da sua morte não era a hora de aceitar morrer.

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Troca de função

– Que jogador ruim é você que tanto vacila e demora em chutar a bola!
– Tem algo demais estranho com ela.

– Que é?
– Está pintada de preto e tem um pavio espetado. Um pavio aceso.

– Se for uma bomba, basta apagar o pavio.
– Apaguei.

– Agora chute-a.
– Ainda tem um problema.

– Qual é, desta vez?
– De dentro dela sai um barulhinho de tique-taque.

– Era uma bomba com pavio e agora é uma bomba-relógio.
– Melhor correr antes do ponteiro chegar no zero.

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O circo nº 4

Os palhaços deste circo são leões, os trapezistas são leões, os mágicos são leões, os músicos são leões e leoas, são leoas as equilibristas, o atirador de facas é um leão, leões leoas e leõezinhos são os espectadores. É um circo de leões para leões da terra dos leões leoas e leõezinhos.

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Água

– Onde está previsto você cair?
– No lago. E você?

– No rio.
– Quanta sorte! Chegará ao mar antes de mim.

– Talvez não. Esse rio desemboca no lago da usina hidrelétrica.
– Espere por mim.

– Esperarei.
– Sentirei saudade.

– Eu também.
– A chuva principia. Adeus.

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Vida e morte

Aos 35 anos de idade uma pessoa considera-se jovem com razão. Morrer nessa idade não é aceitável. Ele estava com 35 anos, quando morreu. Morte súbita na madrugada, estava morto ao amanhecer o dia. Divertiu-se com o alvoroço provocado pela descoberta do defunto morto cadáver falecido e finado. Decidiu ficar com finado. Não mais era professor de Matemática, era finado.

No crematório, ficou num canto com uma caderneta na qual anotou os nomes dos que choraram e dos que pareciam indiferentes. Ela, linda de vestido preto, não chorou uma lágrima sequer.

Terminada a cerimônia, todos se foram menos o amigo que prometera jogar suas cinzas no oceano. Que ideia, combinarem que jogariam no oceano as cinzas um do outro. Como previra, os coveiros recolheram as cinzas do chão onde tinham caído com as dos outros cremados. Cinzas, poeira, sujeira, foi tudo pra caixinha entregue ao amigo de tantos anos. Sem outros compromissos, voltou para casa. Ela e alguns amigos arrumavam a casa para outros moradores porque finados moram em lugar nenhum. Jogaram no lixo a camisa vermelha que ela dizia que gostava e não gostava. Para o finado, tudo era engraçado e divertido.

Decidiu viajar. Entrou no ônibus para o aeroporto e pulou a catraca sem que o cobrador se importasse, desceu no aeroporto e entrou no maior e mais bonito avião, estabeleceu-se na primeira classe e não apertou o cinto. Desceu em Paris e visitou a cidade, olhou o quadro da Mona Lisa no Louvre até fechar o museu. Foi a Londres Roma Tóquio e rodou o mundo, sempre nos maiores e mais bonitos veículos de transporte. Encontrou e falou com outros finados. Pareciam tristes os que viajavam fazia mais tempo.

45 anos passaram e decidiu voltar para casa. Sentiu saudades dela. Entrou em sucessivos veículos de transporte até chegar. Encontrou-a sentada na porta da casa, mais velha e ainda bonita para ele. Ao vê-lo, levantou-se e veio em sua direção:

– Você me vê?
– Sim, também morri faz 10 anos.

– Que fez?
– Sentei-me a te esperar.

– Esperou 10 anos?
– Sim, sabia que um dia você voltaria para mim.

– Voltei. Vamos?
– Sim.

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Migrações nº 1

Na migração de gnus e zebras e gazelas no Serengeti africano, uma leva de gnus chegou às margens escarpadas do rio Mara tencionando cruzá-lo para seguir a viagem. Dezenas de crocodilos aguardavam ansiosos a perspectiva de churrasco sem carvão e churrasqueira porque não necessita carvão e churrasqueira dentro da água.

Um dos gnus era esperto garboso e vivaz, tinha planos de unir-se a fêmeas garbosas e produzir filhos netos aposentadoria e nenhum desejo de servir de almoço dos crocodilos.

Nas escarpas do rio tirou os planos de vida do bolso da bermuda – só mesmo bermuda para viajar com aquele calor, releu-os e confirmou nenhum crocodilo em sua vida. Tinha de cruzar o rio a salvo dos famintos répteis. Afastou-se da manada, procurou e procurou até ver não muito longe uma construção atravessando o rio por cima, de um lado do rio ao outro sem descer as escarpas e entrar na água. Aproximou-se da construção, olhou-a e a testou com as patas dianteiras.

Atravessou o rio Mara pela ponte de madeira construída por fotógrafos da National Geographic Magazine também evitando contatos diretos com as mandíbulas dos crocodilos. Como benefício marginal, não molhou a bermuda.

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Memória instantânea

Não podia ir ao cinema porque tinha memória instantânea e percebia os intervalos entre os fotogramas passando a 24 por segundo quando a tela de cinema pisca intercalando imagens fixas com espaços pretos.

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O grito

– Suba ao ponto mais alto daquela montanha e grite para eu te ouvir.
– OK, lá vou.

– Já voltou?
– Sim.

– Gritou?
– Sim.

– Não ouvi.
– Gritei.

– O que gritou?
– Gritei “Consegue me ouvir?”

– Acreditaria se eu disser não ter ouvido?
– Acredito. Sei de um jeito de você me ouvir.

– Qual é?
– Vamos juntos até o ponto mais alto da montanha.

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Os problemas

Seres vivos têm problemas a resolver. Seres vivos resolvem problemas, gostem ou não resolvê-los. Problemas têm magnitude complexidade abrangência prazo urgência premência e incômodo. Tem problemas de postergar adiar esquecer evitar e atribuir, impossíveis inadiáveis inconclusos agradáveis desagradáveis absurdos e estranhos. As pessoas estão entre os seres vivos com muitos problemas. Nas primeiras posições as mães e pais de filhos de quaisquer idades, seguidos em desorganizada desordem pela espécie humana problemática.

Tem alguém apreciador de problemas? Que goste de ter problemas a resolver? É pouco possível. Se tiver, esconde o gosto para não ser chamado de maluco lunático extravagante doido demente mentecapto adoidado alienado e aloprado. Seguro ser possível ter pessoas a confessar evitar não gostar fugir escapulir e escapar de problemas. Também se encontra pessoas resolvedoras de todo e qualquer problema recebido. São os resolvedores de problemas procurados pelos problemáticos e seus problemas que aceitam e todos resolvem. Resolvedores de problemas são proibidos de ter transferir e reclamar de problemas. Você não tem problemas, você os resolve.

O herói desta história era um resolvedor de problemas. Não gostava queria e tentava livrar-se deles sem sucesso, recebia-os, evitava-os, resolvia-os, mas os resolvidos eram logo substituídos. Em posição de resolvedor de problemas podia deles reclamar consigo, mas estava proibido de fazê-lo ao distinto público. Tanto reclamou para si próprio dos problemas a resolver que resolveu parar de reclamar. Cansou-se de ouvir-se reclamar, trocou de resolvedor odiador para resolvedor apreciador de problemas principiados a reduzir medida frequência abrangência qualidade e magnitude. Convidaram-no a integrar a confraria de gostadores de problemas sem problemas cujo lema era Gostamos de problemas! Queremos problemas!

Secreta e em sigilo, a diretoria da fábrica de problemas combinou reunião urgente necessária e de emergência para discutir o combate e destruição da confraria de resolvedores de problemas que devem incomodar aborrecer maltratar e fazer mal, não alegrar entusiasmar animar e fazer rir.

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As imagens do televisor

Ligou o televisor e viu imagens de um programa que não gostava. Alguém virou a antena parabólica na direção de Júpiter outra vez.

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Adeus

Acordou no fim da madrugada. Pensou que devia a si mesma uma atitude transformadora radical. Do silêncio da casa deduziu estar só.

Guardou na pasta os papéis e algumas roupas na maleta, trancou portas e janelas e verificou se estava apagado o fogão, saiu trancando a porta atrás de si.

Jogou as chaves da casa no primeiro latão de lixo pelo qual passou. Andou até o terminal rodoviário. Comprou um bilhete de ida e embarcou no ônibus que partia. Não olhou para os lados e para trás.

Nunca mais a viram ou ouviram falar dela.

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Se correr, o bicho pega

– Fuja que a polícia vem aí.
– Eu sou a polícia!

– Então, fuja de si mesmo!
– Não posso, preciso prender o fugitivo.

– Então prenda-se a si próprio.
– Como é prender-se a si próprio?

– Faça cara de polícia e de fugitivo e prenda as algemas no braço do lado do fugitivo e leve-se à prisão.
– E depois?

– Prenda-se e vigie-se.
– E se eu escapar de mim mesmo?

– Persiga-se e prenda-se outra vez.

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Jogos de futebol

Dentro do estádio de futebol, amendoim cerveja e pipoca, alegria aplausos gritos rojões e vaias, chutes na bola gols jogo e torcidas dos dois times. Perto dos portões, do lado de fora, dois meninos esperam. Não têm o pouco dinheiro para pagar as entradas quase sem custo e por isso esperam. O pai passou e entrou sem pagar porque é pessoa importante na cidade para a qual é franqueado o ingresso no estádio. Os dois meninos não são importantes, se não pagam não entram ou têm de esperar.

Súbito, ele chegou. Um homem rico e importante da cidade nem sempre ia ao estádio, porém se ia mandava abrir os portões e deixar entrar os do lado de fora. Foi assim que os dois meninos entraram no estádio na tarde de domingo e viram um pouco do grande jogo quase terminado.

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Operário do cinema

Trabalhou em milhares de filmes. Era a pessoa responsável por escrever “Fim” nos créditos finais.

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As imagens

A oficina de consertos de câmeras fotográficas analógicas, de certa forma mudara de ramo de atividade, mas continuava com os mesmos nome placa e endereço porque o dono era conhecido de fotógrafos, cineastas, empresas de locação de aparelhos engenhos peças e fabricantes de binóculos lunetas lupas microscópios e telescópios como exímio capaz e competente construtor de lentes espelhos objetivas e peças para produtos fotográficos. Nos últimos tempos, as encomendas de lentes o mantinham ocupado embora a renda financeira fosse menor que na época áurea das câmeras analógicas. Os trabalhos com as câmeras trazidas para conserto eram quase sempre de restauração de câmeras encontradas em baús caixas e fundos de armários que as pessoas queriam guardar como lembrança dos tempos passados. As câmeras entravam na oficina sujas quebradas desreguladas e com peças faltando, saiam limpas consertadas reguladas e com operação perfeita.

Fala pouco quem trabalha só, quase todo o tempo está em silêncio a ouvir os raciocínios e desenvolve sentidos parecidos aos reais mesmo não o sendo. O homem que pensava prever eventos, não se importava se errava, acertou na manhã do dia 1 de janeiro quando acordou e abriu as portas da oficina em hora anterior à de costume. O homem mais velho e sorridente entrou na oficina no meio da manhã, carregando uma caixa bonita feita de madeira bonita entregue sem nada dizer, sem pedir um recibo assinado, despediu-se com um aceno de mão e foi-se embora sorridente e silencioso como ao chegar. Os outros clientes vinham à oficina limpa arejada e iluminada, falavam riam contavam e apresentavam os filhos pequenos a acompanhá-los, bebiam café água suco chá refrigerante e cerveja oferecidos, olhavam examinavam e compravam as câmeras à venda expostas na vitrine. O único cliente daquele dia entrou sorridente, depositou sorridente a caixa sobre o balcão e sorridente saiu sem falar nenhuma palavra.

A caixa com o formato de um pequeno baú foi fácil de abrir e mostrar o conteúdo. Um caderno escolar para desenhar sem pauta completo com escritos e desenhos e diagramas e gráficos e tabelas de números, blocos de bom cristal para construir lentes, lâminas de bom cristal para construir espelhos, vidros de produtos químicos, seis telas LCD e peças de câmeras fotográficas analógicas. Abriu uma cerveja gelada pedida pelo evento, guardou a caixa no armário, colocou sobre a mesa o caderno que leu da primeira à última página. Anoitecera, fechou a oficina, guardou o caderno na caixa e encerrou o dia.

Na manhã seguinte, pendurou do lado de fora da oficina um cartaz onde informava que abriria após o horário do almoço, saiu a pé porque não tinha carro, na padaria comeu o café da manhã que daria para dois, comprou uma rosa para enfeitar a lapela do paletó, na sorveteria vazia àquela hora pediu uma taça de sorvete de café e maracujá, na cafeteria bebeu um cappuccino acompanhado de um cálice de licor, leu o jornal sentado num banco da praça, no restaurante pediu arroz à grega um bife acebolado uma cerveja pequena um café cremoso e a conta, passou no banco para conferir o saldo da conta corrente, reabriu a oficina, terminou os trabalhos pendentes, telefonou aos clientes para avisar, preparou a bancada de trabalho sobre a qual depositou a caixa, ligou na tomada de eletricidade o aparelho de rádio Semp de válvulas e ajustou o dial de sintonia para uma rádio de só tocar música clássica.

Começou o dia antes da aurora. Relembrou o texto lido no caderno. Eram informações e instruções diagramas planos e desenhos do projeto, tabelas de números das lentes e espelhos, instruções de testes informações do pagamento do trabalho e retirada do produto. Em sua conta corrente bancária fora depositado o valor igual a um ano do maior ganho mensal da oficina em todos os tempos, isto é, o valor igual a 12 vezes o maior valor faturado em um mês. A caixa com a câmera a ser fabricada seria retirada após um ano pelo mesmo homem mais velho sorridente.

Ele entendia de câmeras fotográficas analógicas e também das digitais. Aquela a construir não era analógica porque não teria lugar para o filme fotográfico e não era digital porque não teria lugar para bateria e cartão de memória. Qual a serventia das seis telas LCD, se as digitais têm apenas uma atrás? O projeto exigia uma objetiva com lentes e espelhos em número maior e tipos diferentes das objetivas conhecidas, embutida e invisível do lado de fora da câmera, montada num giroscópio para girar para cima para baixo para a direita para a esquerda para a frente e para trás. Embora o projeto não tivesse o desenho do produto pronto, ele cumpriu as etapas de construção e produziu uma câmera fechada de modo hermético, sem botões de ligar desligar e fotografar, com giroscópio objetiva e demais peças em um cubo com uma das seis telas LCD em cada um dos seis lados.

Completada a construção da câmera as informações e instruções apareceram nas telas. As curtas repetidas nas seis telas e as longas em partes cada parte em uma tela. As mensagens elogiavam e agradeciam o seu trabalho e esforço, pediam-lhe levar a câmera para lugares diferentes da cidade, instruíam os testes, os ajustes na objetiva e a adição de lentes e espelhos. Foi assim que ele entendeu porque a caixa continha, ao ser entregue, tantos blocos e lâminas de cristal, e as instruções do caderno pediam construir lentes e espelhos em número maior de uso inicial.

As primeiras fotos de animais e objetos eram imagens semelhantes às de outras câmeras. Nessa fase, a câmera ignorava as pessoas e não as mostrava nas imagens. Com ajustes e adição de lentes e espelhos, as imagens apareceram nas seis telas como num holograma: o gato de frente detrás da direita da esquerda de cima e debaixo. As imagens de uma casa geminada apareceram como se a casa estivesse isolada e, impressionante, a tela debaixo com a imagem da casa a partir de um ponto no solo embaixo das fundações.

As mensagens se sucediam: Leve a câmera ao zoológico onde em animais selvagens, ao parque infantil onde tem crianças e mães, ao circo à biblioteca e à livraria, A câmera funciona e aprende bem, parabéns ao construtor.

As primeiras fotos de pessoas eram como as de animais e objetos, imagens estáticas de seis ângulos de visão. A adição dos últimos espelhos e lentes produziram a alteração definitiva e as imagens da câmera passaram de pessoas estáticas para filmes. Contaram as mensagens que os filmes exibiam as pessoas durante a filmagem e prosseguiam no futuro representado pelas intenções delas. A câmera filmava o presente e o futuro, as pessoas no presente e as intenções delas no futuro!

Na manhã de 31 de dezembro, entrou na oficina de consertos de câmeras fotográficas analógicas o mesmo homem mais velho sorridente, entregou-lhe um envelope sem destinatário e remetente, pegou a caixa bonita feita de madeira bonita, despediu-se com um aceno de mão e foi-se embora sorridente e silencioso como ao chegar.

O envelope continha uma folha de papel com escrita em letra igual à do caderno, elogiando seus conheceres e competência e informando que, para agradecer o esforço o trabalho o serviço e pagar futuras encomendas, em todo dia 1 de janeiro de todos os anos de sua vida seria depositado em sua conta corrente bancária o valor igual a um ano do maior resultado mensal da oficina em todos os tempos, isto é, o valor igual a 12 vezes o maior valor faturado em um mês.

Em 1 de janeiro, saiu a pé como de costume porque ainda não tinha carro, comeu o café da manhã na padaria, pediu uma taça de sorvete de café e limão na sorveteria, na cafeteria sentou-se numa mesa da calçada e pediu um café com leite um pão de queijo e um cálice de licor Marasquino, leu o jornal, foi ao restaurante onde pediu um filé à parmegiana com fritas extras um chope escuro um café cremoso e a conta, na papelaria comprou um caderno escolar sem pauta para desenhar de 150 folhas. De volta à oficina, ligou o rádio Semp de válvulas, sobre a bancada arrumou as canetas tinteiro Sheaffer Parker 21 e Lamy, abriu o caderno e escreveu com a caneta tinteiro: Manual de Produção e Método Espinoza de Polimento de Lentes Esféricas para Câmeras Fotográficas.

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O engenheiro de som

O som do mar que jamais pararia foi reduzido ao silêncio pelo engenheiro de som do filme.

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Percepção

Era capaz de perceber o fim de um filme algumas cenas antes e não adivinhou o fim da própria vida alguns meses antes.

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Loucos

  • Então, fica assim.
  • Ele é louco por ela e conta para ela que é louco por ela.
  • Ela é louca por ele e conta para ele que é louca por ele.
  • Ele repete para ela, Sou louco por você.
  • Ela repete para ele, Sou louca por você.
  • Ele fala só para ela, Sou louco por você. Fala, segurando as mãos dela e olhando-a nos olhos. Ou no ouvido dela, quando se abraçam.
  • Ela fala só para ele, Sou louca por você. Fala, segurando as mãos dele e olhando-o nos olhos. Ou no ouvido dele, quando se abraçam.

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O rio que subia montanhas

O rio que subia montanhas nascia no alto da montanha e tinha a foz em um rio maior no vale no sopé da montanha. Era densamente povoado por pequenos peixes amarelos azuis verdes e vermelhos da espécie oribata pisces. Eram peixinhos alpinistas, uma espécie de peixes que, naquela época, só eram vistos nesse rio onde tinha em tão grande quantidade que, ao subirem a montanha, levavam consigo as águas do rio. Em consequência, o rio estava sempre de volta à nascente e pouca água dele chegava ao vale e à foz.
Certo dia, circulou entre os peixinhos a notícia de um rio que nascia na montanha vizinha muito mais alta do que esta e também desaguava no grande rio no vale. Mudaram-se todos e o antigo rio onde moravam tem saudade deles, da agitação que causavam nas águas e das crianças apontando das margens os cardumes de oribata pisces a subir a montanha.


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