O rádio

capa de livro de contos de Benedito CarneiroEstava no porão da casa. Um aparelho limpo, reluzente e com aparência de novo. Decidiram-se por um rádio porque se parecia com a ilustração de um rádio de um velho livro de história antiga. Diferente do artigo do livro, este não tinha fio para ligar à rede de eletricidade nem lugar para baterias ou pilhas. Não tinha controles e botões para ligar desligar mudar de estação crescer e diminuir o volume. Não tinha mostrador para indicar a estação sintonizada e os rádios do livro tinham os botões e mostradores.

A dona da casa colocou-o sobre um móvel da sala de visitas. O bonito e estranho aparelho virou um objeto de decoração.

O menino não se contentou de só olhar. Andou em frente do estranho aparelho, dançou passos da dança da moda, fez ginástica. Nenhuma reação aconteceu. Ia quase a desistir, quando fez um gesto de adeus com a mão espalmada e o aparelho ligou e passou a tocar música desconhecida.

O menino repetiu o gesto no nível do chão e em pé sobre uma cadeira na outra sala e, de novo, nada. Repetiu o gesto de adeus quase no mesmo lugar de antes e o aparelho desligou-se. Logo descobriu que o rádio era controlado por gestos das mãos à distância. Precisava de gestos especiais para ligar desligar trocar de estação subir e diminuir o volume.

Não sabia o menino. O rádio era presente de um planeta habitado no centro da Via Láctea. Os habitantes do planeta construíam aparelhos de rádio para reproduzir os programas difundidos por emissores de rádio dos planetas habitados da galáxia. Construíam e presenteavam em segredo os aparelhos, escondendo-os em lugares inesperados e inusitados. O rádio no porão fora um presente aos antigos moradores da casa onde ainda não morava um menino para descobrir como funcionava.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

Comentários estão fechados