Os presentes

capa de livro de contos de Benedito CarneiroAo amanhecer o dia, os moradores das cidades viram objetos inexistentes ali na noite anterior. Eram poliedros regulares e irregulares, cilindros paralelepípedos pirâmides esferas cones troncos de cone e cubos. Cilindros com 3 m de altura e 1 m de diâmetro da base, os tamanhos dos outros objetos eram semelhantes. Os mais bonitos eram as esferas de aço, parecia aço, objetos imponentes com 3 m de diâmetro. Não eram pesados porque não danificaram os pisos e gramados onde estavam pousados. Produziam sons de oco e sólido, se tocados pelas crianças a caminho da escola. Limpos e luzidios, foram associados a campanhas de propaganda. Em alguma manhã estariam cobertos de cartazes de propaganda, era só esperar. A gente os incorporou à paisagem. Alguns foram pichados, em outros colaram cartazes de propaganda, na manhã seguinte estavam limpos e brilhantes.

Um dia, uma menininha de volta da escola tinha na mão uma folha de papel com a família desenhada. Ao passar pela praça do objeto, cochichou ao irmão mais velho ao seu lado. Ele pegou um rolinho de fita adesiva da mochila, cortou um pequeno pedaço, colou-o na desenho da irmã. Pequenina e sorridente, ela aproximou-se do objeto e prendeu nele o desenho. O lojista de frente da praça pensou com um pouco de pena que na manhã seguinte o desenho teria desaparecido. Estava enganado. Na manhã seguinte, ao abrir a loja estava o desenho da menininha onde fora colado.

Outras crianças tiveram a mesma ideia. Os objetos ao redor do mundo apareciam cobertos de folhas de papel com desenhos desenhados por mãos pequenas. Chovia e os desenhos não se molhavam. As pichações inevitáveis sumiam à noite. Os desenhos ficavam incólumes. Ninguém além da criança que colara o desenho podia trocá-lo por outro. Toda noite, ninguém sabia como, os desenhos eram reorganizados de baixo para cima de acordo com as idades dos pequenos desenhistas. O lojista da praça era capaz de jurar, sem ter certeza, sempre ter espaço no objeto para novos desenhos, como se ele crescesse de tamanho. Os adultos sentiam pena das crianças, quando os cartazes de propaganda cobrissem os desenhos.

No Hemisfério Sul teve a Primavera e o Verão, no Hemisfério Norte o Outono e Inverno. As estações do ano sucederam-se e a vida de todos continuou quase normal porque aconteceu de em cada comunidade dos objetos as pessoas principiarem a interessar-se pelos mesmos assuntos.

Fabricação de objetos para música nesta cidade. Naquela, relógios cuco de madeira. Em outra, produção de livros escolares bonitos coloridos úteis e atraentes. Estudavam o assunto, compravam máquinas, preparavam oficinas, procuravam informações e ajuda com fabricantes de máquinas de outros lugares. O fenômeno repetiu-se em outras comunidades dos objetos. Pessoas de diferentes profissões, condições socioeconômicas e idades com interesses semelhantes, despertados sem ninguém soubesse a causa, falavam do interesse mútuo, trocavam informações e ajudavam-se.

As notícias dos interesses coletivos espalhadas causaram outro fenômeno. Pessoas de interesses iguais às dos habitantes das cidades iniciaram falar com eles para trocar informações oferecer ajuda professores máquinas e ajuda financeira. Enviaram máquinas técnicos professores e material para ensinar e contribuir para desenvolver as atividades. Desenhistas mudaram-se para a cidade dos interessados em desenhar histórias em quadrinhos. Professores foram ensinar quem queria aprender Matemática. Sem saberem onde como e por que começaram os interesses coletivos.

Os objetos sumiram como apareceram, de repente e sem aviso. Levaram os desenhos das crianças. No lugar de cada objeto ficou uma pilha de pequenos cubos, cada um com o nome de uma criança que colara seus desenhos. Se a criança segurava o cubo nas mãos ele exibia nas seis faces as fotos da criança fotografada de dentro dos objetos.

São Gabriel da Cachoeira é um município brasileiro no estado do Amazonas. Situado às margens do Rio Negro, no extremo noroeste na região conhecida como Cabeça do Cachorro, é um dos municípios de fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. Em São Gabriel da Cachoeira com os cubos de fotografias também ficou um caderno escolar. Os moradores decidiram entregar o caderno à primeira criança da cidade que colara um desenho em um dos objetos. Ela decidiria o que escrever no caderno.

A pequena menina indígena da tribo dos Miriti-Tapuya levou o caderno para casa. No mesmo dia começou a escrever no caderno em língua Tukano. Uma história de visitantes de bastante distante no espaço sideral chegados ao Sistema Solar em uma nave espacial. Dela enviaram à Terra os emissários em pequenas naves com forma de poliedros regulares e irregulares. Os emissários tinham uma missão a cumprir. Não pretendiam porque não previam partir da Terra com desenhos de pequeninas mãos de crianças de países e lugares do planeta.

No dia seguinte, a menina Miriti-Tapuya entregou o caderno a outra criança para continuar a escrita da história. São Gabriel da Cachoeira tem quatro idiomas oficiais, Português Nheengatu Tucano e Baníua. De modo que o caderno esteve em mãos de quatro crianças. Cada uma escreveu no idioma da sua etnia. A história foi por fim contada em quatro idiomas.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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