Os seixos levam as águas do rio ao topo da montanha

capa de livro de contos de Benedito Carneiro

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Educação

– Quer dizer que você nunca fala palavrões? – intrigado.
– Sim – este não fala palavrões.

– O que você exclama, se chuta um obstáculo com o pé descalço e machuca o dedão?
– Ai, machuquei o dedão do pé. Se tomasse mais cuidado ao andar, evitaria acidentes.

– Sua reação é civilizada comedida e elegante, mas é absurda e anormal. Ninguém dá uma topada com o pé e machuca o dedão e reage com tanta frieza e civilidade. Qualquer um que chuta um obstáculo e arrebenta o dedão e descarrega os palavrões mais escabrosos que conhece.
– Não sou qualquer um.

– Ninguém é qualquer um, quis dizer que a reação normal e aceitável é a explosão de raiva. Você também não fala gírias?
– Não falar gírias é mais fácil que não falar palavrões. Os palavrões são falados sem pensar em explosões inesperadas. Quem se habitua a falar palavrões acostuma-se com eles e os repete mesmo se não seriam necessários. Falar gírias indica preguiça ou vocabulário ruim. Gírias são artificiais e não substituem as palavras do dicionário.

– Você nunca falou palavrões ou passou a não falá-los?
– Deixei de falar palavrões porque me cansei deles. Explosões de palavrões menos resolvem os problemas do que causam outros. Gírias e apelidos nunca falei. O dicionário tem palavras para exprimir conceitos e ideias com objetividade e clareza. Gírias e apelidos são sem necessidade porque inúteis.

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Tarde demais

– Você por aqui!
– Quanto tempo!

– Como tem passado?
– Muito bem. Casei-me, sabia?

– Sim, soube no dia do seu casamento. É feliz?
– Sou, mas tenho saudade de nós. Não devia, sei que não devia, contudo sinto assim mesmo.

– Não posso dizer que não devia, se lhe é impossível sentir.
– Agora sou uma mulher casada e feliz no meu casamento.

– Se é casada e feliz, por qual razão sente saudade de nós?
– Talvez da angústia incerteza e do descontrole do bater de nossos corações quando nos encontrávamos.

– Tarde demais.
– Sim, tarde demais. Talvez nos encontremos em outro dia.

– Duvido muito. Estou de partida para outro país. Nunca mais voltarei.
– Por que diz que nunca mais voltará?

– Porque não terei razões para voltar aqui.
– Então, adeus.

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O leão nº 6

Todos os dias o leão ia para o trabalho e a zebra estava na janela. Todos os dias ao passar próximo à janela da zebra, o leão ouvia piadinhas:
– Quanta elegância! Ele foi ao cabeleireiro. Fez luzes e encheu de laquê a juba? Fofo!

O leão ficava uma fera e seguia o seu caminho. Era um leão pacífico que evitava conflitos. A situação tinha um detalhe intrigante: ele ouvia o som vindo da zebra, porém não a via mexer a boca. Até que, um dia, irritou-se demais e reclamou com a zebra. Ela se defendeu:
– Não sou eu quem te provoca. É o papagaio marido da girafa moradora aí em frente. Ele é ventríloquo.

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Futebol

Futebol é com eles. Na cidade pequena e pobre, a gente se divide entre os fãs das duas equipes de futebol que jogam uma contra a outra e trocam os jogadores entre si de modo a manter as duas equipes semelhantes em poderio futebolístico. É claro que, assim como os jogadores, os torcedores também trocam de time de torcida. Depois de um jogo, uma parte dos torcedores muda a torcida para os vitoriosos, enquanto a outra parte passa para o lado dos perdedores, coitados, perderam o jogo de ontem.

A cidade é pequena, todos comparecem aos treinos e jogos. Treino é modo de dizer porque para eles tudo é jogo. Irem todos é causa de uma situação interessante. Só tem jogos à noite porque durante o dia tem aulas na escola, missas na igreja, lojas abertas com vendedores e compradores, a cidade não para durante o dia nem nos fins de semana porque as galinhas também comem aos domingos.

Já disse que a cidade é pequena e pobre? Pois é. Não tem energia elétrica, menos ainda no estádio de futebol, se assim se pode chamar os barrancos para a torcida em volta do gramado do próprio da municipalidade, simpático nome dado pelos cronistas esportivos brasileiros aos estádios de futebol das prefeituras municipais administradoras.

Por conseguinte, jogos só nas noite da Lua cheia a iluminar o campo, os jogadores, o juiz, os bandeirinhas, a torcida e os vendedores de amendoim. Isso quando tem Lua cheia, mais ou menos sete noites de cada mês. Isso quando não chove ou não está o tempo nublado.

A noite de ontem foi de Lua cheia, céu claro, sem nuvens nem ameaça de chuva. Torcida aplausos vaias risadas palpites e cascas de amendoim atiradas para todo lado. De vez em quando, um casal entusiasmado fugia para trás de um dos barrancos para voltarem dali a alguns minutos sorridentes e ainda abraçados.

Na noite de Lua cheia todos se divertiam e duas ou três nuvens vieram ver o que sucedia e sem querer foram à frente da Lua. As nuvens e o jogo pararam. As nuvens perceberam que incomodavam e moveram-se para o lado. O jogo recomeçou até aparecerem outras nuvens curiosas.

Nuvens e jogo, jogo e nuvens, nuvens jogo e jogo, nuvens nuvens e nuvens. Muitas nuvens juntas atraíram a curiosidade da chuva que chovia em outra cidade, veio ver o que acontecia e acabou com o jogo da noite e motivou uma desabalada correria para casa no escuro.

Hoje, ninguém se lembra do resultado do jogo mais demorado e divertido da temporada. Para o jogo da noite de Lua cheia de hoje os torcedores levarão capas e guarda-chuvas porque os jogadores avisaram que continuarão o jogo mesmo que chova porque o espetáculo não pode parar.

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Colt calibre 38

Após a declaração dela e aviso de fim de relações porque não mais o amava retirou-se da casa, levava no coldre o revólver Colt calibre 38 com o qual atirou no gato preto arisco que fugiu com quantas pernas tinha, ainda bem que não foi atingido, todavia se assustou com o barulho do estampido porque o atirador era mau atirador e guardou o revólver Colt calibre 38 no coldre porque não queria atirar em si mesmo e ferir-se porque se sentiu contente alegre e aliviado por estar livre da relação desagradável e enfadonho com aquela megera coroca, megera no sentido de mulher faladora em William Shakespeare e coroca no sentido de mulher resmungona em língua indígena Tupi.

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Os pijamas

Toda manhã, levantava da cama e tirava o pijama, dobrava-o e arrumava sob a coberta da cama arrumada. Nos sábados de manhã, punha o pijama usado na lavadora de roupas e pegava do armário um pijama limpo.

Tinha vários pijamas coloridos de tecidos macios. Os curtos para as noites de primavera e verão, os longos para outono e inverno, os de algodão para primavera e verão, os de flanela para outono e inverno, para qualquer noite os de listras bolinhas e bichinhos, os com motivos natalinos e praia e campo.

Depois de tirar o pijama saía para o trabalho. Morava e trabalhava numa colônia de nudismo, mas para dormir preferia o conforto do pijama!

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Como é a situação?

– Como é a situação?
– Uma confusão generalizada incontrolável, um ‘sai da frente que atrás vem gente’, um ‘não empurrem aí atrás’, um ‘mais depressa aí na frente’, um ‘senta que o leão é manso’, um ‘não pise no meu pé’, um ‘sabia que beliscão também dói?’, um ‘socorro! o que faço agora?’, um ‘corre que o trem não espera’, um ‘isso não vai dar certo’, um ‘isso ainda vai provocar confusão’, um ‘eu bem que avisei’.

– Todo o tempo?
– Não. Em grande parte do tempo é ‘como foi que vim parar nesta situação?’.

– Não foi avisado?
– Não. Eu queria ter sido avisado por carta expressa registrada em três vias assinadas com firma reconhecida em cartório, telegrama telegrafado em telégrafo sem fio, sinais de fumaça, toques de tambor, mensageiro a cavalo, short message tcc (também conhecida como) mensagem curta, sinais com bandeiras, mensagens por satélite telefone ou cabo submarino, email, whatsapp. Até em pessoa.

– Por que não foge?
– Ela está impregnada na minha vida. Não sei onde eu acabo e ela começa nem onde ela acaba e eu começo. Jamais me livrarei dela. É parte e não é apêndice.

– Então, não tem saída?
– A saída é correr sempre e jamais parar.

– Tem pra onde correr?
– Nem sempre. Se não tem, corro sem sair do lugar. Sempre é uma corrida.

– Resulta?
– Duvido. Conhece o ditado ‘Se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega’?

– Sim.
– Então…

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Poder

Entrou no quarto, acendeu a luz no interruptor perto da porta, sentou-se na cama longe da porta, abriu o livro na página marcada, leu duas páginas, sentiu sono, repôs o livro na pequena mesa na cabeceira da cama e olhou o interruptor, como seria bom não ter de levantar para apagar a luz.

Continuou a olhar de dentro dos raciocínios o interruptor que suave e lento moveu-se para a posição de luz apagada. Agora é não conseguiria dormir, depois do evento impossível de desligar o interruptor sem tocá-lo. Todavia o sono vem e adormece até os atônitos e estupefatos, como este que agora dorme como uma criança inocente.

Na manhã seguinte, decidiu que tinha sonhado e devia parar de beber café depois das 6 da tarde, embora não conseguisse imaginar a relação entre os sonhos e os cafés.

Era telecinético e não sabia, era curioso e sabia. De brincadeira, moveu para perto de si os objetos da mesa de trabalho. Uma caneta, o bloco de anotações, o aparelho de telefone. Sem tocar nela, abriu a gaveta e dela moveu uma folha de papel para cima da mesa, fechou a gaveta.

E um objeto maior que uma caneta? A cadeira da mesa ao lado? Quando estiver vazio o escritório, senão pensarão que um fantasma moveu a cadeira. Agora, sim, saíram todos para o almoço. Lá vem a cadeira lenta, mas vem. Que farei com esse estranho poder que não sei de onde e por que veio? Pra começar, me divertir.

Da sua mesa, guardou as canetas das mesas dos colegas de trabalho nas respectivas gavetas. Imaginou a cara que fariam ao voltar ao almoço. Ao descer para a rua, apertou os botões de todos os andares no elevador. As outras pessoas que também desciam comentaram de pane no sistema do elevador. Saiu do elevador no térreo do prédio quase gargalhando de tanto rir.

Na esquina, mudou para o vermelho todos os semáforos, veículos e pedestres ficaram no lugar em silêncio nos 10 segundos suficientes para começar o barulho das buzinas impacientes. No ônibus lotado de passageiros, abriu e fechou as portas fora dos pontos de parada, causando risos piadas e gracejos com o motorista perplexo.

Na manhã seguinte, não foi direto para o escritório porque devia vistoriar uma fábrica abandonada com um galpão enorme a ser demolido. O galpão tinha centenas de metros quadrados de área e parecia maior ainda por estar tão vazio. Ele entrou por uma pequena porta num dos cantos, encantou-se com o som dos próprios passos no vazio, foi ao ponto mais próximo do centro para dali fotografar os lados.

Então, olhou demorado para o alto e atraiu para si o imenso teto de ferro concreto e zinco. Com tristeza, percebeu que seria impossível correr até a porta de saída.

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O rei nº 1

Era o rei, mandava porque era o rei, os súditos obedeciam porque ele era o rei e eles não. Era bem humorado, gostava de rir das piadas que inventava para os súditos sempre à espera de outra brincadeira real. Não se atreviam a contrariar os decretos jocosos do rei, primeiro porque ele era o rei e mandava, segundo porque ele também participava das piadas e, se ria dos súditos, não se importava se riam dele.

Os decretos eram editados pelo Ministério do Riso sem ministro funcionários e escritórios, entravam em vigor na semana seguinte à da publicação e tinham validade de um dia entre o nascer e o por do sol.

Um decreto decretava usar só um pé de sapato e andar com o outro pé descalço. Nas ruas nos escritórios em todos os lugares, as pessoas pareciam mancar pela falta do primeiro ou do segundo pé de sapato. Os visitantes estrangeiros que conferenciaram com o rei voltaram para casa perplexos com aquele estranho costume de economizar um pé de sapato.

Outro decreto mandava dar um pulinho a cada cinco passos. Como o decreto não mencionou o tamanho dos passos, teve gente que quase causou-se uma distensão muscular ao encompridar os passos para evitar o agir ridículo de dar pulinhos elegantes vestido com roupas de trabalho.

No mês passado, o Ministério publicou um decreto com 10 páginas que mandava fazer isto aquilo mais isto e mais aquilo, e na página 10 decretava que ninguém devia cumprir as instruções das primeiras nove páginas.

Ontem, o Diário Oficial publicou o texto do último decreto do Ministério do Riso para entrar em vigor na próxima semana. Os homens deverão vestir as roupas das mulheres e estas deverão as roupas deles. No seu programa diário de rádio Café da Manhã com o Rei contou que a rainha já escolheu a roupa dele que usará e o vestido dela que ele vestirá. Contou também que o príncipe seu filho solteiro já combinara trocar sua roupa com uma amiga solteira porque a mãe não lhe emprestou um dos seus vestidos.

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Os vampiros

Comprou um megafone potente, pediu emprestado ao quitandeiro um caixote para aguentar o seu peso e levou-o ao coreto do jardim da praça onde a banda tocava aos domingos, subiu no caixote e ligou o megafone e chamou algumas vezes virado para leste norte oeste e sul:
– Ouçam todos!

Quanto conseguiu reunir ouvintes suficientes revelou-se:
– Sou um vampiro malvado!

Ouviu-se gargalhada geral. Todos os ouvintes passantes e transeuntes riram ao ouvir a terrível revelação.
– Duvidam de mim? Não têm medo? Pois olhem os meus caninos prontos para morder pescoços e chupar o sangue das vítimas!

Ouviu-se mais risadas mais altas e debochadas. Um a um os vampiros ouvintes passantes e transeuntes mostravam os caninos de morder pescoços, enquanto riam da surpresa do vampiro malvado amuado.

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É a mãe

– Ana Bolena, cuidado para não perder a cabeça por causa desse tal de Henrique VIII.
– Bianca, avise a sua irmã Catarina que procurou por ela um tal de Petruquio, tão mal educado quanto sua irmã.
– Cigana Esmeralda, coma toda sua comida senão chamo o Corcunda de Notre Dame pra te pegar!
– Cristóvão Colombo, quem põe ovo em pé é a galinha ou a pata e não você!
– Edson Arantes do Nascimento, já pra aula de piano! Pensa que vai ganhar a vida jogando bola?
– Julieta Capuleto, saia detrás desse muro com esse tal de Romeu Montecchio! Isso ainda vai dar problema!
– Ludwig van Beethoven, vá estudar matemática. Esse menino não me ouve, parece surdo.
– Ludwig van Beethoven, vá fazer a lição de casa. Pare de fazer V com os dedos e cantar Pã Pã Pã Pãã.
– Olhe, Príncipe Hamlet, o que tem de podre no reino da Dinamarca é aquilo escondido debaixo da sua cama neste quarto imundo!
– Que diabo, Robin Hood! Distribuiu o dinheiro da merenda entre seus amigos! Pensa que seu pai é rico?
– Rainha Cleópatra Thea Filopator, saia detrás dessa pirâmide com esse tal de Marco Antônio! Isso ainda vai dar problema!
– Rei Ricardo I, não é por ser conhecido como Ricardo Coração de Leão que comerá essa carne gordurosa. Cuidado com o colesterol!
– Ricardo III, que história é essa de trocar seu reino por um cavalo? Não gosta mais da bicicleta?
– Romeu Montecchio, pare de brincar de médico com essa sirigaita da Julieta Capuleto! Isso ainda vai dar problema!

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Espera

Foi à janela, olhou a rua ansioso e esperançoso e não a via, ela não vinha e ele a esperava tanto, ela demorava e passava de meia-noite, seria ela no táxi que passava ou no ônibus que parou na esquina, por que ela não vinha, será que não mais o amava, foi outra vez à janela, noite alta e escuridão, olhou a rua e nada viu porque mal via o mundo escuro da janela da sala no 25º andar.

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O leão nº 7

O circo tinha um leão escondido dos espectadores dos espetáculos porque era um leão malcriado. Se entrava em cena, urrava palavrões escabrosos e escandalosos que afligiam e ofendiam as damas e senhoritas da plateia. Também era um leão comilão. Nem bem entrava em cena e logo comia o novo domador contratado. Depois dos palavrões.

No dia seguinte, o dono do circo tinha de anunciar no jornal que o circo contrataria outro corajoso e gordo domador de leões. Além de pagar o custo do anúncio tinha de aguentar o risinho debochado da moça do jornal anotadora dos pedidos de anúncios. Cada vez tinha menos candidatos ao posto. Os maus modos do leão eram conhecidos.

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O circo nº 7

Era uma vez um circo sem animais amestrados atiradores de facas ciclistas contorcionistas corda bamba domadores elefantes equilibristas globo da morte leões mágicos malabaristas mestres de cerimônia motociclistas músicos palhaços tigres trapezistas trapézio e ursos.

O circo tinha uma sessão em cada noite da semana. Nas tardes dos sábados e domingos tinha matinê para crianças.

A entrada era livre, ninguém pagava ingresso. Apesar disso esgotava-se a lotação de todas as sessões. Vinha gente de outras cidades para assistir aos espetáculos. Espetáculos não espetáculos como seria esperado porque nada acontecia nas duas horas de cada sessão. Os espectadores entravam em silêncio, sentavam-se nas arquibancadas de madeira e olhavam para o picadeiro vazio iluminado. Permaneciam em silêncio até que a iluminação do picadeiro se apagava indicando o fim da sessão.

O circo mudava-se de uma cidade para outra sem que ninguém visse quando e como era desmontado numa cidade e montado na outra. Curiosos que espionavam nada viam. Os ambulantes que vendiam algodão amendoim balas balões de gás brinquedos doces e pipoca contavam que jamais viam alguém do circo em qualquer hora do dia. Enfim, um mistério o circo e mais misterioso ainda o modo de agir dos espectadores.

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Filhas, filhos e mães

– Mamããããããe!
– Tô com fome, mãe!
– Tô com frio, mãe!
– Ah, mãe!
– Ah, mãe, só mais um pedacinho!
– Ah, mãe, só mais um pouquinho!
– Olha ele, mãe!
– Olha ela, mãe!
– Mãe, cadê você?
– Mãe, cheguei!
– Mãe, vou sair!
– Mãe, cadê o pai?
– Mãe, viu meu caderno?
– Mãe, tirei 10 na prova!
– Mãe, que roupa usarei na festa?
– Mãe, este é o meu namorado.
– Mãe, esta é a minha namorada.
– Mãe, passei de ano!
– Oi, mãe, tudo bem?
– Mãe, tenho uma novidade pra contar.
– Mãe, sua neta nasce amanhã!
– Mãe, posso dormir na sua casa? Briguei com meu marido.
– Mãe, tomou os remédios?
– Sente-se bem, mãe?
– Que saudade, mãe!

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Migrações nº 3

Estamos reunidos para discutir as regras da próxima migração. As zebras afirmam que são mais bonitas e devem continuar com o direito à liderança. As gazelas dizem ser as mais bonitas porque saltam com graça, oferecendo melhor espetáculo que as zebras brancas com listras pretas e as pretas com listras brancas. Os gnus querem chegar primeiro nos melhores pastos, difícil de acontecer se zebras e gazelas vão à frente. Os leões das regiões por onde passará a migração preferem zebras, gazelas e gnus misturados para tornar mais divertidas as caçadas.

Nós, os elefantes, não nos importamos com a ordem na migração, desde que não aumentem demais o volume da música nos bailes e nas festas.

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A vida após a morte

Morreu e ficou em dúvida entre ir para o céu ou para o inferno. Decidiu informar-se antes de seguir viagem. Procurou no Google e achou os números de telefone celular de São Pedro e do Demônio. Quanta sorte, ambos tinham conta no WhatsApp, ligaria sem gastar os créditos do seu celular pré-pago nas ligações que poderiam ser demoradas.

Ligou para São Pedro:
– Aqui São Pedro ao seu dispor direto da portaria principal do céu.
– São Pedro, sou eu. – São Pedro identifica quem liga, não precisa dizer o nome.

– Recebi a notícia da sua morte. Você tem créditos para o viver eterno a pular de nuvem em nuvem cá no céu. Quando chegará?
– Não decidi se irei para o céu ou para o inferno.

– Ah, é? Por que?
– Antes de decidir quero comparar a programação de lazer do céu com a do inferno. Irei para o lugar mais divertido. Trabalhei demais em minha vida. Quero me divertir depois de morto quando não mais tenho de trabalhar.

– OK. Vou te transferir para a telefonista. Peça para falar com o setor de eventos.
– Obrigado, São Pedro. Abração.

  • Telefonista do céu às suas ordens. Isto é uma gravação. Quando quiser, não tem de esperar o fim deste menu interminável, tecle 1 para portaria principal, tecle 2 para purgatório, 3 para limbo, 4 para confissões online, 5 para pesquisar endereços de moradores, 6 para eventos…

  • Aqui setor de eventos do céu. Isto é uma gravação. Ouça a seguir a programação da semana na praça principal.
  • Segunda-feira: apresentação do coral dos anjos.
  • Terça-feira: apresentação do coral dos arcanjos
  • Quarta-feira: apresentação do coral dos querubins.
  • Quinta-feira: apresentação do coral dos serafins.
  • Sexta-feira: ensaio dos corais aberto ao público.
  • Sábado: dia de descanso em silêncio porque anjos arcanjos querubins serafins e ouvintes não são de ferro.
  • Domingo: apresentação de todos os corais juntos.
  • Não é preciso reservar ingresso para os espetáculos porque a cantoria pode ser ouvida em qualquer cantinho do céu. Ufa!

Pode imaginar passar a eternidade a ouvir corais? Mesmo que o repertório seja variado. Consultemos a programação do inferno. Ligou para o inferno. Ligação gratuita pelo WhatsApp.

– Aqui Demônio ao seu dispor direto da porta principal do inferno. Saudação padronizada para nenhum morto pensar em facilidade.
– Demônio, sou eu. – Aqui também não carece dizer o nome.

– Li a notícia da sua morte no Facebook. Estamos à sua espera. Puxa vida, quanto calor faz aqui!
– Não sei se escolherei o céu ou o inferno.

– Aqui é muuuito mais divertido que no céu. Lá só tem corais de anjos arcanjos querubins e serafins. Coisa mas chata!
– Pois é. Deve ser um tanto enfadonho. Qual é a programação de lazer no inferno?

– Vou te transferir direto para o setor de eventos.
– Obrigado, Diabo. Abração.

  • Aqui setor de eventos do inferno. Puxa vida, quanto calor nesta sala! Isto não é gravação porque o gravador quebrou por causa do calor desta sala dos infernos sem ar condicionado. Vou ler a programação dos eventos de lazer da próxima semana.
  • No inferno está o maior grupo de prostitutas mortas de todos os tempos da espécie humana: Ana Bolena, Belle de Jour, Carol Leigh, Catherine Walters, Emma Elizabeth, Geórgia Beyer, Jeanne Bécu, Lulu White, Madame de Pompadour, Mata-Hari, Messalina, Nell Gwyn, Phryne, Sada Abe, Teodora de Bizâncio, Valerie Jean Solanas, Veronica Franco e Victorine Mement.
  • Todas as noites, as prostitutas e os outros moradores participam de festas que acabam em algazarra anarquia bagunça balbúrdia banzé caos carnaval farra gandaia mixórdia orgias e tropel.
  • Não tem programação nem convites e todos os habitantes do inferno participam porque a farra é mesmo boa.

Colocou o telefone sobre a mesa sem esperar para ouvir o fim das informações. Decidira-se pelo inferno e foi arrumar as malas para a viagem. Que lugar! Orgias todas as noites com aquelas mulheres! Era a vida após a morte que queria!

Se tivesse escutado mais um pouco, teria ouvido as últimas frases da atendente do setor de eventos do inferno:
* As festas produzem uma sujeira inimaginável limpada na manhã seguinte pela equipe de limpadores.
* Compõe a equipe de limpadores os moradores do inferno admitidos nos últimos 3 mil anos, um tempo curtinho que passa num instante. Ufa!

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O perfume

– Você chegou! Enfim!
– Cheguei. Demorei?

– Você demora, enquanto não chega.
– Estou atrasado?

– Não. Está adiantado em relação à hora combinada.
– Por que diz que demorei?

– Porque te espero ansiosa e se não chega sinto como se demorasse.
– Estou feliz por chegar para você e para mim. Está feliz porque cheguei?

– Sim. Segure minha mão.
– Sua mão é macia amorosa e cheira bem.

– É o perfume Toque de Amor da Avon.
– O cheiro é delicioso. Nunca mais lavarei a mão para guardar o seu perfume nela.

– Beije-me e nunca mais lavará os lábios para ter o gosto dos meus lábios nos seus.

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Não

Ela se negou a ele mais vezes que o satisfez, não disse sim e disse não, não para isto e não para aquilo, não nunca e jamais, palavras que conhecia bem e usava em lugar de sim, daí ele morreu e ela raciocinou que talvez devesse ter sido mais cordata porque também se divertiria com o que ele queria, mas se negara pelo prazer de negar ou porque não conseguia dizer sim de imediato e exigia dele muito esforço, se ele morrera não adiantava mais tentar satisfazê-lo, todavia o problema não era ele estar morto e não mais poder ser satisfeito e sim ela continuar viva e saber não ter feito aquilo que teria feito feliz a ambos e agora não era possível mudar.

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Migrações nº 4

Não sobra tempo para distrações em viagem porque têm de cuidar de dois grupos menos rápidos, os muito jovens e os muito velhos.

Nesta migração, quando as coordenadas do GPS do líder indicaram 3° 51’ 13.7088’‘S e 32° 25’ 25.6296’’ W, um aviso foi enviado aos migrantes. Chegamos ao arquipélago de Fernando de Noronha!

Depressa o cardume de sardinhas Sardinella brasiliensis dividiu-se em grupos de peixes, falando das peripécias da viagem do tempo e da beleza da costa. Estavam em casa onde podiam relaxar, pelo menos até começarem a ser caçados por tubarões golfinhos e outros grandes predadores.

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Um aparelho útil

– O que é aquilo?
– Aquilo o quê?

– Aquele aparelho com botões.
– Ora, vejam só, a máquina telefone!

– Uma máquina telefone! Tem a ponta de um fio ligado nela.
– Todo fio tem duas pontas.

– Sim, a outra ponta está numa tomada na parede.
– Será que funciona?

– O fio?
– Não, a máquina.

– Saberemos, testando. Encoste o telefone no seu ouvido.
– Que é o telefone?

– É a parte móvel da máquina. Encoste o telefone do outro lado. Não do outro lado da sua cabeça, do outro lado do telefone.
– Faz um barulhinho e um assobio contínuo.

– É o sinal de linha. A máquina funciona! Ligue para o Papa.
– Por que para o Papa?

– Ele disse que atenderia a todos os fiéis. Você é fiel?
– Não sou infiel, disso sei. Não ser infiel faz de mim fiel?

– Melhor perguntar ao Papa.
– Ligações interurbanas custam caro.

– O Papa atende num número 0800.
– Assim, sim.

– O Papa não estava. Foi ao dentista.
– Não faz mal. Descobrimos que o telefone funciona.

– Sim, podemos abandonar os sinais de fumaça.
– Tem razão. Não aguentava mais a fumaceira dentro de casa.

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Bar e Restaurante do Alfredo

  • O conhaque Napoleon nada tem a ver com o imperador francês Napoleão Bonaparte e sim com o Napoleão Pereira, um bebedor de conhaque frequentador assíduo do Bar e Restaurante do Alfredo.
  • A Salada César nada tem a ver com o imperador romano Júlio César ou com o chef César Cardini de um restaurante mexicano em Tijuana, e sim com a Maria, cozinheira do Bar e Restaurante do Alfredo, casada com o César, bonitão e pilantra.
  • O drink Bloody Mary nada tem a ver com a Rainha Mary I da Inglaterra que mandou matar muitos Protestantes, nem com o francês Fernand Petiot e sim com a Maria, cozinheira do Bar e Restaurante do Alfredo, de cabelos pintados de vermelho e batom vermelho nos lábios.
  • O prato Fettucine Alfredo nada tem a ver com o Alfredo di Lelio, dono do restaurante Alfredo em Roma e sim com o Alfredo que não é chef e é o dono do Bar e Restaurante do Alfredo.
  • O prato Pizza Margherita nada tem a ver com a Rainha Margherita de Savoy e sim com a vizinha Margherita, a italiana bonita homenageada pelos frequentadores do Bar e Restaurante do Alfredo.
  • A bebida Brandy Alexander nada tem a ver com Troy Alexander do restaurante Rector’s de Nova York, e sim com o Alexandre, um bebedor de pinga sem a menor ideia do que seja brandy e frequentador diário do Bar e Restaurante do Alfredo.

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Chove chuva

Chove sem parar. A chuva não para. A chuva não tem fim. Faz tempo que chove sem parar. Perdi a conta de quanto tempo. Chove todo o tempo. Se para ou é menos intensa em algum segundo, não vejo porque estou dormindo. De modo que tudo se passa como se chovesse sem parar.

Todas as vezes em que acordo na madrugada, olho a rua pela janela para ver se estão secos os paralelepípedos do piso da rua. A chuva adivinha que acordarei e recomeça um pouco antes de eu acordar. Assim é que vejo sempre molhada a rua iluminada pelo postes de iluminação pública.

Meu quarto de dormir fica no primeiro andar. A chuva passa pela minha janela no caminho das nuvens ao chão. Não vejo a chuva a não ser quando se inclina com o vento contra a minha janela. Se cai vertical, sinto apenas a brisa da movimentação da água. De fato, não sei se é a chuva a causadora da brisa porque antes de chover eu sentia a mesma brisa nas madrugadas. Também não sei se existe apenas uma brisa que vem e vai ou se é uma brisa nova todas as vezes. Mais ainda, como a brisa tem cheiros que se misturam às lembranças e à saudade pode mesmo ser que cada pessoa tenha a sua brisa particular que leva consigo para onde e quando vai. Na janela do meu quarto no primeiro andar, sinto a minha brisa e vejo o piso da rua molhado.

Durante o dia, meu local de trabalho fica no andar térreo no mesmo nível do piso da sala da cozinha do quintal e da rua. Não sei de qual altura cai a chuva que não vai além do nível do andar térreo. Não vai enquanto é visível porque desaparece da vista ao entrar na terra dos canteiros nos bueiros e nos ralos. Vai para o esgoto e de lá para o riacho encanado e para o grande rio de onde evapora de volta às nuvens e de lá cai como chuva contínua e continuada.

No andar térreo tem uma janela grande. Minha mesa de trabalho é perpendicular à janela e vejo a garagem descoberta e a rua se olho para a esquerda. Para olhar o piso molhado pela chuva tenho de me levantar da cadeira de trabalho e me aproximar da janela.

O ruído da chuva é um detalhe importante dos tempos molhados. O som constante da chuva, isto é, dos pingos d’água ao bater onde caem não é traduzível por nenhuma onomatopeia. Dura tempo igual ao da chuva. Se para a chuva para o som e recomeça se recomeça a chuva. O ruído dos alto-falantes dos vendedores ambulantes de ovos detergente e gás liquefeito de petróleo em botijões cresce lento ao virem os carros e decresce ao se afastarem. O ruído do carro do vendedor de ovos parado em frente de casa não é como o da chuva porque sempre se pode jogar uma lata nele para mandá-lo seguir viagem. Não dá para jogar na chuva uma lata que só ficará molhada e amassada.

Então o que mais me incomoda agora e possível também incomoda a outras pessoas além da umidade e da molhadeira é o ruído constante. Se antes o som da chuva ajudava a dormir, agora dificulta a chegada do sono.

Ontem quando trabalhava com os ouvidos já acostumados ao ruído, por um instante pensei que a chuva parara. Fui à janela e vi chuva a provocar enxurrada com bastante água e peixes na enxurrada. Sem brincadeira, tinha peixes na enxurrada. Eram peixes pequenos é claro, porém lembrei que atrás dos menores seguem os maiores e logo logo outros peixes navegarão pela enxurrada. Não demora e aí virão os tubarões. E se um deles olha para a direita e vê minha janela e convoca os companheiros para investigar o que tem depois daquele vidro?

Para mim, foi a gota d’água. Muito engraçado, mais uma gota d’água na chuvarada. Só rindo mesmo.

Retomando o assunto depois da piada, empacotei pertences suficientes para férias demoradas e chamei um táxi para me levar ao aeroporto onde comprei uma passagem num voo internacional para Punta Arenas, no Chile. Embarcarei num navio que me levará à Antártica onde pretendo ir à região chamada McMurdo Dry Valleys, um dos desertos mais extremos do mundo.

Lá ficarei em férias até secar a umidade que levo comigo e até que a internet porque estou levando meu notebook me conte que parou a chuva por aqui. Para quem quiser, doarei o chapéu a capa de chuva a coleção de guarda-chuvas e os pares de galocha e emprestarei os petrechos de pesca. De repente, um cardume de atuns pode passar na enxurrada e pescá-los ajudará a melhorar o almoço dos dias seguintes.

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Amazônia

Foi subindo e subindo até o galho mais alto da copa da Sumaúma. Olhou para o solo da floresta 70 metros embaixo. As sapopembas tão grandes ainda eram visíveis. Olhou para o alto e viu um céu sem nuvens azul. Sentiu o calor do sol, deitou-se num galho fechou os olhos e falou para si:
– Quanta vida boa tem um macaco-da-noite nesta Amazônia. Seria ainda melhor se não estivesse de olho em mim aquela harpia fêmea também chamada cutucurim gavião-de-penacho gavião-real uiraçu uiraçu-verdadeiro uiruuetê e uraçu. É melhor aproveitar a vida enquanto a tenho.

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Decisões em nome da honra

Surpreendeu a mulher com o amante. Em sua própria casa. Em sua própria cama. Na cama que mandara construir para dormir ao lado dela. Maldita ingrata. Maldita mulher infiel. Ah, sua vingança seria terrível.

Em frente da vitrine de revólveres cromados niquelados e pintados de preto fosco da loja de armas onde chegara sem saber direito aonde ia depois de sair e casa onde deixara os adúlteros. Que palavra, adúlteros. Uma palavra com som e aparência de tragédia, adúlteros.

Planejava e revisava os planos. Compraria um revólver infalível para acertar os tiros, voltaria à casa e mandaria chamar para conversar o amante da mulher se tivesse ido embora. Mandaria que se sentassem no sofá grande da sala de visitas e ficaria em pé a uma distância compatível com os tiros perfeitos.

Sem que tivessem tempo de reagir, atiraria na mulher um tiro indefensável e mortal e atiraria no amante outro tiro mortal, arrumaria os cadáveres no sofá, se sentaria na poltrona em frente e atiraria na própria cabeça. Um plano infalível. Podia ler as manchetes nos jornais nas edições do dia seguinte. Os amigos leriam impressionados e abanariam as cabeças em aprovação da sua força e coragem de resolver com três tiros certeiros a ofensa da mulher e do amante da mulher ao marido desonrado porém homem honrado.

Comprou um revólver enorme pesado e caro, não fossem pensar que economizara nessa situação dramática. Comprou apenas três balas para o revólver, atiraria três balas nenhuma mais. O vendedor municiou a arma porque ele não saberia como fazê-lo, sequer sabia o que significava municiar antes da explicação do vendedor. Não quis embrulho para presente. Onde já se viu, chegar em casa com um embrulho de presente e desfazê-lo na frente da mulher seria contar o seu plano secreto. Colocou o revólver no bolso do casaco onde enfiou a mão para sentir a coronha e o dedo no gatilho. Tinha de estar preparado.

O ônibus urbano não demorou a passar, de modo que chegou em casa o mais rápido que conseguiu. Entrou resoluto com passos firmes e olhar feroz. Se tivesse tempo tiraria uma foto do próprio rosto, uma selfie, com o olhar feroz. Os amigos ficariam impressionados.

A casa estava vazia, ninguém em nenhum dos cômodos. Aquele maldita ingrata ainda teve o desplante de sair para passear num dia trágico como este. Ela não perde por esperar. Frases feitas perfeitas para o evento.

Tomava água porque sentia sede, quando viu o envelope com o seu nome preso por um dos imãs da geladeira. Dentro do envelope tinha um bilhete escrito com a letra dela que ele reconheceria onde a visse escrita. Dizia ter partido com o amante, não a procurasse porque o amante o mataria, que podia ficar com a casa e tudo dentro porque ela nada queria daquela casa e dele, que decidira deixá-lo logo depois de conhecer o amante anos antes etc.

Não terminou de ler a carta porque olhou para ver a hora no relógio de parede da cozinha. Desmuniciou a arma, não vá este negócio disparar por acidente, guardou-a com as balas em uma pequena sacola plástica que pôs no bolso do casaco.

Se me apressar ainda encontrarei aberta a loja de armas para cancelar a compra deste revólver e recuperar o dinheiro que deveria ter economizado. Bem dizia minha ingrata e adúltera mulher que eu me meto em confusões por causa de decisões impensadas. Seja como for, pelo menos estou livre dela e eu não fui o causador da confusão.

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Lá, ali, acolá

– De onde você vem?
– Dali.

– Que tem ali?
– Aquilo que é inexistente aqui.

– E você de onde vem?
– De lá.

– Que tem lá?
– Igual tem aqui.

– Então por que foi lá?
– Para variar de ambiente.

– Acolá vi coisas interessantes.
– Que viu acolá?

– Que não tem ali aqui e lá.
– Você prefere ir para longe ou perto?

– Longe.
– Por que?

– Por causa do caminho, por causa de tudo aquilo para ver no caminho. Quanto mais longo o caminho mais tem para ver.
– Você tem alguma razão, embora importe mais os modos de ver o mundo que o número de objetos.

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O ladrão

O ladrão roubou aparelhos eletrônicos, porém errou de casa. Roubou da casa de uma mulher conhecida pela bondade e pelos gestos humanitários. A fama da mulher ultrapassava a vizinhança as amigas e conhecidas da igreja, chegou ao chefe dos traficantes de drogas da região. Ao saber do roubo, o chefe ordenou ao ladrão devolver os objetos roubados. Em pessoa.

O ladrão queria mandar um garoto levar os objetos, porém era melhor estar incógnito se tinha de ir em pessoa. Enfiou na cabeça um saco de papel furado nos olhos para ver o caminho, apertou o botão da campainha e entregou à mulher os objetos roubados da casa dela.

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Prova de vida

Não recebeu o benefício da aposentadoria. Um salário mínimo. Não pagaram porque foi bloqueado. Esqueceu-se de comprovar que está vivo. Tinha de ir vivo ao banco e vivo mostrar-se e vivo mostrar que é quem afirma ser. Executar a estranha obrigação chamada prova de vida.

Não depende do dinheiro da aposentadoria para viver. Ainda bem. Senão teria problemas para pagar as contas. Foi ao banco onde a gerente da conta confirmou que ele está vivo, não sabe quanto vivo e também não sabe o que significa estar vivo. Todavia, para a previdência social oficial governamental está vivo e tem direito e receber o benefício. Benefício é outro nome esquisito na história. Receber um salário mínimo por mês da previdência porque trabalhou e contribuiu em tantos anos não é benefício. Não sei qual nome daria a isso, mas não seria benefício.

Na volta do banco, um pouco menos de mil metros até chegar em casa, tem várias lojas na avenida. Passou defronte ao supermercado, cogitou de comprar biscoitos com sabor de doce de leite ou uma cerveja se hoje é sexta-feira. Não entrou no supermercado.

A loja de bolos é nova, inaugurada faz alguns dias, o cheiro de bolo é delicioso, deu vontade de comprar um bolo. Não entrou na loja de bolos.

Sentiu vontade de comprar um pão recheado de presunto e queijo na padaria onde se vende pães doces pizza em fatias bolos e cerveja em garrafas long neck. Nenhuma compra na padaria.

Próximo da rua casa ainda estava a feira livre onde se vende laranjas bananas outras frutas verduras batatas e pastel. Desviou da feira livre sem nada comprar e entrou em casa.

Preparou café que bebeu comendo um pão comprado ontem.

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Frio

Como cheguei aqui? É tão alto, tão frio, tem gelo neve nuvens e vento. Como e quando quis aqui vir que desconheço onde é? É no alto de uma montanha alta por causa do gelo neve nuvens e vento.

Tem outras pessoas aqui em cima com rostos escondidos na penumbra. Estão em silêncio, como se eu lhes fosse invisível.

Sei que estou vestido porque vejo minhas roupas e sinto frio embora vestido. Será um sonho? Sentiria frio, se fosse um sonho? Desconheço a sensação de sentir frio em sonhos. Nem frio ou fome e sinto fome sempre. Estarei morto? Os mortos vão para montanhas geladas ao morrer?

Vou me sentar em uma dessas cadeiras livres, são tantas umas ao lado das outras, em fileiras ocupadas por pessoas que olham para o topo da montanha na parede iluminada da sala grande.

A claridade é lenta e gradativa maior. Acendem luzes ou nasce o sol? As pessoas levantam-se das cadeiras. A montanha sumiu por trás de palavras como nomes a passar em uma comprida lista. São nomes de pessoas. Serão nomes dos escaladores da montanha? A montanha e os nomes dos escaladores desapareceram. A sala está iluminada e as pessoas andam e desaparecem através das portas agora abertas. Ainda sinto frio. Devia ter trazido um casaco para suportar o frio do ar condicionado desta sala de cinema.

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O tempo

Ah, descansar. Como gostaria se pudesse descansar e esquecer dos problemas das dificuldades e das necessidades não resolvidas. Tanto queria descansar que a vontade tornou-se obsessão. No entanto, quanto mais pretendia descansar, para mais distante ia o descanso. Procurava no passado e não tinha a última vez que se sentira despreocupado. Não importava lembrar-se do passado, afinal. O problema estava no presente e no futuro. Por mais que olhasse lá na frente, um pouco à frente, mais além ainda, não via o tempo de descansar.

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Casais

– Devia ser diferente!
– Mas não é.

– É assim em todos os casos?
– Não, nem sempre, tem casos com predominância de afeição amor afeição e generosidade.

– São a maioria?
– Temo serem minoria.

– Por qual razão são a minoria?
– Por ser frequente um dos membros do casal pretender dominar o outro membro.

– E se não consegue?
– Reage com negação. De fato reage por negação se o outro membro se deixa ou não se deixa dominar.

– Por que?
– Pessoas que pretendem dominar são insatisfeitas consigo próprias e não se satisfazem com ou sem conseguir a dominação.

– Qual é causa?
– Pode ser egoísmo, falta de empatia, mesquinhez o antônimo de generosidade e outras causas.

– Tem solução?
– Acontece de pessoas perceberem o mal causado aos outros e a si, quando abandonadas, mas então é tarde demais para desfazer o feito.

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O espelho

Escrevi muitos contos curtos. Gosto de alguns. De outros não estou certo se são boa ou má literatura. Gostaria que alguém os lesse e opinasse. Essa deve ser a dúvida comum dos escritores que acreditam e duvidam da qualidade do seu trabalho. Ao mesmo tempo acreditam e duvidam.

A dificuldade é achar críticos imparciais e justos. Os bons amigos, por amizade, salientarão os pontos positivos em vez dos negativos mesmo que estes sejam tudo que se pode dizer do meu trabalho. Críticos profissionais cobram dinheiro que não tenho. Críticos amadores saberão por quais razões gostaram ou não dos contos. Gostei porque é bom, Gostei porque é bem escrito, são críticas inúteis para o escritor.

O melhor crítico aquele sem poder e sem dever mentir ao autor, aquele sem poder e sem dever omitir as fraquezas literárias do texto, é o próprio escritor, o autor dos contos bons ótimos péssimos ou ruins.

Li várias vezes cada um dos meus contos. Mudei expressões e palavras em cada revisão, excluí contos inteiros, todavia tem uma hora em que o livro será entregue aos possíveis leitores para os quais por fim foi escrito. Assim sendo, antes de publicar, ouçamos a crítica especializada, o autor.

Em primeira experiência, li os contos em voz alta. Li para mim mesmo sem outros ouvintes. Se alguém me ouvisse, decretaria minha insanidade. Ler em voz alta é atividade incomum nestes dias. Contudo uma das definições de Ler no dicionário é “Pronunciar em voz alta; recitar (o que está escrito)”.

Li sentado, em pé sem sair do lugar, andando pela casa e quintal, e com vozes diferentes da minha. A leitura em voz alta adiciona as entonações de voz ao texto e não é o único benefício. Se o leitor pausa a leitura em pontos esquecidos pelo autor, faltam sinais de pontuação de pausa como vírgulas e pontos finais. Onde a leitura não pausa como o autor os sinais de pontuação são suprimíveis. Em resumo, a leitura em voz alta organiza as vírgulas do texto, mesmo que algumas acabem em desacordo com as regras gramaticais.

A segunda experiência foi mostrar os textos impressos para minha imagem no espelho. O aspecto de ideia de louco muda ao perceber a própria imagem como outro ser preso nas fronteiras do espelho. Como sendo dois seres diferentes o que mostra o texto e o que o lê do espelho.

Esta experiência precisou de auxílio técnico. Explico. Como via no espelho minha imagem espelhada, ela também me via no espelho e não lia com facilidade os textos impressos. Tive de gravar os textos em imagens invertidas por software e mostrar-me essas imagens no espelho. Se a explicação aparece obscura é porque foi mais ainda resolver a dificuldade.

Outro problema foi que minha imagem no espelho escrevia os comentários também no espelho. Não entendeu? Também não entendi os meus comentários dentro do espelho à imagem do primeiro conto que mostrei. Este problema foi resolvido com fotos do seguinte modo: fotografei os comentários de minha imagem e usei o software para invertê-las e lê-las. Invenção e tecnologia a serviço da literatura.

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As montanhas

Afinal ele chega e a encontra. Vem ofegante do esforço no último pedaço do caminho.
– Ufa! Demorei para chegar. Andei muito até aqui.
– Chegou!

– O mapa do caminho à sua casa esconde que o último trecho é a subida da montanha.
– Foi intencional no desenho do mapa.

– Por que?
– Se você subisse a montanha, eu saberia estar mesmo interessado em mim.

– Uma prova de interesse?
– Sim.

– Fui aprovado?
– Ainda não. Minha moradia está no vale do outro lado desta montanha. Irei sozinha para minha casa. Se me seguir amanhã, provará o seu real interesse por mim.

Na manhã seguinte, o telefone celular dele toca sem parar até ele atender e ouvir a voz dela:
– Por que demorou tanto?
– Vi que você chamava e não queria atender.

– Por que ainda não chegou? Está a caminho?
– Não.

– Não quer cumprir a última parte da prova para afirmar seu interesse por mim?
– Não.

– Desinteressou-se de mim?
– Sim.

– Que aconteceu?
– Conheci uma moça aqui no alto da montanha por quem me interessei. Contei a ela do meu interesse por ela e ela respondeu que acredita em mim. Acredita em minha palavra.

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O vendedor

Aprendeu desde criança. Se quisesse ser feliz, escolhesse um trabalho do qual gostasse. Gostava de vender e decidiu trabalhar como vendedor ambulante. Devia gostar dos produtos a vender para vendê-los bastante, ensinaram. Escolheu produtos dos quais gostou. Resolvido o primeiro problema, aconteceu o segundo. Gostava tanto dos produtos para vender que preferia não vendê-los. Arrumava-os no carro, ligava o alto-falante e o rádio a anunciar a mensagem de venda e dirigia em alta velocidade pelas ruas para não ser alcançado por possíveis clientes. De volta à casa, tirava os produtos do carro e os arrumava nas prateleiras. Tratava-os com cuidado para durar.

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Organização

Em cada dia nascem no mundo entre 250 e 260 mil seres humanos. Não sei onde publicaram esses números e também não sei como calcularam.
Achei a informação no Google. É bastante gente e tanto faz se é o número correto. O fato é que os nascidos causam trabalho a uma entidade presente na vida de todos os seres vivos, a morte.

Cada ser vivo ao nascer recebe da morte a sua posição na fila de morrer. A morte sabe quando morrerá cada ser vivo que acaba de nascer. Tem uma fila de morrer para cada espécie de ser vivo.

A quantidade de filas não é fixa, se em qualquer tempo espécies de seres vivos são extintas e iniciadas pela evolução. Uma espécie é de ofício considerada extinta, quando o último ser vivo da espécie morre. Então, a morte guarda o verbete da espécie no arquivo morto. Mais morto impossível.

Notaram que, de vez em quando, reaparecem indivíduos de uma espécie considerada extinta? Isso acontece porque a morte revisou o arquivo morto e achou um verbete com indivíduos da espécie vivos. Daí, retorna o verbete do arquivo morto para o arquivo vivo e a espécie deixa de ser considerada extinta.

As filas de morrer de espécies em risco de extinção são pequenas e têm poucos indivíduos. Se conseguem, os conservacionistas as fazem crescer ou mantém com indivíduos nascidos em condições especiais. De modo que a fila da espécie mantém-se pequena mas não acaba.

O centro de computação do escritório da morte está em algum lugar secreto e é várias vezes maior que o maior centro de computação do Google. Os profissionais de Tecnologia da Informação querem saber qual sistema de numeração usa na indexação dos registros das tabelas do banco de dados, todavia esse é um segredo escondido e jamais revelado. Como a fórmula do refrigerante que não pode ser aqui nomeado para não fazer propaganda gratuita.

As filas de morrer são dinâmicas. Mudam todo o tempo, é claro, por causa das mortes. Nos registros da morte os mortos saem das filas de morrer e vão para o arquivo morto dos mortos de fato. Os trabalhadores do grupo da morte, inclusive a própria, não aguentam mais palavras como arquivo morto fila de morrer morrer morte morto. Tanto que usam outras palavras no lugar daquelas. Jamais em presença de estranhos ou visitantes, quando falam em modo normal embora com irritação. Detestam intrusos.

Até algum tempo atrás, a posição na lista de morrer dos seres humanos tinha regras definidas no manual da evolução. O cálculo baseava-se em uma fórmula com vários parâmetros também segredados. As ações e motivações da morte são carregadas de segredos. Senão não seria a morte.

Recente, a morte publicou no seu blog que a evolução permitiu uma pequena modificação na fórmula de cálculo da posição fatal. Foi incluído o parâmetro merecer. Quanto mais merecido, mais longe dos primeiros lugares o que significa mais tempo de vida.

Dizem que a inclusão da regalia foi pleiteada por religiosos, entretanto nenhum grupo religioso do mundo civilizado admitiu o pleito. Um antropólogo afirmou que o pedido foi feito pelo pajé da tribo Mumduruku, índios que vivem na Amazônia, no estado do Pará, no Brasil. O pajé não confirmou e não desmentiu.

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Sim e Não

– Considera-me um incapaz?
– Nããão.

– Irresponsável?
– Nãão.

– Inútil?
– Não.

– Generoso?
– Siiim.

– Bondoso?
– Siim.

– Amoroso?
– Sim.

– Chato?
– Siim.

– Insistente?
– Siiim.

– Inconveniente?
– SIIIIM.

– Quer saber como eu te considero?
– NÃÃÃÃO!

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Braveza

Era uma vez um pé de mandioca bravo. Não era um pé de mandioca brava. Algumas vezes ficava bravo e produzia mandiocas que não cozinhavam bem. Em outras ficava bravo e produzia mandiocas que cozinhavam bem e não tinham gosto bom.

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Todos os nomes

Antes de fundar o país, o fundador leu artigos e biografias, livros de ficção geografia e história. Leu livros sobre o funcionar dos sistemas político e legal de países prontos e inacabados. Em um dos livros do escritor português José Saramago, talvez “Todos os Nomes” escrito em 1997, uma frase o impressionou: “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.”

Lembrou-se da Ceiba pentandra, árvore tropical encontrada na Floresta Amazônica que pode subir a 90 metros de altura. Ela recebeu nomes como árvore da seda, bongo kapok kumaka lupuna mafumeira malpanka ocá ora, paina lisa, poilão pulin e sumaúma (em tupi ). Se os povos e os botânicos dão tantos e tão diferentes nomes à árvore, qual deles é o real? É possível ser um dos nomes dados, todavia é pouco provável. Ao se comunicar umas com as outras, chamam-se as arvores pelo mesmo nome ou cada qual tem um nome próprio?

Não tem respostas a essas e outras perguntas do mesmo assunto. Como quer que as árvores se chamem umas às outras, ainda não nos comunicamos de modo verbal com elas. Mesmo os seres humanos não sabem os seus nomes reais, mas apenas os nomes pelos quais são chamados. Talvez o nome real de cada ser vivo seja gravado no DNA. Os estudos científicos com o DNA ainda não acharam a solução do mistério.

Na sexta-feira após o almoço, decidiu que no país que fundaria a partir da próxima segunda-feira os nomes seriam escolhidos pelas próprias pessoas. Ao nascer a pessoa receberia dos pais o nome por eles escolhido. Não seria inscrita com aquele nome no registro de nascidos. Ao chegar à idade escolar, no dia anterior ao primeiro dia de escola, a criança escolheria o nome pelo qual seria chamada dali em diante. A lista para escolha conteria os nomes possíveis no idioma do país, inclusive o que fora dado à criança pelos seus pais.

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Deixe sua mensagem

Um trabalho para a aula de religião. O portão do céu. A administração do portão do céu. Quem sabe do assunto é São Pedro, o porteiro do céu. Quando descansa São Pedro, se a todo segundo morrem pessoas e passam pelo seu portão para entrar no céu ou a caminho do inferno do limbo e do purgatório?

Ligou para São Pedro. Achou o número do portão do céu no Google. Ligou pelo WhatsApp do celular, ligação gratuita, o número do portão do céu é um número de celular com conta no WhatsApp.

Atendeu a secretária eletrônica:
– Aqui portão de entrada no céu e estação de passagem de e para inferno limbo e purgatório. Seu protocolo de atendimento é dois trilhões seguido de 12 números quaisquer. Não guardamos os números de protocolo. Temos de dizê-lo por causa da lei de atendimento ao público. São Pedro está impedido de atender porque confere a planilha de chegadas e partidas. Imagine o tamanho dessa planilha! Após o sinal infinito grave sua mensagem. Retornaremos logo que seja possível. Sua ligação é muito importante para nós.

A secretária eletrônica moveu-se para o lado e veio o sinal. Um sinal infinito é um sinal sem fim que começa e jamais terminará.

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O leão e a hiena

Era uma vez um leão que ficou afônico por causa de um resfriado e contratou uma hiena para rugir no seu lugar. Combinaram que a hiena ficaria escondida no capim e rugiria quando o leão fizesse o sinal de rugido. Acontece que o rugido da hiena parece uma gargalhada irônica. Todas as vezes que ela rugia no lugar do leão, os outros leões pensavam que ele zombava deles e davam-lhe tremendas sovas.

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Confeitaria

– Moço, quanto custa aquele doce?
– Custa 1.

– E aquele?
– Também custa 1.

– E este?
– Custa 2.

– Ih! E este?
– Custa 50 centavos. Você vai comprar um doce? Por que tantas perguntas?

– Tem algum doce que custa zero?
– Claro que não tem doce de custo zero! Seria um doce grátis e aqui vendemos doces, não os damos.

– Vou-me embora.
– Sem comprar nenhum doce, depois de perguntar os preços de tantos?

– Não posso comprar um doce.
– Por que?

– Porque morri pouco depois da inauguração desta loja. Antes de morrer, queria saber quanto custavam os doces e se conseguiria comprar algum com as moedas que ganhava de esmola.
– Sabe, esta loja me pertence desde a inauguração, quando era menos bondoso e mais jovem. Todavia, mesmo naquela época eu teria dado um doce a você, se não tivesse dinheiro para pagá-lo.

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A bela e a fera

Era uma vez a Bela e a Fera. No conto de fadas viveram aventuras e peripécias, casaram-se e foram felizes para sempre. É como termina a história escrita por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, e reescrita por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, em 1756.

E depois? Que aconteceu depois? Ora, a história continuou. A Bela e a Fera tiveram filhos, uma menina um menino e um casal de gêmeos. Moravam no castelo da Fera, reformado e redecorado. Quartos para as crianças e uma ala para visitas, sempre os parentes da Bela que vinham para uma visitinha e ficavam semanas a fio.

Num fim de tarde, a Fera chegou no castelo depois de um dia difícil no escritório, desejando uma cerveja o sofá o controle remoto do televisor e o jornal. Abriu um lado da porta dupla principal, olhou sorrateiro para dentro, tentando entrar sem ser notado. Não conseguiu. A Bela e as crianças o esperavam. A Bela, com as mãos na cintura, disparou:

– Comprou chocolate em pó fraldas descartáveis iogurte leite pão presunto queijo ralado sorvete e suco de laranja? Se esqueceu outra vez, pode voltar daí para o supermercado porque as crianças estão com fome e não tem nada para o café da manhã de amanhã. Não desapareça tão depressa, senhor morador eventual deste castelo. Antes de ir, você precisa falar com seus filhos. Belinha disse que só come se papai lhe der a sopa. Ferinha passou o dia rugindo como um leão, deixou-me maluca com o barulho. Os gêmeos não me obedecem, dizem que não sou assustadora como o papai que é mais divertido com suas histórias de caçadas. Trate de falar com eles que não aguento mais este castelo enorme cheio de escadas e salões de baile que dão trabalho danado para limpar. Passo o dia lavando, limpando, encerando aspirando e você chega com essa cara de quem quer agrado. Vou para a casa de papai e você fica com essa molecada e a sujeira que eles fazem.

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O poder

Era uma vez os donos do universo. Em análise acharam que a Terra existia fazia demasiado tempo e decidiram destruí-la para rearranjar os planetas do Sistema Solar. Tomada a decisão, restava escolher o dia. Foi aí que apareceu o problema.

Se miravam do lado da Terra onde já era o dia seguinte, o outro lado ainda estava no dia anterior. Mudando de posição, se miravam do lado onde estava um dia, o outro lado já vivia o dia seguinte. A Terra não tinha um dia fixo.

Não conseguindo escolher o dia da destruição da Terra, decidiram deixá-la em paz. É claro que também reclamaram daquele que inventara de fazer a Terra girar em torno do próprio eixo e em torno do Sol.

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Exemplo

Acordou espantado. Qual seria a hora? Olhou o relógio na parede. A casa tinha vários relógios de parede. Todos os relógios da casa estavam em paredes. A mulher e ele não usavam relógios de pulso porque bastava levantar os olhos para saber a hora. Estava atrasado para o trabalho. Preparou-se com pressa para sair e a mulher perguntou:

– Aonde vai?
– Ao trabalho.

– Hoje?
– Sim. Sou exemplo de pontualidade para os empregados.

Saiu apressado. Não estranhou as ruas com poucos veículos e pessoas. Estão todos no trabalho, menos eu. Chegou à empresa onde não tinha mais ninguém além dele. A empresa tinha muitos relógios-calendário nas paredes. Levantou os olhos e viu o dia da semana e a data: Domingo, 25 de junho de 2017. Que bom, estou adiantado para o dia de trabalho amanhã, segunda-feira.

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Um tigre-de-bengala

Era uma vez um tigre-de-bengala feroz. Tão feroz que os outros bichos se escondiam quando ele passeava pela floresta. Não caçava porque os bichos compravam no açougue da floresta as carnes suas preferidas. Mandavam entregar na sua casa.

Certo dia, cansou-se da solidão da floresta onde ninguém queria conversar com ele. Mudou-se para a cidade. Na cidade surpreendeu-se porque as pessoas não fugiam dele o ignoravam. Pareciam não vê-lo. Foi ao zoológico e conversou com o tigre-siberiano. Este disse que as pessoas não o notavam por não acreditarem num tigre solto pela cidade. Menos ainda num tigre-de-bengala solto. Consideravam absurdo e inacreditável estar um tigre fora da floresta ou da jaula do zoológico.

Voltou para a floresta, conseguiu um emprego de guarda de trânsito para receber salários e ter dinheiro para comprar a própria comida. Continua feroz. Contudo tinha amigos colegas e recebia visitantes que vinham para ouvir as aventuras da sua vida na cidade.

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A onça-pintada e a leoa

A onça-pintada da Floresta Amazônica no Brasil ficou amiga da leoa da cratera de Ngorongoro na Tanzânia. Encontraram-se através de amigos comuns no Facebook. Enviaram e receberam mensagens, receitas, fotos dos filhotes e números dos telefones celulares. Antes, não podiam falar-se ao telefone por causa do custo das ligações internacionais. Agora, falam-se quase todos os dias, nos intervalos das caçadas e dos cuidados com os filhos e com os machos, machos dão mais trabalho que os filhotes. Falam-se pelo WhatsApp. Em conversas com vídeo, mostram-se uma à outra, os filhotes a brincar, as moradias. A onça-pintada está muito curiosa para ver fotos do leão da leoa. A leoa não mostra o leão porque é muito ciumenta.

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Chuva

– Choveu?
– Não.

– Que é isso no chão?
– Água de chuva.

– É água da chuva e não choveu?
– É água de chuva e não água da chuva.

– Tem diferença?
– O chão está molhado de água que joguei tirada do tambor de coleta de água da chuva.

– Então, choveu.
– Choveu faz uma semana, não hoje.

– Quando perguntei se choveu, não perguntei em qual dia.
– Se continuar com essa conversa, jogarei um balde de água de chuva na sua cabeça!


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