Viagem de ida

capa de livro de contos de Benedito CarneiroUma viagem demorada e inesperada. É uma estrada longa. Tem trechos em linha reta horizontal em declive e em aclive, curvas para a direita e para a esquerda.

No caminho onde pouco se move naquela hora, o carro alterava o silêncio da madrugada com o ruído do motor e dos pneus em atrito com o asfalto. Em frente para cima para baixo para a esquerda e para a direita. A escuridão era iluminada pelos faróis do seu automóvel e diminuída pelos de veículos com os quais cruzava ou ultrapassava na rodovia de duas pistas, uma para ir e outra para voltar. Ele ia pela pista de ir e voltaria pela de voltar.

De vez em quando, luzes de uma cidade ou posto de combustíveis com lanchonete e restaurante anexos. Nesses momentos, pensava em quem vivia na cidade ou trabalhava no posto de combustíveis, lanchonete e restaurante. Quais eram seus sonhos alegrias e tristezas, suas vozes e seus rostos, suas mulheres seus maridos e seus filhos. Tentava imaginá-los dormindo amando trabalhando estudando sorrindo e chorando.

Sentia-se inclinado a sentir compaixão por aquelas pessoas que sofriam, embora não o seu sofrer porque cada pessoa tem seu próprio pedaço de muitas ou poucas alegrias e muitas ou poucas tristezas.

Parou em um posto de combustíveis para reabastecer o tanque do carro e foi à lanchonete restaurante para comer um sanduíche e beber uma xícara de café. Comeu e bebeu devagar para olhar os vendedores e a moça do caixa. Pensou em como viveriam fora do trabalho. Para trabalhar de madrugada, tinham de dormir em parte do dia e perder o tanto de vida humana que circula durante o dia.

Amanhecia, quando ainda ao volante do carro entrou na cidade onde ela não mais vivia. No único hotel da pequena cidade, vestiu o terno preto depois de banhar-se e barbear-se, comeu o café da manhã e dirigiu até o cemitério.

Foi reconhecido e abraçado com ternura por alguns dos presentes. Sem desviar os olhos dele, uma amiga discursou em prantos sobre a falecida. Despediram-se da morta e a cerimônia do enterro terminou. Quando muitos já se dirigiam para seus carros, a amiga que discursara aproximou-se dele, abraçou-o com força e entregou-lhe um envelope lacrado a ele endereçado com a letra da moça morta.

Convidaram-no para ficar mais tempo, almoçar com os amigos, dormir na cidade e seguir viagem no dia seguinte. Ele recusou os convites, despediu-se, dirigiu até um ponto da rodovia onde os construtores deixaram grandes pedras para ornamentar a margem, da menor chegou à maior como fizera em viagens anteriores na mesma rodovia, sentou-se, tirou o envelope do bolso para ler a carta.

Ela escreveu que sentia tê-lo rejeitado e desprezado anos antes e sabia que ele se fora da cidade por sua causa. Contou que com a sua partida, sentiu sua falta, queria vê-lo e ele não estava nos lugares onde se encontraram tantas vezes, ela com as amigas e os amigos, ele com os amigos que sempre pareciam discutir assuntos sérios e complexos.

Contou que devagar percebeu que o amava, quis dizer-lhe e sentiu medo de atrapalhar a vida dele longe da cidade pequena. Sentia que causara mal e não mais tinha direito de mudar a história. Mesmo assim, teria de contar-lhe quando se encontrassem, mas ele não mais voltara. Quando a doença foi diagnosticada em estado avançado, escreveu a carta e a entregou à amiga.

As horas do dia passaram, a terra girou para mover a luz do sol, veículos passaram num sentido e no outro, alguns abanaram a mão, talvez o reconhecessem. Ele ainda sentado na pedra grande com a carta no bolso da camisa e os olhos molhados de lágrimas.

Um pouco antes de anoitecer ligou o motor do carro, entrou na rodovia no sentido de ir, dirigiu toda a noite até sua casa na outra cidade e nunca mais percorreu aquela rodovia no sentido da pequena cidade onde ela ficara para sempre.

Benedito Carneiro

Escritor, físico, professor, locutor de rádio e analista de sistemas.

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